O meu ano na dança

Em 2020,

Eu assisti online a várias obras de dança: pré-gravadas, gravadas especialmente para este momento de isolamento social, transmissões ao vivo.
Eu assisti a mais obras de companhias brasileiras do que de companhias internacionais.
Eu assisti a mais obras de dança contemporânea do que de ballet clássico.
Eu assisti a poucas lives, mas todas de profissionais da área.
Eu assisti à dança em outros meios, de videodança a palestras, de trechos curtos a documentário.
Eu ouvi trilhas sonoras de espetáculos de dança.
Eu ouvi podcasts de dança.
Eu li textos sobre dança.
Eu participei de uma oficina sobre produção audiovisual em dança.
Eu mantive o blog com posts nem tão regulares ao longo do ano todo.
Eu fiz newsletters sobre dança.
Eu pesquisei e escrevi profissionalmente sobre dança.
Eu não dancei. Mesmo assim, a dança foi presente na minha vida como nunca.
E este é o meu desejo para o próximo ano: a dança sempre presente, da maneira que for.

Até 2021.

Um Natal além do Quebra-Nozes

Uma das coisas mais legais do ballet clássico é existir um repertório específico sobre o Natal. Justamente por isso, uma das coisas mais cansativas do mês de dezembro é que o ballet clássico se resume a O Quebra-Nozes. Eu sei, é difícil fugir, o repertório é encantador, a história é uma graça, o soldadinho é fofo, mas depois de uma semana eu mal posso olhar para ele.

Nem entrarei no mérito da simbologia natalina, com tantas referências ao inverno e aos países do Norte, quando cá no Sul estamos em pleno verão e temos uma outra dinâmica, outras referências, outras vivências.

Estou azeda? Um pouco. Reflexo de uma pandemia que, no Brasil, não parece ter hora para acabar.

Nesses momentos em que o chão sob nossos pés não consegue nos manter estáveis, buscar nossas memórias mais doces é um alento.

O cheiro de ameixa fresca e manga rosa. O quentume da cozinha por causa do forno ligado. Farofa, de vários tipos. O presépio que eu montava com a minha tia na infância. O pisca-pisca da árvore. Os desenhos natalinos que eu obrigatoriamente assistia na manhã do dia 25. Os primeiros acordes da “Dança Chinesa”, “Dança Russa”, “Dança dos Mirlitons”, além da “Valsa das Flores”, todos de O Quebra-Nozes. Para mim, a música desse repertório é ainda mais presente que a coreografia.

Sim, todo um discurso para no fim dizer que eu não consigo fugir do soldadinho. Ele surgiu na minha vida antes mesmo de eu começar a dançar. Sejamos amigos, então. Quem sabe assim, ano após ano, ele volte a me dizer que ainda é possível sonhar.

Ilustração: Cristianne Fritsch

Um pas de deux para acalentar o coração

Semana passada não teve publicação. Nesta, não poderia deixar passar. Mas quem disse que consegui escrever um texto como deveria? Há sete dias, perdi a minha avó materna e ainda não consigo me mover no mundo. Sabe quando estamos meio fora de órbita? É assim.

Eu ainda não montei a árvore de Natal, eu não estou no clima natalino, mas hoje este vídeo me iluminou por dentro. Como um pisca-pisca mostrando que a beleza existe e também mora em uma bailarina e um bailarino. Neste caso, a Isabella Boylston e o James Whiteside dançando o grand pas de deux de O Quebra-Nozes.

Assim como este vídeo acalentou o meu coração, espero que aconteça o mesmo com vocês. A arte salva, como me salvou hoje mais uma vez.

“Grand pas de deux”, O Quebra-Nozes, American Ballet Theatre, Isabella Boylston e James Whiteside, 2020.