Um Natal além do Quebra-Nozes

Uma das coisas mais legais do ballet clássico é existir um repertório específico sobre o Natal. Justamente por isso, uma das coisas mais cansativas do mês de dezembro é que o ballet clássico se resume a O Quebra-Nozes. Eu sei, é difícil fugir, o repertório é encantador, a história é uma graça, o soldadinho é fofo, mas depois de uma semana eu mal posso olhar para ele.

Nem entrarei no mérito da simbologia natalina, com tantas referências ao inverno e aos países do Norte, quando cá no Sul estamos em pleno verão e temos uma outra dinâmica, outras referências, outras vivências.

Estou azeda? Um pouco. Reflexo de uma pandemia que, no Brasil, não parece ter hora para acabar.

Nesses momentos em que o chão sob nossos pés não consegue nos manter estáveis, buscar nossas memórias mais doces é um alento.

O cheiro de ameixa fresca e manga rosa. O quentume da cozinha por causa do forno ligado. Farofa, de vários tipos. O presépio que eu montava com a minha tia na infância. O pisca-pisca da árvore. Os desenhos natalinos que eu obrigatoriamente assistia na manhã do dia 25. Os primeiros acordes da “Dança Chinesa”, “Dança Russa”, “Dança dos Mirlitons”, além da “Valsa das Flores”, todos de O Quebra-Nozes. Para mim, a música desse repertório é ainda mais presente que a coreografia.

Sim, todo um discurso para no fim dizer que eu não consigo fugir do soldadinho. Ele surgiu na minha vida antes mesmo de eu começar a dançar. Sejamos amigos, então. Quem sabe assim, ano após ano, ele volte a me dizer que ainda é possível sonhar.

Ilustração: Cristianne Fritsch

Um pas de deux para acalentar o coração

Semana passada não teve publicação. Nesta, não poderia deixar passar. Mas quem disse que consegui escrever um texto como deveria? Há sete dias, perdi a minha avó materna e ainda não consigo me mover no mundo. Sabe quando estamos meio fora de órbita? É assim.

Eu ainda não montei a árvore de Natal, eu não estou no clima natalino, mas hoje este vídeo me iluminou por dentro. Como um pisca-pisca mostrando que a beleza existe e também mora em uma bailarina e um bailarino. Neste caso, a Isabella Boylston e o James Whiteside dançando o grand pas de deux de O Quebra-Nozes.

Assim como este vídeo acalentou o meu coração, espero que aconteça o mesmo com vocês. A arte salva, como me salvou hoje mais uma vez.

“Grand pas de deux”, O Quebra-Nozes, American Ballet Theatre, Isabella Boylston e James Whiteside, 2020.

La Lithuanienne

Depois de William Tell (1873), vamos falar sobre mais um dos quatro divertissements coreografados por August Bournonville: La Lithuanienne (1844). Com música de H. C. Lumbye, sua estreia aconteceu em Copenhague, com montagem do coreógrafo François Lefèbvre, e mais tarde foi apresentada em Estocolmo com montagem do próprio Bournonville. Essa pequenina obra ficou quietinha por muitos anos até que Harald Lander – bailarino, coreógrafo e diretor do Royal Danish Ballet – a trouxe de volta em 1949. Mais informações podem ser lidas aqui.

A coreografia tem pouco mais de dois minutos de delicadeza. Duvido vocês não quererem dançar por aí.

La Lithuanienne (1844), de August Bournonville, Bournonville Festival 2005, Marie-Pierre Greve.