Dançar em qualquer lugar

Uma menina febril de três anos dançando na sala de espera do pediatra. Era eu. Quando minha mãe me contou essa história, fiquei me imaginando toda serelepe dançando sem me importar com ninguém.

Crianças costumam ser assim, mas o tempo passa, elas viram adultas e dançar na frente dos outros só em situações muito específicas. Dançar por aí está fora de cogitação.

Bem, nem todo mundo é assim depois de crescer. Eu ainda danço publicamente sem me importar com as outras pessoas.

Eu tenho bom senso, não danço na sala de espera antes de uma consulta tampouco me comporto por aí como se estivesse em um palco da Broadway. Mas, de maneira mais contida, danço na rua, nos corredores do supermercado, nas sanfonas dos ônibus gigantes de São Paulo, em casa. O tempo todo.

Uma vez, na fila do caixa de um supermercado, a atendente me chamou umas três vezes, mas eu demorei a perceber porque estava dançando e cantando a música que tocava no estabelecimento. Ganhei um sorriso e não uma cara feia. E essa é apenas uma situação, tenho várias para contar.

Sim, eu também canto, ou a minha música preferida do momento, ou alguma associada à situação, ou invento na hora mesmo. Quem mais convive com isso são os meus cachorros, o Logan e a Bela, que sempre ganham músicas na hora de comer, tomar remédio e ganhar carinho. Quem recebe meus áudios por mensagem também costuma me ouvir cantar aleatoriamente, vez ou outra.

A sensação é de que a minha vida é um musical de apenas uma espectadora: eu.

Parece que sempre foi assim, mas as coisas se intensificaram lá em 2007, quando comecei a fazer aulas de ballet e dança do ventre. Depois de passar por dez danças, pensem comigo: em maior ou menor grau, meu corpo adquiriu repertório de movimentos bem distintos. Quando danço em casa ouvindo música, e então posso me soltar, esses movimentos surgem para compor uma coreografia que nunca mais vou conseguir repetir.

Eu disse várias vezes ao longo dos últimos tempos que quero voltar a dançar. Pensando bem, eu nunca parei de fato. Eu só não faço aulas de dança, e sinto muita falta, mas a dança está ali, o tempo todo, e eu não havia percebido isso.

Vocês também dançam assim ou é coisa minha?

Às vezes, penso que eu deveria sossegar, noutras, penso que sempre fui assim. Por isso, vou seguir dançando por aí até o fim dos meus dias.

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A playlist “Dançar em qualquer lugar” foi criada especialmente para o post, com as minhas músicas preferidas do momento. Aqui está a lista completa e apenas uma prévia de cada música. Para abrir diretamente no Spotify e ouvir as músicas inteiras, clique aqui.

Para fazer o amor voltar

Nesses treze anos escrevendo sobre dança, de uma maneira ou de outra, já falei diversas vezes a respeito do cansaço, da falta de vontade, de não querer saber de dança.

Eu tenho períodos de não assistir nem ler nada. Passo muito tempo sem acessar o perfil do blog no Instagram, para ter um descanso.

Aí, a vontade volta. Assisto, leio, quero sair dançando loucamente por aí. Com vocês também é assim ou o amor nunca aferrece?

Às vezes, as coisas voltam aos eixos sem qualquer esforço da minha parte; noutras, eu tenho de ir atrás da dança para fazermos as pazes. Como dessa vez.

Selecionei dois vídeos que conseguem me despertar. Basta eu assisti-los e o amor volta, o sorriso retorna e eu me sinto confortável com a dança novamente.

Primeiro, um ensaio de flamenco. Depois, uma gravação de jazz. Alguém consegue perceber a semelhança entre os dois? As pessoas estão felizes dançando, a alegria salta aos olhos. Talvez seja isso o que eu tenho buscado na dança.

Día Internacional del Flamenco 2019. Ballet Nacional de España. Ensayos de Electra.

All These Things That I’ve Done
(Coreografia: Nicholas Palmquist. Estúdio: Steps on Broadway)

Para descansar o coração

Houve um tempo em que eu assistia a vídeos de ballet para acalmar meu coração. Curto ou longo, não importava, era o meu respiro no dia.

Já contei algumas vezes que o ballet e eu estamos distantes, ele parece um outro mundo para mim. Parecia. Pesquisando nos meus arquivos, para publicar no blog, encontrei um vídeo há muito tempo guardado. Assisti do começo ao fim e fiquei feito manteiga derretida sob o sol do meio-dia. A música, a coreografia, as bailarinas, o som das sapatilhas de ponta batendo no palco. Uma delicadeza.

Onze anos atrás eu escrevi o texto “Da solidão” ao som dessa mesma música. Pelo visto, ela tem algum encanto sobre mim.

Hoje não tem texto longo, hoje não tem questionamento, hoje não tem informação. Como muitas pessoas, estou cansada, muito cansada. Quem compartilha desse mesmo sentimento, que essa delicadeza também acalme o seu coração.

Clair de lune, coreografia de Maria Chugai, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, 2016.
Para assistir a um vídeo dos ensaios, aqui.