Fluidez dos movimentos

“De uma perspectiva espanhola, quanto mais elegante são o olhar, a pose dos braços e os movimentos, mais realistas eles são”.

Esse comentário é de Eduardo Laos, diretor da montagem de Dom Quixote para o Staatsballett Berlin, reproduzidas no post “A elegância em Dom Quixote“.

Lembrei dessas palavras ao assistir Danza IX (2018), do Ballet Nacional de España. Fiquei encantada pela fluidez dos movimentos: a dança faz parte do corpo da bailarina. Não conseguimos mais enxergar o limite entre a bailarina e os movimentos, ela é dona dessa coreografia, ela quem conta essa história. Não, ela não é a coreógrafa, essa obra é de Victoria Eugenia ‘Betty’. Mas se dissessem que é obra de Aloña Alonso, bailarina dessa apresentação, alguém duvidaria? Sem falar na elegância, é beleza do começo ao fim.

Danza IX (2018). BNS Historia. Ballet Nacional de España.
Coreografia: Victoria Eugenia ‘Betty’. Bailarina: Aloña Alonso.

Eu vejo essa fluidez de movimentos como um dos grandes objetivos na dança. Dançar sem parecer que houve tanto estudo, dançar sem transparecer as muitas horas de ensaio, dançar sem pensar na coreografia, dançar sem questionar, dançar simplesmente por dançar. Deixar a dança falar por si mesma.

Será que alguma vez eu consegui isso, lá atrás? Acredito que não. Mas se um dia eu voltar a dançar, esse vídeo será o meu exemplo a ser seguido, o que quero alcançar um dia. Quem sabe eu consiga.

Dança da internet

Eu liguei um computador pela primeira vez aos 15 anos. Sabe quando eu tive o meu primeiro e-mail? Aos 18. Fui ter um blog aos 23 anos. Fui ter o meu primeiro perfil em uma rede social aos 24. Hoje eu tenho 42 anos.

A minha adolescência foi uma longa temporada de Confissões de adolescente, série da TV Cultura na década de 1990. Não cresci sob os olhares e likes das redes sociais. Compartilhar a própria vida na internet de maneira tão natural me parece algo estranho, fora do lugar.

Conto isso para dizer que o TikTok é uma incógnita para mim: uma rede social com mais de 73 milhões de usuários ativos no Brasil, segundo o DataReportal, em que vídeos de 15 segundos viralizam mais rápido que fofoca na família. Pois foi lá que as dancinhas de internet se tornaram febre.

Eu só ouvia falar e pensei que seria algo passageiro. Ano passado, li uma matéria sobre os vídeos de dança mais vistos e, depois de assisti-los, fiquei impressionada com a superficialidade da coisa toda. Até que a repescagem do Dança dos Famosos 2022 foi “dança da internet”. Uma competição séria, com três profissionais de renome no júri técnico. Depois, correu pela internet uma quadrilha de festa junina em que a dança tradicional deu lugar à “dança da internet”. Por fim, uma marca de celular lançou recentemente uma competição de “dança da internet”, com júri composto por famosos no TikTok. O que está acontecendo, “dança da internet” virou modalidade de dança?

Não queria tirar conclusões precipitadas, então, o jeito era passear pela plataforma. Foi o que eu fiz. Passei quase uma hora assistindo apenas às dancinhas do TikTok. Levando-se em consideração que cada vídeo tem apenas 15 segundos, eu vi bastante coisa.

Confesso, o que mais me impressionou foi a exposição de meninas adolescentes em trajes sumários sensualizando para milhões de pessoas. Poderíamos ficar um tempão analisando essa questão, mas como este blog é de dança, vou me ater a isso, mas reafirmo que acho preocupante.

Nos primeiros vídeos, “Até que dançam bem”, eu pensei. Depois de uns 20 minutos, senti que estava assistindo à mesma coisa. Quase uma hora depois, as coreografias eram bem familiares. Peraí, ninguém está inventado a roda: movimentos amplos dos braços e quadril se movimentando sem parar? Cansei de ver isso, minha gente!

Apenas para dar alguns exemplos ‒ clique no nome para os vídeos abrirem em uma nova janela ‒, temos o clássico nacional “Segura o tchan“, do É o Tchan; o grande hit das festas, “Macarena“, do Los Del Rio; e o meu preferido, “Ragatanga“, do Rouge. Quem tem a minha idade e não dançou publicamente uma dessas coreografias, não viveu no Brasil.

Desde então, aconteceram algumas mudanças cruciais. Antes, o sucesso das coreografias era uma consequência do sucesso das músicas. Hoje, o sentido é inverso, as coreografias impulsionam o sucesso das músicas. Além disso, a plateia é outra, de poucas pessoas conhecidas e próximas a milhares de pessoas desconhecidas e distantes. Por fim, além da dança, agora importa quem dança. Diretamente da sala de casa, uma pessoa pode virar celebridade instantânea, alcançar fama, dinheiro e status. Mal comparando, é como se a primeira-bailarina do bairro tivesse conseguido o papel principal de Giselle e se apresentasse no palco do Teatro Municipal.

A MINHA OPINIÃO

Desde os tempos de blogueiras, youtubers, influenciadores e produtores de conteúdo ‒ nomes diferentes para a mesma coisa ‒, os limites entre profissional e amador se confundem. Existe uma linha tênue entre “saber” e “parecer que sabe”. Muitas vezes, o conhecimento e a experiência são engolidos pela fama, quem estudou e trabalhou com um assunto a vida toda acaba preterido pelos analistas de última hora, pouco importa se o que dizem é verdade ou não. É muito mais fácil para essas pessoas conseguirem espaço, visibilidade, trabalho, reconhecimento e dinheiro.

Há quem fure essa bolha e consiga destaque naquilo que sabe? Sim, ainda bem!, mas nem sempre conseguimos saber quem são essas pessoas.

Em relação à dança, por enquanto, existe uma distinção clara entre profissional e amador. Se por um lado, a dança é uma das artes mais renegadas, por outro, para dançar profissionalmente é preciso saber dançar. Não dá para fingir, tampouco fazer de conta. Não importa a modalidade, ou você dança ou você dança, não existe outra opção. Ou não existia.

Eu não tenho problema algum com a “dança da internet” em si, as minhas questões são outras. Eu me pergunto, se quem dança na sala de casa está ganhando o espaço, o dinheiro e a fama que muitos profissionais não conseguiram a vida toda, isso vai afetar o mercado profissional? Vai afetar a formação dos profissionais de dança? Nas audições, será exigido ter milhares de seguidores nas redes sociais, como já acontece com atores e atrizes? A “dança da internet” vai sair das telas e migrará para os palcos? A percepção do público em geral a respeito da dança vai mudar daqui para frente?

Eu não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas, mas todas elas estão borbulhando na minha cabeça. Só sei que vivemos em um país onde fama e dinheiro valem mais do que cultura e conhecimento, e isso faz toda a diferença.

É exagero meu, por ter crescido em outra época, ou vocês veem da mesma maneira? O que vocês acham?

A primeira-bailarina do bairro

Ela chega altiva no estúdio de dança. Independentemente da sua altura, é longilínea. Coque impecável, agasalho de dança cheio de estilo, que esconde por baixo a roupa de aula, meia-calça rosa fazendo as vezes de legging. Um brilho natural na pele, um gloss rosa na boca, cílios naturalmente alongados.

Aliás, o que não é alongado nela? Durante o aquecimento, o tornozelo vai parar na testa, o pé, na cabeça. Na hora da aula, ela nunca erra as sequências da barra. E as diagonais? Chainé, chainé, chainé, chainé e termina com um arabesque, porque ela realmente acredita que está dançando a “Variação de Odette”, de O lago dos cisnes.

Só tem um problema: ela nunca está alinhada, porque o nariz empinado não deixa. Sempre para cima. Ela não acha, ela tem certeza que nasceu para ser primeira-bailarina, só não está no Bolshoi ou no Royal porque o destino não quis.

Conhece alguém assim?

Eu chamo essa aluna de “primeira-bailarina do bairro”: é a melhor sim, no bairro dela. Ela não seria profissional em nenhum lugar, tampouco dança suficientemente bem para fazer frente às bailarinas de grandes companhias.

Mas você, que começou adulta, ainda não sabe disso. Ao vê-la dançar, acredita que nasceu com dois pés esquerdos. Não importa o seu tipo de corpo, você não será alongada nunca. O joelho teima em dobrar. Você se sente estranha com aquela meia-calça cor de rosa. O collant mostra mais do que devia. Você nunca vai acertar o tempo do pas de bourré. Diagonal? Você não consegue ir de um ponto a outro, você se perde no caminho e ainda esbarra na colega de turma (eu já fiz isso). O seu nome é frustração.

“Por que eu e essa bailarina estamos na mesma turma?”, você diz para si mesma, “Tem alguma coisa errada”. Não, não tem. Vocês estão na mesma turma por um motivo: ela não é tão boa quanto pensa nem você é tão ruim quanto imagina.

Eu conheci várias delas, tanto no meu tempo de aulas de ballet quanto depois. Hoje eu acho graça, porque essa vaidade imensa parece coisa de vilã adolescente daqueles filmes da Sessão da Tarde, sabe? Ou da Netflix, dependendo da sua idade.

Como reconhecê-la? Conhecimento sobre ballet clássico. Quanto mais você souber, quanto mais você estudar, quanto mais você assistir, mais fácil será reconhecer quem realmente domina a técnica clássica (e isso vale para as aulas presenciais, as aulas online e as publicações nas redes sociais).

É tão importante assim saber isso? Sim e não. Sim, para você não atrapalhar o seu desenvolvimento na dança. Não, porque não é para levar tão a sério. Siga o seu caminho e que ela siga o caminho dela. No fim das contas, na dança é você e você, e mais ninguém.