A verdade desconfortável de ser uma bailarina negra

Marie-Astrid Mence é uma bailarina francesa, artista sênior do Ballet Black e, atualmente, faz parte do elenco do musical Rodgers & Hammerstein’s OKLAHOMA.

No vídeo The Uncomfortable Truth of Being a Black Ballerina (A verdade desconfortável de ser uma bailarina negra), dirigido pela Rebecca Murray, a vemos dançar enquanto ouvimos sua voz narrando algumas coisas pelas quais ela passou por ser uma mulher negra no ballet clássico.

Eu traduzi livremente o texto da Marie-Astrid Mence. Claro, o grande impacto é vê-la e ouvi-la ao mesmo tempo, mas ler e assistir em momentos diferentes não diminui a experiência. A sua história é muito importante e deve ser conhecida. O que ela conta não é uma exceção, mas a regra: em maior ou menor grau, isso é o que acontece com as bailarinas negras.

O final é especialmente emocionante. Eu assisti algumas vezes e os meus olhos ficaram marejados toda vez.

The Uncomfortable Truth of Being a Black Ballerina (2020)
Direção: Rebecca Murray
Bailarina: Marie-Astrid Mence
Publicado no site Nowness


[tradução do texto de Marie-Astrid Mence]

Sapatilhas de ponta são especificamente projetadas para combinar com seu tom de pele, para estender a sua linha da perna. Eu achava engraçado e sempre me perguntei por que eles nunca escolheram combinar com o meu.

Eu tinha 19 anos de idade a primeira vez em que eu vi outra bailarina negra. Eu lembro desse sentimento, em casa em Paris, desempregada, sem saber se eu poderia dançar. Eu chorei, pensei que eu era a única que estava lutando.

Crescer como uma bailarina negra era uma luta silenciosa, cheia de comentários racistas constantes que você ouve desde cedo. A premissa era que o meu corpo não foi feito para o ballet: “Você parece um menino”, “O seu coque é muito grande”, “O seu cabelo não é adequado”.

Sem representação ao longo de sua formação, e às vezes em sua carreira, você tem de realmente acreditar em si mesma, que você pode realizar os seus sonhos.

Mas eu sempre me perguntei: e se a minha pele fosse mais clara, meu cabelo, mais loiro, eu seria vista como uma artista e não como uma pessoa negra?

Os professores me encorajavam constantemente a mudar de carreira.

Uma vez me disseram que eu não poderia ser selecionada com todas as [não entendi a palavra] brancas da minha turma de ballet porque eu não parecia feminina o suficiente, eu ficaria melhor como parte do elenco masculino. Então, eu fui selecionada como um bailarino.

Você deveria fazer hip-hop, eles me disseram, porque vocês são grandes dançarinos.

Eles disseram que eu nunca teria um emprego no ballet, essa indústria não estava pronta para mim, não estava pronta para nós, pessoas negras.

Eles gritaram que se eu não fizesse minha bunda desaparecer, então minha professora a cortaria com um facão, uma faca usada para cortar cana-de-açúcar nas plantações.

Eu estava cansada do bullying e mentalmente exausta.

Talvez eles estivessem certos. Talvez eu devesse ter desistido. Mas eu queria lutar, lutar para as bailarinas negras terem uma chance igual nesta arte. Eu queria provar que qualquer um pode dançar, não importa qual seja a cor da sua pele.

Você vê sapatilhas de ponta sendo projetadas para combinar com seu tom de pele e estender sua linha da perna. Eu acho engraçado porque eu sempre me perguntei por que eles nunca escolheram combinar com o meu.

Minha linha da perna foi quebrada usando materiais nude, e assim foi com minha mente e meu espírito. Eu tive de parar várias vezes por causa de depressão, lesões e saúde mental.

Ser uma mulher negra no mundo do ballet significa que você tem de provar constantemente o seu valor, estar ciente da cor da sua pele pelos degraus dos outros porque você é a única pessoa negra na sala.

Quando eu descobri a Misty Copeland, a primeira mulher afro-americana a se tornar primeira-bailarina do American Ballet Theatre, tudo mudou. Ela tornou possível encontrar esperança de novo e finalmente ver um futuro para mim. Eu deixei tudo o que eu conhecia, me mudei para Nova York e isso me transformou. Eu finalmente estava feliz na minha pele e pude focar apenas na minha formação, sem o estresse de ser negra.

Eu poderia ter sido uma comediante, pois eu fico à vontade diante da plateia. Eu poderia ter estudado, pois eu era boa na escola. Mas, para mim, a dança é algo que eu não posso viver sem. Eu como, durmo e respiro ballet e eu não teria isso de qualquer outra maneira, a dança é o único lugar em que posso me comunicar e me sentir viva.

Meu nome é Marie-Astrid Mence, eu venho de Paris e eu sou bailarina.

*

Para saber mais:

“A importância das meias tonalizadas”, Cyndi Oliveira, dez. 2017, aqui.
“Na pele”, Cyndi Oliveira, mar. 2015, aqui.
“As bailarinas negras e o ballet clássico”, Cássia Pires, fev. 2015, aqui.

Um amor improvável

Ao longo desses anos, já fiz vários posts sobre meus preferidos: variações, pas de deux, personagens coadjuvantes, coreografia em grupo e mais algum que devo ter esquecido. Mas hoje, não. Hoje o post é diferente.

Há coreografias que nos encantam pelos mais diversos motivos, ou porque gostamos muito daquela modalidade, ou porque nos identificamos com aquela dança, ou porque ela nos remete a alguma coisa, enfim, infinitas possibilidades. Ou, às vezes, o motivo é desconhecido, mas o encanto vem e fica.

Não lembro o ano, mas faz tempo. Não lembro o como, mas deve ter sido sem querer. Não me perguntem quantas vezes eu assisti, porque é impossível contar. Só tenho certeza de uma coisa: eu me apaixonei à primeira vista.

Eu sou fascinada por “Echad Mi Yodea”, do espetáculo Decadance, do Batsheva Dance Company. A coreografia é de Ohad Naharin. Eu assisti ao espetáculo completo mas, para mim, essa coreografia é uma obra em si, com começo, meio e fim.

“Echad Mi Yodea”, Decadance, de Ohad Naharin, Batsheva Dance Companhy/The Young Ensemble

A disposição das cadeiras. A música. Os movimentos no tempo da música. A coreografia impecável. Prestem atenção na genialidade da construção: um novo movimento é inserido sempre no início da sequência e o restante dos movimentos se repetem. Ou seja, a cada recomeço, nos surpreendemos e depois reconhecemos. No final, já temos intimidade com a coreografia. Sem falar que meus olhos fixam tanto no bailarino que sobe na cadeira quanto no bailarino que cai no chão. Toda vez. Além disso, eu canto a música e não sei absolutamente nada de hebraico.

Hoje parece óbvio eu me encantar por uma coreografia de dança contemporânea, mas na época em que conheci o Batsheva Dance Company, eu não estava fazendo aulas de ballet clássico, mas só queria saber dele. (Encontrei no Twitter o dia em que publiquei sobre essa coreografia!) Eu me encantar por algo assim, tão fora da curva, tão distante da minha bolha, foi um grande feito do Ohad Naharin.

Talvez tenha sido nesse momento que os meus olhos se abriram a outras possibilidades. Talvez tenha sido essa coreografia que me mostrou um outro mundo na dança. Passei anos tendo o ballet clássico como a dança principal da minha vida e hoje vejo isso como um erro, sabia? Posso ter perdido algumas coisas muito interessantes pelo caminho, pela simples desatenção.

Não, não falei para ninguém abandonar as sapatilhas, calma. Mas, às vezes, olhar para o lado pode fazer uma imensa diferença. Na dança e na vida.

Para estudar coreografias de ballets de repertório

Vamos voltar às origens deste lugar e falar especificamente de ballet clássico?

Vou compartilhar dois materiais sobre coreografias de ballets de repertório. Não apenas para quem quer estudar, mas também dançar algumas das coreografias mais importantes e conhecidas desses ballets.

PRIMEIRO: SEQUÊNCIAS DE COREOGRAFIAS
Para assistir: YouTube e Instagram

Tempos atrás, encontrei o perfil de Jaqueline Tirabassi, bailarina formada na escola do Teatro alla Scala e professora nessa mesma instituição.

Ela teve uma grande ideia: fazer vídeos de sequências de ballets de repertório decodificando os passos da coreografia. Assistimos à sequência, depois ela é repetida com o nome de cada passo na tela. Vendo assim, passo a passo, temos clareza dos movimentos. Parece óbvio para quem tem domínio técnico, mas para quem está aprendendo, mostrar a coreografia dessa forma, mesmo que seja apenas um trecho, faz uma imensa diferença. Além disso, a produção é linda!

Infelizmente, são poucos os vídeos publicados e o canal não é mais atualizado. Sem problemas, dá para estudar com o material já desenvolvido.

Escolhi duas sequências: o pas de quatre dos pequenos cisnes, de O lago dos cisnes, e Serenade.

Swan Lake, ballet, how to perform Four Little Swans

Serenade, ballet, how to perform Serenade for Strings in C, Op.48

SEGUNDO: COREOGRAFIAS COMPLETAS
Para assistir: YouTube
Para baixar a lista de variações: PDF

Eu tenho um acervo de vídeos de dança, mas para estudo individual mesmo. Essa preciosidade eu guardo há anos: 30 variações completas de repertório, tanto femininas quanto masculinas. Todas são realizadas em uma sala de dança, com legenda no início, mas a cópia está em uma qualidade bem baixa. Infelizmente, não consegui encontrar informações sobre esse material, tem jeito de VHS dos anos 1980. Alguém sabe alguma coisa?

Enquanto não descobrimos, aproveitem uma hora de O lago dos cisnes, A Bela Adormecida, O Quebra-Nozes, Raymonda, Chopiniana, Dom Quixote, Coppélia, La fille mal gardèe, O corsário e La bayadère. A lista completa de variações vocês podem ver, e baixar, aqui.

Classical Heritage, 30 Classic Variations as Coreographed by Russian Ballets