Sempre há uma perdida

Mesmo que a gente queira a perfeição, os erros existem e todo mundo sabe. Há os pequenos deslizes, que a plateia não nota, e há os grandes desastres, que todo mundo percebe.

Alguém vai para o lado oposto, ou erra a contagem, ou esquece o passo, ou é mais lenta que as demais. Quem nunca passou por isso? Sinto muito, mas hoje não vou filosofar sobre o erro, mas vamos rir disso. Porque quando vemos depois, admitam, é bem engraçado.

Provavelmente, já contei essa história, mas ela merece ser recontada. Eu passei por essa situação, mas não como coadjuvante, eu fui a protagonista do grande erro. Doze bailarinas, duas colunas, cada qual dava um pequeno salto e depois todas se entrecruzavam fazendo pietiné. Elas foram e eu fiquei para trás, porque fui muito lenta. E como filmaram do mezanino, dá para ver lindamente a dona Cássia perdida lá no meio. O detalhe é que eu havia cometido o mesmo erro no ensaio e tive de ouvir uma bronca gigantesca. Acho que o meu inconsciente rebelde não gostou dos gritos e errei de novo em plena apresentação.

Querem outra? Um ano depois, lá estava eu no corpo de baile. Em um determinado momento, todas deveriam fazer uma sequência de attitude croisé devant. Tenho quase certeza que fiz effacé. E enquanto fazia os passos, eu pensava: “Acho que há algo errado.” Digo quase porque nunca assisti à filmagem, mas lembro de mim no palco com essa sensação de errar e continuar dançando como se nada estivesse acontecendo.

Pensei nessas histórias ao assistir à Valsa dos erros, de “The Concert”, de Jerome Robbins. Eu a conheci graças à querida Cyndi. Eu rio alto toda vez que assisto e aposto que vocês também vão se identificar em algum momento. Ou porque já fizeram algo semelhante ou porque alguma colega de turma é a perdida da vez.

A valsa dos erros, “The Concert”, Vienna State Ballet.

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Para saber mais sobre “The Concert”, em inglês, aqui.

A obsessão pelos 32 fouettés

Os 32 fouettés surgiram pela primeira vez na coda do grand pas d’action de Cinderella, sendo realizados pela bailarina Pierina Legnani em 1893. O público ficou tão impressionado que ela teve de repetir o feito, mas conseguiu realizar “apenas” 28. Desde então, esse é o ápice de um ballet de repertório.

Sou apenas eu ou vocês também acham um absurdo o grande momento de uma bailarina ser a prova de que ela gira tantas vezes no eixo sem cair? Não é desmerecimento, também acho lindo. Algumas de vocês até podem pensar: “Ah, você diz isso porque não consegue fazer igual”. Eu não consigo tantas coisas no ballet clássico…

Não importa o que a bailarina faça, ela tem de demonstrar que é virtuosa girando 32 fouettés. E ponto final. Isso é dançar?

Quando eu fazia curso profissionalizante de teatro, lembro de um excelente comentário de um professor. Ele dizia: “Se depois de assistir à peça, um espectador disser que adorou o figurino, a peça não funcionou. Se ele falar sobre o cenário, também não. A peça é boa quando ele sai impressionado com o espetáculo em si. Não é uma coisa ou outra que o ‘pegou’, mas o conjunto”. Sinceramente, eu acho que isso deveria valer para o ballet clássico. Se alguém só falar sobre os fouettés, o espetáculo não tocou aquela pessoa. Porque é impossível alguém se emocionar só de ver uma pessoa girando sem parar.

Tudo bem, vocês podem dizer que esse momento dos giros faz parte de algo maior, mas ele é visto sim como um fato isolado.

Assistam a este vídeo de uma aula da Tamara Rojo.

Tamara Rojo, aula no Teatro de Madrid, 2005.

Tudo bem, querem no contexto? Margot Fonteyn, como Odile.

Fouettés da coda do “grand pas de deux do cisne negro”, O lago dos cisnes, Vienna State Ballet, Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, 1966.

Eu não consigo me emocionar, sinto muito. Nem a Margot consegue e olha que ela me arranca lágrimas sempre que a vejo dançar.

Para mim, a melhor maneira de fouettés me encantarem é assim, em uma coreografia, como na “Variação de Lise”, de La fille mal gardèe.

“Variação de Lise”, La fille mal gardèe, The Australian Ballet, Fiona Tonkin, 1989.

Deu para perceber a diferença?

Ballet é mais do 32 fouettés. Uma bailarina é mais do que 32 fouettés. Mas há 118 anos, eles continuam sendo o atestado de uma verdadeira primeira-bailarina.

Se a mudança estivesse em minhas mãos, eu baniria esse momento. E estou falando sério. Para ser primeira-bailarina, seria imprescindível fazer o público suspirar ou ficar de olhos marejados. Teria de inspirar as pessoas com sua dança. E quer saber? Se fosse hoje, muitas perderiam o seu posto de prima ballerina

Para terminar, só mais uma coisa. Antes que alguém se revolte e defenda a sequência de fouettés de maneira veemente, só quero deixar claro que, como muita coisa neste blog, é a minha opinião. Realmente não acho bacana e ponto. Mas que cada qual siga com o ballet que gosta e acredita. O meu é bem diferente, como vocês já devem ter percebido, mas isso ficará cada vez mais claro daqui em diante.

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P.S. Alguém notou que a Margot Fonteyn não completou os 32 fouettés? Aposto que não. Pois é…

Maria Antonieta

A querida Juliana, uma das leitoras mais ativas aqui no blog, me apresentou um novo ballet: Maria Antonieta. Realizado pelo Wiener Staatsballett (Vienna State Ballet), coreografado por Patrick de Bana, sua estreia aconteceu em 20 de novembro de 2010.

Trailer de Marie Antoniette (Maria Antonieta), de Patrick de Bana, Vienna State Ballet.

Uma curiosidade: o diretor da Vienna State Ballet é o Manuel Legris. O grande partner da minha preferida Aurélie Dupont. Ele não é o meu preferido, pois se transformou no meu bailarino hours concours.