Uma Swanilda de tempos atrás

Depois de um mês sem publicações, porque havia um punhado de trabalho para concluir, cá estou sem um longo texto, mas com uma delicadeza.

Carla Fracci (para mim, a melhor Giselle) dançando a “Variação de Swanilda”, do terceiro ato de Coppélia. Sim, aquela variação do casamento. Não consegui descobrir a referência do vídeo, mas tudo indica para um especial de TV.

Como era linda, né? Tanto faz a coreografia ou a obra, eu fico encantada por ela sempre.

Carla Fracci, “Variação de Swanilda”, terceiro ato, Coppélia, 1971.

Fonte: Pointe Magazine

Qual dança diz quem você é?

Eu estava há alguns anos sem fazer aulas de dança e queria voltar a estudar em um estúdio. Por que não tentar um outro caminho? Assim, comecei a fazer flamenco.

Em um sábado qualquer, eu era a única aluna presente. Enquanto eu esperava a professora chegar, fiquei parada na porta da sala ouvindo o que estava acontecendo na sala ao lado. A música entregava o mistério, era aula de ballet clássico.

Quando acabou, vi várias alunas adultas saindo de lá. Olhei para elas, collant, meia-calça rosa, sapatilhas, algumas um pouco mais alinhadas, outras levemente desarranjadas. Olhei para mim, saia longa ajustada ao corpo e rodada na barra, blusa de manga três quartos, sapato de salto quadrado. Flamenco é assim: você pode até tentar ser largada, mas não consegue, parece que estamos sempre lindas.

Nesse “olhar para elas” e “olhar para mim”, eu não me reconheci.

Não foi a primeira vez que esse não reconhecimento aconteceu. Anos antes, foi assim durante uma aula experimental de dança de rua e também aconteceu antes de uma apresentação de dança do ventre. Em ambos os casos, olhei no espelho e não me enxerguei ali. Mas dessa vez foi diferente, não sei por quê. Desde então, a ideia de uma dança que mostra quem somos ficou na minha cabeça.

Assim, pergunto a vocês: Qual dança diz quem você é?

Não pense em qualidade técnica, em anos de estudo, em dançar bem. Existe alguma dança que encontra a sua alma, que ao se olhar no espelho você sorri sem querer. Talvez você nunca a tenha dançado, mas algo lhe diz que seria um belo encontro.

Qual é a minha? Eu ainda não sei. Quem me conhece bem costuma me associar a danças de saias longas e rodadas, de flores nos cabelos, como nessa cena da minissérie Capitu. Aquele momento lá atrás em que me reconheci no ballet clássico não existe mais. Isso também acontece: o tempo passa, as coisas mudam e não somos mais a mesma pessoa. O que antes nos dizia tanta coisa perdeu o sentido. Alguém já passou por isso? O ballet e eu, por exemplo.

Talvez exista relação entre as características de cada dança e de cada pessoa. O ballet tem um ar onírico, delicado, um tanto pueril. O jazz é energia e ritmo, além de juvenil, não importa a idade de quem esteja dançando. O flamenco é belo, musical e imponente, toma conta de tudo. A dança contemporânea dialoga com o tempo e com a realidade na qual está inserida. O sapateado é a habilidade de um corpo que canta, os pés são um instrumento musical.

Existem outras tantas danças, mas escolhi essas cinco porque são algumas das mais comuns nos estúdios de dança do Brasil. Selecionei um vídeo para cada uma delas, todos com no máximo dois minutos, e a escolha foi proposital: são sempre pessoas dançando sozinhas. É mesmo o momento do “eu”, de olhar e se encontrar.

Quando eu descobrir a minha dança, eu volto para contar. Enquanto isso, divirtam-se, e me contem qual é a dança de vocês.

BALLET CLÁSSICO: “Variação de Swanilda”, primeiro ato, Coppélia, Pacific Northwest Ballet, Leta Biasucci

JAZZ: Who Are You / The Night Comes Again, Nicholas Palmquist

FLAMENCO: “Enternal monolouge”, Melina Najjar

DANÇA CONTEMPORÂNEA: Solo de Suíte Branca, Grupo Corpo, [não consegui descobrir quem é a bailarina]

SAPATEADO:Alexander Hamilton”, Hamilton, Bayley Graham

Os primeiros passos de um novo ano

Quem não conhece Dom Quixote? No mundo da dança, é mais fácil associarem esse nome a Marius Petipa e Ludwig Minkus do que a Miguel de Cervantes. Os primeiros acordes do desafio ou da variação de Kitri são suficientes para o figurino e a coreografia surgirem na nossa mente.

Porém, Marius Petipa não foi o primeiro a adaptar o romance para a dança. A primeira montagem foi realizada em 1740 pelo coreógrafo austríaco Franz Hilverding. Desde então, acho difícil termos um número exato das diversas montagens e remontagens inspiradas nessa obra realizadas ao longo de tanto tempo. Uma coisa é certa: Dom Quixote faz parte do nosso imaginário.

Sendo assim, o que faz parte do nosso imaginário é difícil enxergá-lo de outra maneira. Pegue a Kitri que você conhece, o nome dela é Aldonza. Esse é o nome daquela que inspirou a personagem Dulcineia na obra literária. Também é o nome da personagem na montagem de Dom Quixote (2016), de Aaron S. Watkin, para o Semperoper Dresden Ballett. Além disso, ele acrescentou músicas de Manuel de Falla às conhecidas de Ludwig Minkus. Eu publiquei um trecho dessa montagem anos antes: a coda do sonho, muito diferente da nossa velha conhecida. Nasceu uma obra nova, mas ainda assim encantadora.

Eu gosto especialmente desta variação e a achei perfeita para a primeira publicação de 2021. Tantas coisas mudaram, mas ainda assim vamos seguir sendo quem somos. Ou melhores do que éramos no passado.

“Segunda Variação de Aldonza”, ato 1, Dom Quixote, Semperoper Dresdren, Svetlana Gileva.