Um encontro, uma palestra e uma animação

Hoje é feriado no Brasil. Por causa do Carnaval? Não, é Dia de Tiradentes, mas a folia vai acontecer sim, neste fim de semana, depois da Páscoa. Essa loucura do calendário é apenas um reflexo desses últimos dois anos na nossa vida.

Sendo assim, vou aproveitar o momento de folga para fazer algumas indicações. Nada de textos, para descansar um pouco, apenas vídeos. Eu separei um encontro, uma palestra e uma animação. Vamos lá?

O QUE PODE O CORPO?, CAFÉ FILOSÓFICO, DANI LIMA E VIVIANE MOSÉ
idioma: português
duração: 47min51seg
assistir: clique aqui

Realizado em 2009, eu assisti a essa mesa-redonda anos atrás. Guardei o link para publicar no blog e nunca havia encontrado o momento certo, mas finalmente chegou a sua vez. Dani Lima é bailarina e coreógrafa, ela fala sobre o corpo e a dança; Viviane Mosé é filósofa e participa da conversa; juntas, elas falam sobre o corpo ao longo da história do pensamento. Esse é um daqueles encontros que mudam nossa visão de mundo e abrem diversas janelas dentro da gente. Acreditem em mim, vale muito a pena.

A BALLERINA’S SECOND ACT, TEDx, MIKO FOGARTY
idioma: inglês, legendado em português
duração: 10min6seg
assistir: clique aqui

Quem se lembra da Miko Fogarty? Aos 12 anos, ela participou do documentário First Position (2011) ao lado de outras promessas da dança. Ela era onipresente nos festivais, provavelmente você a viu em algum deles. Ganhou fãs ao redor do mundo e era nítido qual seria o seu futuro: primeira-bailarina de uma grande companhia. Hoje ela é estudante de medicina. Sim, ela abandonou a carreira e, nessa palestra, ela conta os motivos que a fizeram mudar de caminho. É para repensarmos um punhado de coisas, de verdade.

MARIA BADERNA, MULHERES FANTÁSTICAS #11, FANTÁSTICO
idioma: português
duração: 1min11seg
assistir: clique aqui

Vocês sabem de onde surgiu a palavra “baderna” como sinônimo de “bagunça”? Veio do sobrenome da bailarina Maria Baderna. Em 2020, a sua história foi contada no quadro “Mulheres Fantásticas“, do Fantástico. Na mesma época, eu aproveitei o ensejo e fiz um post sobre ela. Essa animação é tão encantadora que vale a repetição.

Badernem muito e até semana que vem!

Dois encontros, a sincronicidade e a dança no fim do caminho

Neste texto, eu farei um longo percurso de uma experiência pessoal até a livre criação artística na dança. Quer caminhar comigo até lá? Respire fundo, pegue na minha mão e venha.

Uma tarde de novembro de 2020. Passeando pelo Twitter, um tuíte chamou a minha atenção: era uma palestra da jornalista e escritora Suleika Jaouad. Autora do livro “Between Two Kingdoms“, ela foi diagnosticada com leucemia aos 22 anos de idade e contava como a parte mais difícil de seu câncer foi o depois, quando já estava curada. Como recomeçar depois de ter a vida interrompida? Cliquei no link e resolvi assistir.

Encontro um: Suleika, eu e o futuro

Não era um dia qualquer, não para mim. Como eu contei semana passada, tive problemas de saúde em 2012, mas só recebi os diagnósticos corretos entre 2020 e 2021. O mais importante aconteceu no dia seguinte à palestra, eu recebi o resultado de dezessete exames diferentes, que atestavam os erros médicos do passado. Eu estava bem, era algo simples, a minha vida poderia seguir normalmente. Façam os cálculos, foram oito anos de engano. Vocês conseguem imaginar o que eu senti?

Naquele momento, as palavras da Suleika Jaouad passaram a fazer sentido para mim: como recomeçar depois de uma grande pausa na vida? Não tive um problema de saúde tão sério e debilitante quanto o dela, mas foram anos de privações, dores, sintomas aleatórios, angústia e isolamento. De um dia para o outro, acabou. Eu estava livre. E agora?

Ninguém a minha volta entendeu, claro. Eu não tinha motivo algum para me sentir mal, não era uma coisa boa? Mas uma pessoa me entenderia, a Suleika Jaouad. Ela sequer imagina que os seus dezessete minutos de palestra, que chegaram até mim como um aviso do futuro, foram o meu alento.

Um ano depois, novamente no Twitter, soube que a leucemia dela voltou. Eu senti demais a notícia, como se fosse com uma pessoa próxima. Ela fez o transplante de medula e está em processo de recuperação. Do fundo do meu coração, fiz a única coisa que eu poderia fazer: desejar a ela uma nova cura.

Apenas ao final da leitura eu notei onde eu estava: era a newsletter “The Isolation Journals” (Diários de Isolamento). E chegamos ao ponto que quero compartilhar com vocês: a criação artística no nosso dia a dia.

Ao receber o seu primeiro diagnóstico de leucemia, a Suleika criou o “Projeto 100 dias”, que consistia em uma criação artística por dia, tanto dela quanto de seus familiares e das pessoas próximas. Quando a pandemia começou, ela usou a mesma ideia para criar a newsletter “The Isolation Journals”, em que propostas de escrita eram enviadas às pessoas inscritas. Assim, elas criavam seus próprios textos com base nessas indicações. Para vocês terem uma ideia, são mais de 100 mil pessoas inscritas ao redor do mundo.

A newsletter gratuita é enviada todo domingo com dois textos: um da Suleika Jaouad e outro de uma pessoa convidada, geralmente uma artista, que também é responsável pela proposta criativa. Caso você queira seguir a proposta, terá uma criação sua ao final da tarefa.

No meu texto de quinta-feira passada, eu terminei dizendo que nesta semana eu falaria sobre a “criação livre”, sem compromisso, mas a ideia era falar sobre qualquer arte. No domingo, recebi a nova newsletter. Agora, me digam: quais as chances dessa edição ter como artista convidada uma bailarina e coreógrafa do Brasil com uma proposta criativa de dança?

Encontro dois: Sofia, eu e a dança

Sofia Tsirakis é bailarina, coreógrafa e em 2014 criou o Danças Polifônicas, uma plataforma artística cujo foco é a dança em um diálogo com outras artes, como música e teatro. Ela e Suleika Jaouad fizeram faculdade juntas nos Estados Unidos e são amigas.

Em seu texto intitulado “One Hundred Small Dances” (Cem Pequenas Danças), publicado na newsletter “The Isolation Journals” número 190, ela conta brevemente a respeito de sua participação no primeiro “Projeto 100 dias”, seu desejo em se dedicar à dança logo após a faculdade, suas dúvidas entre ficar em Nova York ou voltar para o Brasil e, por fim, sua prática de dança.

Em um trecho, ela diz: “Eu fechava meus olhos e me concentrava primeiro na respiração, tentando ouvir, deixar meu corpo me guiar. Às vezes, eu ouvia música, mas muitas vezes eu fazia isso em silêncio”.

Além disso, Sofia nos presenteia com a sua proposta criativa, como podemos encontrar essa dança, como deixá-la surgir, fluir e fazer-se presente.

Aqui é um ponto-chave: o processo proposto por Sofia para essa “pequena dança” surgir. Confesso, a minha vontade foi dançar naquele momento, como se o movimento adormecido em mim tivesse acabado de acordar.

“Onde está isso, Cássia, eu também quero fazer!”

A newsletter é escrita em inglês e eu sei que vocês querem ler aqui a proposta traduzida para o português, mas não farei isso. Por quê? Por alguns motivos. Primeiro, vocês não vão até o link original. Segundo, vocês não vão ler o texto completo da Sofia Tsirakis. Terceiro, acho importante vocês lerem tudo, os dois textos e a proposta. Quarto, quem quer mesmo terá de se mexer, ou seja, ler em inglês ou usar o Google Tradutor. Vamos? Clique aqui.

Quem ama dançar não precisa obrigatoriamente abraçar a dança como um projeto de vida e se mostrar ao mundo. Podemos dançar sem sermos bailarinas, criar apenas para si mesma, para se encontrar, se reconhecer, sentir a dança no corpo e na alma. Um dia essa “pequena dança” pode abrir a porta e sair por aí? Claro que pode, a gente nunca sabe quando a vida vai nos surpreender. Mas, por ora, dance simplesmente porque você quer dançar. Para muitas de nós, é o suficiente.

Para saber mais:

O perfil pessoal da Suleika Jaouad, aqui.
O perfil pessoal da Sofia Tsirakis, aqui.
O perfil do “The Isolation Journals”, aqui.
Para se inscrever na newsletter “The Isolation Journals”, em inglês, aqui.
A newsletter 190, “Roiling, Coiling, Shapeshifting & dancer Sofia Tsirakis on a road trip with no fixed destination”, com a prática criativa de dança, em inglês, aqui.
A Suleika Jaouad dançando no hospital, aqui.

Presente de aniversário: “As origens do ballet”

Onze anos atrás, eu publiquei o primeiro post do blog. Desde então, foram 961 posts, quase dois milhões e meio de visitas, um livro e uma newsletter mensal. Será que ainda tenho o que dizer depois de tanto tempo?

Eu mantenho uma lista de assuntos para escrever; se eu fizer um post por semana, pelo menos um ano de blog está garantido. Mas nem sempre o tempo e as circunstâncias ajudam, mas o “Dos passos da bailarina” ainda tem um longo caminho pela frente. É o que eu quero, e espero.

Escrevi em todos os aniversários: 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019. Os posts na sequência podem ser vistos aqui. O que mais posso dizer sem me repetir?

O “Dos passos da bailarina” surgiu para falar sobre ballet clássico. Sendo assim, nada melhor para comemorar esses onze anos descobrindo de vez como o ballet clássico começou.

Provavelmente, você já ouviu, leu ou assistiu sobre as origens do ballet clássico. Ou então, sabe apenas que ele começou há muitos e muitos anos, aí tinha um rei, uma turma dançava na corte, depois alguém criou as cinco posições, tem alguma coisa aí da Itália, claro que a França entrou na história porque os passos foram nomeados em francês… Mas, afinal, como tudo começou?

Em quase cinco minutos de animação, “As origens do ballet”, de Jennifer Tortorello e Adrienne Westwood, nos conta essa história. Além de ser uma graça, é claro, objetivo e didático.

Quem não sabe inglês, não precisa se preocupar, há legendas em português. Se elas não aparecerem automaticamente, clique no primeiro ícone da direita. Não apareceu em português? Calma, clique no segundo ícone e selecione o idioma em “legendas”. Pronto!

Muito obrigada por esses anos todos, de coração.

The Origins of Ballet, Jennifer Tortorello e Adrienne Westwood, TED-Ed.