Um cisne, uma mulher ou uma mistura dos dois?

Ao assistir à Odette dançando a sua variação, o que vocês veem: um cisne, uma mulher ou uma mistura dos dois?

Eu nunca tinha parado para pensar nessa questão até ler uma breve explicação no perfil da Marius Petipa Society. De maneira geral, as bailarinas dançam essa variação como se fossem uma “mulher-cisne”. Os movimentos dos braços que reproduzem os movimentos das asas de um cisne são icônicos; quem não os reconhece?

“Variação de Odette”, O lago dos cisnes, The Royal Ballet, Natalia Makarova.

Pois sabiam que a ideia original não era essa? Eu traduzi a explicação da Marius Petipa Society.

“Talvez em cada produção moderna de O lago dos cisnes, Odette é fortemente retratada como metade mulher, metade pássaro. De qualquer forma, isso é muito diferente de como Petipa e Ivanov a retrataram. Como mostrado neste vídeo, os passos tradicionais de ‘cisne’ estão ausentes na coreografia de Ivanov. Isso porque Odette é uma jovem mulher transformada em cisne por um feitiço mágico, em vez de uma criatura metade mulher, metade pássaro, ou um verdadeiro cisne. Nesse ponto do ballet, ela está em sua forma humana, então, não há lógica por que ela dança como um pássaro em vez de um ser humano.

“Durante a União Soviética, Odette foi transformada de um papel [personagem] a um símbolo do classicismo, por isso ela é tradicionalmente tão associada aos passos do pássaro. Foi Agrippina Vaganova quem adicionou os famosos braços de cisne usados hoje. Embora Petipa e Ivanov tenham usado braços de cisne, eles não eram tão exagerados quanto os de Vaganova.”

(Fonte: Marius Petipa Society)

O vídeo citado no texto é este.

“Variação de Odette”, O lago dos cisnes, Teatro Alla Scala, reconstrução de Alexei Ratmansky,  Nicoletta Manni. (Fonte: Amy Growcott)

Vocês perceberam como é diferente? É outra coisa! Os braços continuam fluidos e belos, mas sem as ondulações tão características. Confesso, gosto mais da Odette mulher, o problema é desapegar da Odette que conheço há tantos anos.

Qual é a música?

Em uma tarde qualquer, uma música chega sem avisar e não sai da nossa cabeça. De repente, a coreografia também surge em nossa mente. Assim ficamos entre música e coreografia, coreografia e música, então reconhecemos a bailarina, a companhia, o figurino, dançamos em plena sala de casa e nada! Não conseguimos lembrar nem qual é a música, tampouco de qual repertório ela faz parte. Não sei vocês, mas sinto uma imensa agonia quando isso acontece.

Se eu não descubro sozinha, duas amigas bailarinas costumam me salvar, a Cyndi ou a Julimel. Hoje foi a vez da primeira.

A música e a coreografia em questão são da coda do terceiro ato de Raymonda. Nesse caso, era a Maria Alexandrova que não saía da minha cabeça nem por decreto, mas como não encontrei apenas esse trecho para publicar diretamente na página, vamos de Olesya Novikova com o Ballet do Teatro alla Scala.

Para mim, essa é uma das codas mais poderosas dos repertórios, só perde para a coda do segundo ato de O lago dos cisnes. A sequência de retirés é arrasadora!

Preciso dizer que ouvi essa música umas 20 vezes hoje?

“Coda do grand pas do terceiro ato”, Raymonda, Teatro alla Scala.

Variações (quase) desconhecidas

Outro dia eu propus o seguinte lá no nosso grupo de discussão: “Qual variação vocês amam, mas poucas bailarinas sabem que ela existe?”. Como exemplo, eu publiquei uma variação que já apareceu várias vezes no blog, a “Segunda variação do Rio Nilo“, A filha do faraó, Bolshoi Ballet.

Houve várias indicações. Entre variações praticamente desconhecidas e outras um pouco mais próximas de nós, todas são semelhantes num ponto: uma mais linda do que a outra. Achei uma tristeza deixar todas aquelas preciosidades perdidas por lá e perguntei se poderia trazer para cá.

Aqui estão elas, com o nome de quem indicou, as informações da variação e o link para o vídeo. Quem puder, assista a todas, valerá muito a pena.

Bárbara Menezes
“Variação do lenço”, Raymonda, Teatro alla Scala, Olesya Novikova.
Para assistir, aqui.

Cyndi Oliveira
“Valsa fantástica”, primeira variação, Raymonda, New National Theatre Tokyo.
Para assistir, aqui.

Erika Camargo
Outra versão da “Variação de Dulcinea”, Dom Quixote, Mariinsky Ballet, Margarita Kulik.
[O vídeo foi apagado. Para assistir a mesma variação, mas dançada pela Renata Shakirova, aqui.]

Giovanna Fernandes
“Quarta variação de Paquita”, Paquita, Kirov Ballet (Mariinsky Ballet), Larissa Lezhnina.
Para assistir, aqui.

Gisela Ferreira
“Primeira variação do pas de trois”, O lago dos cisnes, Colorado Ballet, Shelby Dyer.
[O vídeo foi apagado e não consegui encontrar um novo vídeo da mesma companhia.]

Julimel
“Variação de Esmeralda”, segundo ato, Esmeralda, The Mussorgsky Ballet, Elvira Khabibullina.
Para assistir, aqui.

Maria Eduarda Molina
“Variação de Gamzatti”, terceiro ato, La bayadère, Royal Ballet, Darcey Bussell.
Para assistir, aqui.

Marília Mascarenhas
“Variação de Nikyia”, La bayadère, Mariinsky Ballet, Polina Semionova.
[O vídeo foi apagado e não encontrei vídeo semelhante.]

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O texto foi atualizado em 25 de maio de 2021.