Do baby class às sapatilhas de ponta

Eu encontrei esse texto muito por acaso, lendo outra coisa. O assunto me interessa por si só, mas acho legal compartilhar especialmente para professores de ballet para crianças. Não só, mas para pais e mães que querem acompanhar o desenvolvimento dos filhos na dança. No texto, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel explica sobre o desenvolvimento sensório-motor do cérebro e o que as crianças conseguem fazer de acordo com a faixa etária. Ou seja: professores, nada de exigir de seus alunos aquilo que eles ainda não estão prontos para fazer.

“Para minha agradável surpresa, desta vez a diretora condensou as apresentações das turminhas: em um mesmo número, assistia-se às bailarinas ainda bebês, de seus três aninhos, na primeira fila; às de uns quatro ou cinco anos na segunda fila; e às de seis ou sete na fila de trás. Umas entravam, outras saiam – e assim elas foram alternando suas apresentações, para deleite de todas as mães, pais e avós babões, em tietagem explícita na plateia. […]

“Até uns 3, 4 anos, enquanto o cerebelo ainda termina de se formar e o córtex motor mal está mielinizado, dá para levantar os bracinhos graciosamente para um lado e para o outro, e sempre copiando as alunas-monitoras à frente do palco.

“Mas juntar duas ações, como fazer pontinha-pontinha e pular? Só aos 5, 6 anos, com um córtex motor um pouco mais integrado e funcional – e, ainda assim, só seguindo o exemplo da demonstradora. […]”

Bacana é ler o texto completo. Para isso, clique aqui.

Suzana Herculano-Houzel, trechos de “Do baby class às sapatilhas de ponta”, Folha de S.Paulo, 19 jul. 2011.

Por que você esquece o nome da capital da Hungria…

mas não desaprende a andar de bicicleta?

Acabei de ler um texto da neurocientista Suzana Herculano-Houzel em que ela explica isso. Ela contou que voltou a jogar vôlei depois de vinte anos. E disse o seguinte:

“Custou entrar para um clube perto de casa e ser arrastada para a quadra por uma amiga dos tempos da escola, mas foi: vinte anos mais tarde, descobri que ainda sei jogar vôlei! Santos núcleos da base e córtex motor, que guardaram os programas necessários bem guardadinhos esses anos todos.

“Felizmente esse tipo de aprendizado e a memória correspondente, chamada de procedimentos, são diferentes dos outros, como informações novas que colocamos em palavras. Para essas, não há muito perdão: quanto menos elas são acessadas, maior a chance das conexões correspondentes irem se enfraquecendo com o tempo, cedendo lugar a outras – e maior a chance de caírem assim no esquecimento.

“Com os procedimentos, não. O que você não sabe colocar em palavras, mas sabe fazer – e sobretudo se aprendeu antes da adolescência – fica guardadinho lá, em circuitos aparentemente bem mais estáveis.

“Bom, quase todos – e é tentando que a gente descobre o que desaprendeu.”

Suzana Herculano-Houzel, trechos de Vinte anos mais tarde… eu ainda sei jogar vôlei! Para ler o texto completo, aqui.

E o que isso tem a ver com o ballet? Tudo. Quantas pessoas fizeram ballet na infância, pararam e voltaram a dançar tempos depois? Ou ainda, aquelas que querem voltar, mas desistem, porque afirmam que esqueceram tudo?

É justamente o contrário. Quem começou bem cedo tem mais facilidade do que quem começou mais tarde, feito eu. Aquelas pessoas que já voltaram a dançar, fiquem tranquilas, há uma porção de informações guardadas aí dentro. Já quem quer voltar, mas reluta, não está na hora de mostrar o que foi aprendido há tanto tempo? Depois de ler esse texto, quisera eu ter começado quando criança. De verdade.