Dança debaixo d’água

Eu sou fascinada por água, ela sempre está presente nos meus textos ficcionais. O meu livro Virgínia (2015) começa com a protagonista submergindo em um lago. Por outro lado, não me peça para nadar ou mergulhar, o meu encantamento é olhar de fora. Sendo assim, não é difícil imaginar por que esses dois curta-metragens de dança prenderam a minha atenção.

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Ama (2018), de Julie Gautier

Inspirada pelas japonesas que coletam pérolas no mar, a cineasta e mergulhadora Julie Gautier é a protagonista desta obra, em que dança a 10 metros de profundidade sem qualquer equipamento para respirar. Foram vários mergulhos curtos até completar a duração do vídeo, de seis minutos. A coreografia é de Ophélie Longuet. O resultado é arrasador, eu fiquei imensamente emocionada.

Na descrição do vídeo, ela diz: “Ama é um filme mudo. Ele conta uma história que cada um pode interpretar a sua própria maneira, baseado em sua própria experiência. Não há imposição, apenas sugestões. Eu queria compartilhar a minha maior dor nesta vida com este filme. Para não ser muito cru, eu cobri com graça. Para não ficar muito pesado, eu mergulhei na água. Eu dedico este filme a todas as mulheres do mundo”.

Para assistir ao making off, aqui.
Em 2020, foi lançada uma versão com outra música. Para assistir, aqui.
Para saber mais, aqui.

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Sink or Swim (2017), de Louis-Jack

Como é a sensação de uma pessoa com depressão? Partindo dessa premissa e inspirado no quadro Sink or Swim (2014), de Ian Cumberland, surgiu este filme com ideia original e coreografia de Charlotte Edmonds e direção de Louis-Jack. Protagonizado pela bailarina Francesca Hayward, o curta-metragem contou com o apoio do The Royal Ballet, Studio Wayne McGregor e Mind (organização de apoio à saúde mental).

Segundo as palavras de Charlotte Edmonds: “Eu sempre usei a dança para expressar minhas emoções e preocupações. Eu a uso como um veículo para retratar um tema vívido na minha mente. Durante o treinamento, passei por fases em que eu cheguei ao fundo do poço. Eu me vi sofrendo em silêncio e nunca senti coragem de falar. É por isso que eu sou apaixonada por este filme – não deveria haver vergonha em admitir que você não consegue manter sua cabeça acima da água”.

Qualquer pessoa que já passou por isso reconhece essa sensação, não só, mas se reconhece nessa mulher que não consegue emergir. O resultado é de uma beleza ímpar.

Para saber mais, aqui.

Para abril não passar em vão

Outro dia, levei um susto ao ver que não publico nada no blog há mais de um mês. Tenho acompanhado mais ciência e saúde do que dança, minha cabeça estava voltada para o coronavírus. O tempo passou e eu não percebi.

Devido ao isolamento social, estou em casa há 43 dias. São Paulo é um dos epicentros da pandemia no país e sair apenas se for urgente. De maneira inexplicável, parece que o tempo está correndo mais rápido do que eu.

Gostaria de ter publicado um texto ontem, Dia Internacional da Dança, mas não consegui. Tudo bem, ele será publicado em breve, porque a questão vale para todos os dias do ano. Aliás, apesar dos pesares, algo bacana aconteceu entre mim e a dança, e é sobre isso que escreverei em breve.

Mesmo assim, não queria deixar abril passar em vão, sem uma única postagem. Resolvi publicar uma coreografia que já apareceu no blog, mas vale a repetição. A primeira variação de “Esmeraldas”, de Jewels, sempre acalma o meu coração.

Primeira variação de “Esmeraldas”, Jewels, George Balanchine, Beatriz Stix-Brunell, Royal Ballet.

Marianela e Vadim, Swanilda e Franz

Fim de ano é um período meio complicado, temos mil coisas pendentes para resolver e um relógio que insiste em correr. Assim, eu não tenho feito os posts que eu gostaria, mas Marianela Nuñez e Vadim Muntagirov surgiram para salvar a semana.

Ano que vem, prometo!, farei um texto explicando por que, na minha opinião, Marianela Nuñez é a melhor bailarina em atividade. É impressionante como ela fez bem qualquer papel dos grandes repertórios. Aurora, Odette, Lise, para ficar entre as mocinhas. Odile, Myrtha e Gamzatti, para ficar entre as vilãs. “Ah, mas será que ela consegue fazer a adolescente mais fofa e bravinha do ballet clássico?” Consegue. Olhem só ela como Swanilda.

Se não bastasse isso, depois de dois grandes partners ‒ Thiago Soares e Carlos Acosta ‒ será que ela encontraria outro tão bom? O Vadim Muntagirov trocou o English National Ballet pelo Royal Ballet. Lá, ele e Daria Klimentova formaram uma dupla incrível (mal comparando, me lembrava Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev). Pois desse novo encontro surgiu uma parceria encantadora. Como é bom ver os dois juntos, eu esqueço a técnica clássica e aproveito uma das maravilhas do ballet clássico: ficar emocionada ao vê-los dançando.

Esse pas de deux mostra bem isso. Marianela e Vadim, Swanilda e Franz. Vida longa para essa parceria, a dança e o meu coração agradecem.

Pas de deux do terceiro ato, Coppélia, Royal Ballet, Marianela Nuñez e Vadim Muntagirov, 2019.