Piruetas com consciência corporal

No ballet, a minha grande angústia era a pirueta. Não conseguia sequer aproveitar as aulas, como eu contei neste post bem antigo. Como eu sou paciente, demorei quatro anos para conseguir fazer uma pirueta que valesse receber esse nome, e contei toda a história em “Como aprendi a fazer pirueta (1)“. Esse é o único passo que não aprendi corretamente nas aulas, eu mesma tive de pesquisar e estudar para conseguir realizá-lo. Expliquei as etapas em “Como eu aprendi a fazer pirueta (2)“.

Talvez por isso, me incomoda demais quando ouço um “na hora a pirueta sai”. Não, não sai. Mesmo para as pessoas abençoadas com um eixo natural, pirueta é técnica, a exceção deve ser a falha, não o acerto. A técnica clássica não existe à toa.

Não há conhecimento que esteja pronto e acabado, sempre há algo para aprender. Em um comentário no blog, uma leitora disse que nas piruetas ninguém é melhor que o Ivan Duarte. Não pestanejei e fui pesquisar.

O Ivan Duarte é bailarino do Saratosa Ballet e ex-aluno da Petite Danse. Nesse vídeo do canal da escola, além de explicar como fazer bem uma pirueta, ele enumera quais os erros mais comuns e como corrigi-los. Segurem o queixo, as piruetas dele são perfeitas.

Dicas para girar mais! Piruetas com consciência corporal, Ivan Duarte. Petite Danse, 16 ago. 2017.

Como eu aprendi a fazer pirueta (2)

Para ler a parte 1, aqui.

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Depois de contar a minha saga até conseguir girar, explicarei as etapas que eu sigo para a minha pirueta acontecer.

Não entrarei nas questões de anatomia, física ou biomecânica, tudo bem? Além de não ser uma especialista em nenhum desses assuntos, as explicações ficarão confusas; o objetivo é girar, não entender como o giro acontece.

Antes de começar, duas coisas:

◦ Para quem consegue girar: A minha intenção é auxiliar quem não consegue girar de maneira alguma. Se você consegue fazer pirueta seguindo as indicações dos seus professores, não arrume problema para a sua cabeça. Continue no que está dando certo.

◦ Para quem não consegue girar: Siga os passos de mente aberta e coração tranquilo. Eu vou refutar algumas coisas que nos foram ensinadas, por isso, esqueça o que você já aprendeu e não funcionou. Tente seguir as explicações na sequência, sem refutá-las. Escute seu corpo, não sua cabeça.

Preparadas? Vamos lá.

1. Postura neutra

Desde que começamos no ballet, ouvimos a frase: “Encaixe esse quadril”. Eu não o encaixo há alguns anos. Escrevi sobre isso uma vez, sem muito conhecimento, mas agora sei um pouco mais sobre o assunto. Se quiserem, escrevo novamente sobre isso, mas agora, pensem na postura neutra.

Postura neutra significa posicionar o corpo mantendo intactas as curvaturas naturais da coluna vertebral.

Nem todos nós somos alinhados e temos uma coluna saudável, há os vícios posturais, além dos problemas de coluna. Sendo assim, há uma maneira de encontrarmos a nossa postura neutra e o passo a passo é explicado no livro “Anatomia da dança”, de Jacqui Greene Haas. Basicamente, (1) fique em pé, em primeira posição e contraia o abdome. (2) Inspire lentamente, solte o abdome e empine um pouco o bumbum. (3) Expire lentamente, contraia o abdome e encaixe o quadril. (4) Inspire de novo, seu quadril irá lentamente para trás e você sentirá como se um fio te puxasse para cima. (5) Contraia o abdome e sinta o quadril ir para o lugar. Essa é a sua postura neutra.

2. Centro de gravidade

É comum ouvirmos: “Na hora de girar, foque nessa região, bem debaixo das costelas”, aquela parte também conhecida como boca do estômago. Assim, lá vamos nós focar nessa região no momento de girar e nada acontece. Sabe por quê? Porque cada pessoa tem o seu centro de gravidade.

Para as baixinhas, o centro de gravidade é abaixo do umbigo. As ginastas são de baixa estatura justamente por isso, é mais difícil elas caírem. No caso das bailarinas, isso não faz diferença, certo?

Em um infográfico da revista Superinteressante, vemos a diferença entre os centros de gravidade de acordo com a altura. Para vê-lo, clique aqui. Não há nenhum problema em ser alta, de estatura mediana ou baixa, basta apenas descobrir onde é o seu centro de gravidade; observando o infográfico é possível ter uma ideia. Aí será o seu foco no momento de girar. É importante ressaltar que o centro de gravidade se desloca no momento do giro: com os dois pés no chão, ele fica no meio; no momento do retiré, ele continuará na mesma linha, mas mudará para a lateral do seu corpo. Foque-se aí que dá certo.

3. Alinhar pescoço e cabeça

Você já encontrou sua postura neutra e descobriu o seu centro de gravidade. Falta apenas um passo para estar no eixo, alinhar seu pescoço e sua cabeça.

Quem entende francês, assista ao vídeo “L’equilibrie”, do professor Wayne Byars, aqui. Quem sabe inglês, uma boa alma traduziu o vídeo nos comentários, mas basta utilizar um tradutor online para compreender melhor o processo. Na verdade, é bom assisti-lo de qualquer maneira. Eu falarei apenas o básico.

Temos a tendência em empinar o nariz e levantar o queixo, certo? Aí está o problema. O correto é alinhar as orelhas com o pescoço, deixando-o no centro do crânio. Fica claro ao vermos um esqueleto de lado, aqui.

Querem ver isso na prática? No “Adágio da Rosa”, de A Bela Adormecida, as bailarinas se mantém no balance durante os attitudes derrière olhando para frente, nunca para os pretendentes, aqui.

4. Distância entre os pés na quarta posição

Postura neutra, centro de gravidade, pescoço alinhado com a cabeça. Se você chegou até aqui, no mínimo, está craque em balance. Mas queremos o giro, então vamos ao pulo do gato.

Minha primeira pirueta limpa aconteceu depois de ler o capítulo 4 do livro “Physics and the Art of Dance”, de Kenneth Laws. Ele faz uma longa explicação sobre piruetas, mas vou destacar o ponto mais importante: a distância entre os pés na quarta posição.

Eu aprendi que a distância ideal era a equivalente a um pé meu. Se você também aprendeu isso, esqueça. Se aumentarmos a distância entre os pés, menor será a força horizontal necessária entre os pés e o chão para a pirueta acontecer. Trocando em miúdos, aumente a distância entre os pés e será bem mais fácil girar. Além disso, alongue ambos os braços, em vez de deixá-los arredondados.

5. Marcar a cabeça

Essa todo mundo conhece, mas coloquei para ninguém dizer que esqueci um passo importante. Ainda não aprendeu como marcar a cabeça? Veja como funciona aqui.

Recapitulando: postura neutra, centro de gravidade, alinhamento de pescoço e cabeça, distância entre os pés na quarta posição, marcar a cabeça. Com isso em mente, é hora de girar.

Pirueta não é questão de treino. Pirueta é questão de eixo. Agora que vocês aprenderam como encontrar o próprio eixo, é fácil descobrir o que saiu errado quando a pirueta não aconteceu. Aí sim é treino constante. Chegará o momento em que a pirueta sairá boa parte das vezes. Falo pela minha própria experiência.

Dúvidas? É só me perguntar.

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Texto atualizado em 15 de maio de 2020.

Como eu aprendi a fazer pirueta (1)

Quem acompanha o blog há bastante tempo sabe da minha imensa dificuldade em fazer pirueta. Eu era um daqueles casos perdidos, quando você pensa que jamais vai conseguir. Resolvi pesquisar sozinha sobre o assunto e, enfim, aprendi.

Demorei para falar a respeito porque o caminho percorrido por mim deu certo para mim e não significa que dará certo para vocês. Além disso, algumas pessoas pensarão que estou desmerecendo ou refutando a maneira ensinada pelos professores e professoras há décadas. Não estou. Apenas tive de descobrir o que era certo para mim, e assim foi.

Para o texto não ficar imenso, eu o dividi em duas partes. Hoje contarei todo o caminho percorrido por mim até conseguir girar sem dificuldade. Outro dia contarei os passos que sigo para a pirueta acontecer.

Tudo começou no meu primeiro semestre de ballet clássico. Logo no primeiro mês, já treinávamos o básico da pirueta na barra fixa e logo fomos ao centro. As minhas piruetas eram totalmente descoordenadas; saíam, mas com cara de nada. Eu comecei as aulas em junho e em novembro aconteceria o espetáculo anual. O que a professora colocou na nossa coreografia? Pirueta. Todo mundo girando ao mesmo tempo? Não, uma por vez. Passei dias dormindo mal porque me imaginava caindo no palco. Não é exagero. Na apresentação, não caí, mas a pirueta saiu parecendo a Torre de Pisa.

Mudei de escola no ano seguinte e os treinos se intensificaram no centro. Eu só conseguia fazer pirueta de quinta posição, vai entender!, mas a de quarta não saía. Na diagonal então, nem pensar! A professora começou a ficar tensa, a me cobrar, e eu só me angustiava. Ela me ensinou um treino básico, retiré e um quarto de giro na barra, mas nem isso adiantou. Assim foi durante um ano e meio até eu sair de lá.

Terceira escola. Já fui avisando a professora que eu tinha dificuldade com pirueta. Lá fomos nós: um quarto de giro, meio giro, giro completo. Piruetas no centro. Nada. Saí dessa escola, voltei um ano depois. Até o dia em que eu estava sozinha na aula com a professora e ela resolveu me ensinar a girar. Durante meia hora ou mais, ela me fez girar infinitas vezes. “Você só sairá daqui hoje se fizer pirueta.” Pânico. Eu não girava. Ela me fez ficar de costas para o espelho. Nada. Ela me fez fechar os olhos. Nada. Então ela percebeu que eu estava ficando nervosa e resolveu parar. Foi quando pensei que o ballet não era mesmo para mim.

Mesma escola, outra turma. Agora, um professor. Enfim, as coisas começaram a mudar.

As outras três professoras costumavam ensinar a pirueta separadamente. Na maior parte das vezes, treinávamos só a pirueta e eu já suava frio por antecipação. Esse professor ensinava de outra maneira, as piruetas eram inseridas em sequências de barra, centro ou diagonal. A pirueta era um dos passos entre tantos outros. Aprendi a girar? Não, mas perdi o medo. Sem isso, esqueça, a pirueta não acontece.

Saí da escola, estava sem aulas e voltei a treinar sozinha. Era o momento de aprender. Ninguém me cobrando, nada de tensão, faria como eu achasse melhor, no meu tempo. E fui estudar sobre os giros no ballet clássico.

Comprei o livro “Physics and the Art of Dance”, já falei sobre ele aqui, sobre a física aplicada ao ballet clássico. Livro em mãos, fui direto para o capítulo sobre o assunto. Li e fui ao centro do meu quarto, seguir exatamente as recomendações do autor. O que aconteceu? Pela primeira vez, fiz uma pirueta completa e limpa. Entre a minha primeira aula de ballet e esse momento foram quatro anos.

Mas o que aconteceu, mágica? Não, física. Só então entendi como temos uma visão completamente equivocada. Pirueta não é uma questão de treino. Pirueta é uma questão de eixo.

Você pode treinar horas por dia, mas se estiver girando de maneira errada, não vai adiantar. “Ah, mas as professoras falam sobre eixo.” Sim, mas ensinam todas nós da mesma maneira. Há pessoas que já nasceram no eixo, como a Adeline Pastor. Já a maioria de nós não nasceu pião, precisamos encontrar o nosso eixo. Como encontrá-lo? É isso que vou ensinar.

Desde a minha primeira pirueta limpa até agora, outras coisas foram estudadas, como equilíbrio e centro de gravidade. O meu índice de acerto nos giros? Em torno de 90%. Foram sete anos para chegar nisso.

Novamente, não estou desmerecendo ninguém. Você consegue girar da maneira ensinada pelos seus professores? Ótimo, mantenha. Eu vou falar com quem não consegue fazer pirueta de jeito nenhum.

Preparadas? Até o fim da semana eu volto para contar.

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Para ler a parte 2, aqui.