William Tell pas de deux

Para voltarmos aos eixos depois do Carnaval, uma delicadeza.

William Tell pas de deux é um divertissement coreografado por August Bournonville em 1873. Eu o encontrei por um mero acaso; na newsletter de fevereiro eu compartilhei um vídeo com a parte final. Depois, encontrei a obra completa, também com o entrance e as variações feminina e masculina.

Vou publicar o vídeo mais curto, porque ele foi publicado no canal do English National Ballet e geralmente esses vídeos não são retirados do ar. Quem quiser assistir ao William Tell pas de deux completo, dançando pelos bailarinos Diana Cuni e Thomas Lund, do Royal Danish Ballet, clique aqui.

Connie Vowles and Giorgio Garrett: William Tell pas de deux | English National Ballet.

Marianela e Vadim, Swanilda e Franz

Fim de ano é um período meio complicado, temos mil coisas pendentes para resolver e um relógio que insiste em correr. Assim, eu não tenho feito os posts que eu gostaria, mas Marianela Nuñez e Vadim Muntagirov surgiram para salvar a semana.

Ano que vem, prometo!, farei um texto explicando por que, na minha opinião, Marianela Nuñez é a melhor bailarina em atividade. É impressionante como ela fez bem qualquer papel dos grandes repertórios. Aurora, Odette, Lise, para ficar entre as mocinhas. Odile, Myrtha e Gamzatti, para ficar entre as vilãs. “Ah, mas será que ela consegue fazer a adolescente mais fofa e bravinha do ballet clássico?” Consegue. Olhem só ela como Swanilda.

Se não bastasse isso, depois de dois grandes partners ‒ Thiago Soares e Carlos Acosta ‒ será que ela encontraria outro tão bom? O Vadim Muntagirov trocou o English National Ballet pelo Royal Ballet. Lá, ele e Daria Klimentova formaram uma dupla incrível (mal comparando, me lembrava Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev). Pois desse novo encontro surgiu uma parceria encantadora. Como é bom ver os dois juntos, eu esqueço a técnica clássica e aproveito uma das maravilhas do ballet clássico: ficar emocionada ao vê-los dançando.

Esse pas de deux mostra bem isso. Marianela e Vadim, Swanilda e Franz. Vida longa para essa parceria, a dança e o meu coração agradecem.

Pas de deux do terceiro ato, Coppélia, Royal Ballet, Marianela Nuñez e Vadim Muntagirov, 2019.

O pas de deux perdido

Hoje o blog terá um texto escrito por uma convidada especial, a querida amiga Juliana Mel, do Vídeos de Ballet Clássico. Preparadas para aprender?

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O pas de deux perdido
Juliana Mel

Há algum tempo, a Cássia me convidou para escrever uma matéria para o Dos passos da bailarina. Tive ideias para vários posts, mas não finalizei nenhuma! Eis que, semanas atrás, fiz uma descoberta incrível a respeito do repertório favorito dela, Giselle, e pensei: Por que não?

Tudo começou com o vídeo de uma variação postada nos stories do perfil Só Bailarinos no Instagram. Ele foi gravado durante o Universal Ballet Competition, que aconteceu em Miramar, na Flórida (EUA), e repostado no grupo Bailarinos da Ma, no WhatsApp.

Dia 1, Universal Ballet Competition, fev. 2019.

Ninguém naquele grupo sabia que variação era essa, inclusive eu. Mas, ao assistir, fiquei com aquela sensação de “já ouvi isso em algum lugar”… À primeira vista, pensei se tratar de alguma variação de La fille mal gardée, pois, além do figurino camponês, esse ballet sempre foi, desde o seu lançamento, uma verdadeira colcha de retalhos! A cada nova produção, uma partitura diferente. Veja como essa música lembra a da versão coreografada por Alicia Alonso.

“Variação de Lise”, La fille mal gardée, Ballet Nacional de Cuba, 2016, Anette Delgado.
O vídeo completo, aqui.

Depois, entrei no site do festival e pesquisei todas as variações femininas que costumam ser apresentadas. Da lista, as únicas que pareciam se encaixar no estilo da “coreografia misteriosa” seria alguma das variações do ballet Napoli, de August Bournonville. Verifiquei uma por uma, tanto na montagem antiga, dos anos 1980, como na versão mais recente, e nada!

Inconformada em não conseguir descobrir, repostei o vídeo nos stories do Instagram do meu blog e perguntei se alguém sabia. Quem atendeu ao chamado foi a professora Myrna Jamus, que volta e meia é mencionada pela Cássia aqui no blog.

Segundo a explicação dela, essa variação foi composta por Ludwig Minkus e fez parte de um pas de deux criado por Marius Petipa para o relançamento do ballet Giselle na Rússia, em 1884. A coreografia original, que não se sabe como é, era interpretada por Giselle e Albrecht no primeiro ato da peça, mas ficou pouco tempo em cartaz. Na década de 1950, Leonid Lavrovsky resgatou a música, há muito perdida, e criou uma nova coreografia em estilo clássico. Nos festivais, a variação feminina costuma ser atribuída a Giselle.

Variação feminina do pas de deux de Leonid Lavrovsky com música de Ludwig Minkus, Bolshoi Ballet School, Tóquio, 1986.
O vídeo completo do pas de deux, aqui.

O mais interessante é que a variação feminina do pas de deux camponês apresentada na versão do Kirov/Mariinsky nos dias de hoje tem música alternativa, com orquestração muito semelhante à variação de 1884.

“Variação feminina do pas de deux camponês”, Giselle, The Kirov Ballet, 1983, Olga Vtorushina.

E ainda, segundo a Myrna, a música de Minkus costuma ser utilizada como uma das infinitas variações de Paquita, com algumas modificações na coreografia de Lavrovsky. Particularmente, eu não me lembro de ter visto… Alguém aqui já?

Essa é só uma pequena amostra de como o universo do ballet é vasto. Eu, que estudo muito sobre os ballets de repertório, só agora aprendi sobre esse pas de deux que, algum dia, fez parte de Giselle. Quantas músicas e coreografias perdidas ainda iremos conhecer? Isso, só o tempo dirá.