Os meus outros amores

Não é segredo para ninguém que, em maior ou menor grau, somos apaixonadas pela dança. Ela toma conta dos nossos dias, dos nossos pensamentos, do nosso corpo e não conseguimos mais largá-la. Às vezes, a relação fica estremecida, mas não termina.

Mas alguém vive apenas de dança? Não é uma pergunte retórica, é um questionamento sincero. O mundo é vasto, não é raro termos outras paixões na vida.

Confesso, eu tenho outros dois amores. Dança, me perdoe, mas você não é a soberana do meu coração.

OS LIVROS

Não me lembro de um período da minha vida em que os livros não estivessem presentes de alguma maneira. Assim que aprendi a ler, as palavras tomaram conta dos meus dias.

Lá pelos meus onze anos, eu assisti na escola ao filme Sociedade dos poetas mortos. A poesia mudando a vida daqueles garotos e a minha, eu tão pequena sendo tomada por aquele amor. Comecei a escrever poemas e textos curtos pouco tempo depois. Ganhava livros de presente, cabulei aula para ler, adorava a biblioteca da faculdade, me tornei uma profissional dos livros, lancei três, participei de um clube de leitura por anos, faço um podcast sobre escrita com uma grande amiga escritora. Há livros ao lado da cama, na minha mesa, na estante. Tenho dois leitores de livros digitais. Amo livrarias. Adoro conversar sobre o que estou lendo, adoro saber o que as outras pessoas estão lendo. Sempre sorrio ao ver alguém com um livro em mãos. Desdenhe dos livros e nunca mais eu te olharei da mesma maneira. Se alguém fala mal da literatura, eu levo para o lado pessoal. Parece exagero, mas não é.

A minha relação com os livros é tão próxima que sequer posso compará-la com a dança. Os livros são quem eu sou, a dança é a minha companheira nos dias de alegria.

Trailer de Jane Eyre, do American Ballet Theatre, inspirado no livro homônimo de Charlotte Brontë.

O FUTEBOL

Eu jogava futebol na escola, mas era apenas no intervalo, porque meninas não jogavam futebol nas aulas de educação física. Para a minha desolação, eu era obrigada a jogar outras modalidades. Inventei uma dor de barriga em um jogo do campeonato de vôlei entre turmas porque tinha pavor de jogar (desculpe, time, mas seria bem pior comigo na quadra). No fim das contas, a agonia durou apenas o primeiro ano do ginásio, fui diagnosticada com um problema no meu joelho esquerdo e passei a ser liberada das aulas. Sabe como o problema deu uma trégua? Adulta, graças às aulas de ballet.

Eu sou corinthiana e passei anos da minha vida querendo ir ao estádio, mas nunca tive companhia. Porque era perigoso, porque não queriam me levar, porque torciam para outro time, porque isso e aquilo, enfim. O meu amor pelo futebol acontecia apenas assistindo aos jogos na sala de casa. Até que aconteceu a Copa do Mundo no Brasil. Não, eu não fui a um jogo sequer, mas emendava um jogo atrás do outro assistindo pela televisão. Dali em diante, passei a acompanhar futebol todos os dias. Sim, eu sou daquelas pessoas que assistem a mesas redondas, em que discutem por uma hora se foi pênalti ou não. Esquema tático, escanteio, tiro de meta, impedimento soam tão naturais para mim quanto plié, diagonal, corpo de baile e pas de bourré. Acompanho todos os jogos do meu time, em todo os campeonatos que ele participa. Também acompanho o time feminino e a seleção brasileira feminina.

Três anos depois, finalmente eu fui ao estádio. Sozinha. Passada a barreira do medo, fui outras vezes, sempre sozinha. Aprendi os cantos da torcida e me sinto em casa. Quando perguntam “Como é usar sapatilha de ponta?”, não conseguimos explicar porque só quem usou sabe como é. Com o futebol é a mesma coisa. Se você não torce por um clube de todo coração, nunca vai entender a emoção de um gol, a tristeza ao perder um jogo, o sentimento de ser campeão. Neste mosaico, eu estou lá na primeira perninha de baixo do H, chorando porque eu estava no estádio vendo meu time campeão brasileiro de 2017. É um momento que levarei para o resto da vida.

Trecho de “Big Bang”, da obra Onqotô, do Grupo Corpo. A coreografia faz alusão ao Fla-Flu (Flamengo e Fluminense), um dos maiores clássicos do futebol brasileiro.

E quais são os outros amores de vocês?

De arrepiar

Num daqueles momentos em que eu assistia a vários vídeos, de coreografias e danças diferentes, percebi que algumas me arrepiam. Não falo de emocionar, encantar, impressionar, mas arrepiar mesmo. Quando o meu corpo reage diante de tamanha grandeza.

Assim, comecei a pensar quais momentos fazem isso comigo. E notei algumas semelhanças. Primeiramente, quando tal reação acontece, eu assisto tantas vezes a ponto de quase decorar a coreografia. Depois, são sempre coreografias em grupo. Ainda não existiu um solo que causasse em mim tamanha comoção. O motivo? Sinceramente, não sei.

Separei três momentos, de três danças diferentes.

O lago dos cisnes, segundo ato, coda
Não importa a montagem, tampouco a companhia, eu sempre me arrepio com este momento. É impressionante. Já assisti a várias versões e, entre uma e outra, praticamente não há mudanças na coreografia, talvez porque ela é perfeita tal como é.

Onqotô, do espetáculo Onqotô, Grupo Corpo
Assisti pela primeira vez no documentário Grupo Corpo 30 anos e achei que minha reação tivesse sido por conta da primeira impressão. Que nada. Perdi a conta das vezes que assisti e, não adianta, quando termina eu estou arrepiada. Sei trechos de cor e às vezes mantenho meu foco nas partes que gostaria de dançar. Parece loucura, eu sei.

Astúrias, no filme Ibéria, de Carlos Saura
Também assisti pela primeira vez quando comprei o DVD do filme Ibéria, de Carlos Saura. Achei incrível. E revi tantas vezes que até o MP3 da música consta da minha trilha sonora. Claro que não tem a mesma emoção, o sapateado do flamenco pulsa dentro da gente. O final me arrebata e, pronto, me arrepio. A coreografia começa “para valer” em 1’30”.

Alguém notou que, das três coreografias, em duas há homens dançando? Tema para um post em breve.

Documentário: Grupo Corpo 30 anos

Eu descobri o documentário por acaso, numa das minhas pesquisas sobre o Grupo Corpo. Como eu tenho uma certa resistência à dança contemporânea, comecei a assistir para ver se gostava. Até que comprei o DVD.

Assisti ontem e é muito bom, e por vários motivos. Primeiro, para entendermos como funciona uma companhia brasileira. Temos referências de fora, mas raramente entendemos como é o processo artístico do nosso país. Segundo, para nós é bacana ver a formação clássica dos bailarinos do Grupo Corpo. Para fazer parte da companhia, todos devem ter essa formação e, não só, eles têm aulas de ballet clássico sempre. E por quê? Para conseguirem acompanhar as coreografias dificílimas tecnicamente. Acreditem, é tudo muito difícil! E lindo de ver.

Mas uma coisa espetacular, que nunca tinha visto e achei muito inteligente: o grupo tem uma sede. Nessa sede, um teatro. Todas as aulas e ensaios são feitos no palco. Ou seja, o Grupo Corpo trabalha, o tempo todo, em cima do palco. Só quem já ensaiou numa sala de aula e depois teve de ensaiar, no dia da apresentação, num palco três vezes maior, sabe a dificuldade de adaptação do espaço. Sabe a diferença entre “olhar para o espelho” e “olhar para a plateia”. E é demais vê-los no palco o tempo todo.

Por enquanto, perdi a minha implicância com a dança contemporânea. Preciso assistir mais, ver mais, pesquisar mais, para saber se não é um encanto específico com o Grupo Corpo. E, mesmo que seja, é de um imenso orgulho saber que no Brasil existe uma companhia desse porte, dessa qualidade técnica e com um trabalho artístico impecável.

E, como não poderia deixar de ser, aqui está a minha coreografia preferida do filme, aquela que entrou na minha lista de “Quero dançar um dia”.

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Quem quiser saber mais sobre o Grupo Corpo, acesse www.grupocorpo.com.br