O prólogo que inspirou o prólogo

Quem assistiu ao filme Black Swan provavelmente se lembra da sequência inicial, quando Rothbart transforma Odette em cisne.

Prológo, Black Swan, direção de Darren Aronofsky, 2010.

Em seguida, a personagem principal, Nina, acorda e durante seu alongamento matinal conta à mãe sobre o sonho que tivera, o prólogo que acabamos de assistir, ela estava dançando O lago dos cisnes e parecia a versão do Bolshoi.

Não sou uma especialista em repertórios, mas o prólogo do filme é idêntico ao prólogo de uma outra companhia russa: esta montagem do Kirov/Mariinsky, de 1968, feita especialmente para ser filmada.

Esse prólogo tem uma força dramática tão grande, é uma das passagens mais belas do ballet clássico.

Prólogo, O lago dos cisnes, Kirov Ballet, 1968, Yelena Yevteleva e Makhmud Esambayev.
Quem quiser baixá-la, aqui.

Odette: frágil ou rainha?

Eu tenho o costume de ler os comentários dos vídeos no YouTube. Gosto de saber o que as pessoas acharam, mesmo que pareça um absurdo o que disseram. Em uma dessas vezes, assistindo pela vigésima vez à estreia da Evgenia Obraztsova em “O lago dos cisnes”, li o comentário de uma pessoa dizendo que a sua Odette era a moça frágil e amedrontada como deveria ser, ao contrário de várias outras bailarinas que davam ao cisne branco um ar de “diva”. E não é verdade?

Pensemos: você está caminhando no bosque feliz e contente, um feiticeiro medonho aparece do nada e te aprisiona no corpo de um cisne, sem mais nem menos. Desde então, você está fadada a ser cisne durante o dia e mulher durante à noite, além de estar longe de sua mãe que chorou tanto a ponto de formar um lago onde você é obrigada a ficar durante o dia. Não só, para se livrar disso, você precisa encontrar um rapaz que a ame verdadeiramente. E detalhe: encontrará esse rapaz, mas ele pedirá outra em casamento e você será prisioneira para sempre. Haja angústia!

Para mim, a melhor tradução desse aprisionamento pode ser vista nesta cena.

Primeira cena do filme Black Swan, de Darren Aronofsky.

Sim, eu acho que a Natalie Portman conseguiu entender claramente a personalidade da Odette (e também da Odile, mas isso fica para outro dia). A angústia está nos seus olhos, o tempo todo. E notem o momento em que ela toca o próprio rosto depois da transformação… Na segunda vez, parece que ela mostra as lágrimas escorrendo. Perfeito!

Mas ela é atriz, existe uma facilidade maior pela própria característica da profissão (e falei sobre essas diferenças aqui). E entre as bailarinas? A meu ver, duas conseguiram encontrar esse tom de fragilidade: a Evgenia Obraztsova e a Gillian Murphy. Sendo que a Gillian consegue manter isso o tempo todo ao longo do ballet, eu fico impressionada.

Por outro lado, o perfil “rainha dos cisnes” impera. Acho que duas bailarinas atingem o grau máximo nesse quesito: Ulyana Lopatkina e Svetlana Zakharova. Divas do começo ao fim.

Dentre essas duas possibilidades, eu prefiro a Odette frágil, amedrontada e angustiada para fazer o contraponto com a Odile vil, sedutora e dona da situação. Mas essa é uma visão absolutamente pessoal.

E vocês, preferem a frágil ou a rainha?

Quando a dublê quer o papel principal

Vou resumir basicamente para quem desconhece a história. No filme Black Swan, Natalie Portman teve duas dublês: Kimberly Prosa e Sarah Lane. A primeira foi a dublê principal e a segunda foi responsável pelo trabalho de pés, diagonais e fouettés.

Há alguns dias, Sarah Lane, solista do American Ballet Theatre, disse em uma entrevista à Dance Magazine (que não encontrei) que não foi creditada como dublê. Não só, contou que foi proibida de dar entrevistas à imprensa, a fim de que todos pensassem que Natalie transformou-se em primeira-bailarina em apenas um ano e meio. Benjamin Millepied, coreógrafo do filme e namorado de Natalie, contestou as declarações e afirmou que a mãe do seu rebento realizou 85% das cenas de dança. Enfurecida, Sarah Lane rebateu e disse que Natalie fez apenas 5% das cenas de dança. Não satisfeita, afirmou querer apenas que o ballet tenha o reconhecimento que merece.

Por enquanto, fim da história.

Quando o primeiro barraco surgiu, a Lettícia, leitora do blog, colocou o link da notícia nos comentários e falou que seria bacana eu comentar a respeito. Eu já sabia e meu sangue tinha subido fortemente. Eu me neguei a comentar, porque não queria falar sobre o assunto. Mas agora o meu sangue não apenas subiu, ferveu. E, ainda bem, eu tenho um blog para desopilar o meu fígado.

Vamos aos fatos.

O nome de Sarah Lane realmente não aparece como stunt (dublê), mas como lady in the lane, algo como “moça na pista”, ou seja, uma figurante. Porém, não encontrei os créditos oficiais do filme. Pelas várias listas que pesquisei, há profissionais  que constam em uma e faltam em outra. Logo, não é possível afirmar se ela foi, de fato, deixada de lado.

Ela está certa em exigir o crédito? Claro que está. A questão é: por que ela não aparece como dublê? Eu não tomo partido de nada, nem de ninguém, sem antes saber os dois lados de uma história. E, nesse caso, há motivos para não levá-la muito a sério. E por quê?

Em primeiro lugar, ela fez um barraco público. Eu penso da seguinte forma, “apelou, perdeu”. Salvo no caso dos créditos, as suas afirmações não se sustentam. E ninguém pode alegar desonestidade de uma parte se ela própria não está sendo idônea. E Sarah Lane não foi.

1) A dublê principal não foi ela, mas Kimberly Prosa. Sarah a citou alguma vez? Já Kimberly fala da companheira de set aqui.

2) Ela afirma ter sido proibida de dar entrevistas falando sobre o filme antes da entrega do Oscar, mas qual o nome disso na Dance Magazine de dezembro de 2010? Ah, uma entrevista! Aliás, ela reclama quase o tempo todo, inclusive, de ter repetido 40 vezes a coda do cisne negro. Ou seja, sequer entende e respeita como uma filmagem funciona, mas exige respeito pelas peculiaridades do ballet clássico.

3) Segundo Sarah, o estúdio quis esconder o seu trabalho como dublê para que Natalie Portman fosse vista como primeira-bailarina. A Fox publicou diversos vídeos sobre a produção, e listei todos mais adiante, e um deles refere-se aos efeitos visuais. Eu assisti na época da publicação e havia três cenas, sendo duas diagonais e os fouettés de frente para o espelho, em que era mostrada a substituição do rosto de Sarah pelo rosto de Natalie. Não só, a Sarah aparecia claramente. Se a intenção era esconder, por que logo a produtora iria mostrar como as cenas foram feitas? Dias antes do Oscar, o vídeo foi alterado e as cenas da substituição do rosto foram cortadas. Agora vocês dizem: “Aí, ela tem razão”. Não tem. Os votos já estavam em posse da Academia, sendo contados. Naquele momento, já não faria diferença. A grande questão é o motivo desse fato e aposto que nunca saberemos.

Com isso, Sarah conseguiu o efeito contrário: quer reconhecimento do ballet clássico, mas coloca as bailarinas como barraqueiras invejosas. Sim, meus caros. É assim que ela se mostra, por um motivo simples. Ela não quer apenas o crédito, ela quer o mérito. Ao desqualificar o trabalho de Natalie Portman, põe em cheque o Oscar que esta recebeu, sem entender e aceitar que o prêmio foi para o seu trabalho de atriz. Quem ganhou não foram os fouettés, os pés na ponta, as diagonais. Foi a transformação visível de um cisne branco em negro. Assistam ao vídeo. As mudanças nas feições da Natalie deixam claro o quanto ela mereceu o prêmio máximo do cinema.

Sarah Lane não foi o verdadeiro cisne. A menos que a gente ache que técnica é arte. Porque não é. Técnica é o meio, não o fim. E podem me xingar à vontade, mas vejo nessa atitude de desmerecimento público algo típico de quem não aceita novatos no ballet. Essa foi apenas a ponta de críticas que foram feitas durante todo o tempo. Parece que o mundo do ballet diz a todo instante: “Como uma atriz ousa interpretar uma bailarina e, ainda por cima, ser reconhecida por isso? Ora, eu faço ballet há duas, três décadas, quem ela pensa que é?” Ela é atriz. Seu trabalho é nos convencer de que ela é quem realmente a personagem afirma ser. E Natalie Portman nos convenceu que era uma bailarina. Ela não disse que é. Enquanto o mundo das sapatilhas está rasgando tule de raiva, Natalie Portman já interpretou uma médica, em Sexo sem compromisso, e viveu no reino celeste de Asgard, em Thor. Ela continua com seu trabalho, continuem com o de vocês.

Sarah Lane, aceite, você foi apenas uma dublê. Você merece o crédito, não os louros. Não transforme as bailarinas em seres que se acham mais do que realmente são. Há uma série de profissionais que fizeram o filme ser o que é. Muitos. Você foi um pedacinho e, por favor, tenha a dignidade de se comportar como tal.

Quando Jenifer Ringer foi entrevistada no programa da Oprah Winfrey, ela disse que gostou de Black Swan, mas achou exagerado do meio para o final. “As bailarinas não brigam de tutu no camarim.” Tem razão. Elas fazem isso publicamente, pela imprensa, para todo mundo saber.

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Quer conhecer um pouco do processo do filme? Basta clicar nos títulos e se divertir.

Production and Aronofsky
Darren Aronofsky
Natalie Portman’s Training
Natalie Portman
Production Design
Visual Effects Reel
Dancing with the Camera
Mirrors

ATUALIZAÇÃO: O diretor do filme, Darren Aronofsky, lançou uma nota sobre o assunto. Para ler, aqui.

Eu não falarei mais sobre isso. A minha opinião está clara no post. Eu defenderei o filme, o diretor, a Natalie e o cinema. E quem não é leitor constante do blog, mas só quer brigar, pode ficar onde está. Para mim, uma coisa ficou clara com esse episódio e demais afirmações a respeito: o ego se transforma em um gigante quando alguém coloca sapatilhas nos pés. Eu suspeitava, mas agora eu tenho certeza. E antes que me agridam, não se esqueçam, eu também faço ballet clássico. Estou falando do meu próprio quintal.