“É preciso sair do Brasil para viver o balé dignamente”, diz brasileira estrela do Royal Ballet de Londres

De vencedora do Prix de Lausanne, em 2011, a primeira-bailarina do Royal Ballet, dez anos depois, a bela carreira de Mayara Magri é uma inspiração para bailarinas de todas as idades e formações. Como não ficar encantada por ela?

Neste fim de semana, a coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, publicou uma entrevista com a Mayara Magri realizada por James Cimino. Leiam, leiam, leiam. Além de pontuar questões muito importantes, ela mostra que, além de técnica e talento, tem plena consciência de sua profissão e do ballet para além da própria companhia. Passei a gostar ainda mais dela.

A entrevista completa, aqui.

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Qual o papel da dança na sua vida?

Provavelmente, a maioria de vocês conhece o maestro João Carlos Martins. Falei sobre ele em um post, aqui. Engraçado que eu divaguei sobre o fato dele ter escolhido outro caminho na música, porque aceitou que não poderia mais tocar.

Há poucos dias, ele passou por uma cirurgia para voltar a movimentar os braços. Não conseguiu “apenas” isso, ele voltou a abrir as mãos depois de dez anos. Ele é um pianista.

“[…] Mas, no momento em que minha mão abriu na operação, já comecei a sonhar: ‘Vou continuar a reger. E quem sabe volto a tocar piano também’. Porque, no fundo, eu não me conformo de não poder tocar. É uma dor. É como um cadáver enterrado lá dentro.”

Para ler a entrevista completa, concedida à jornalista Mônica Bergamo, aqui.

E no Dia Internacional da Dança, por que eu falo de um músico? Porque João Carlos Martins não é apenas um músico. Aos 71 anos, ele passou por cima do próprio medo para que a música não saísse de sua vida. Aliás, é o que ele tem feito: ir contra a maré para a música continuar.

E na dança? Há um excesso de lágrimas, paixão e reclamação. Em contrapartida, pouco estudo e dedicação. Afinal, o que é mais importante, ser vista como bailarina ou dançar?

Sim, há uma diferença. Falarei especificamente do ballet clássico: é algo que dá status. Você vira a bailarina da turma, da família, do bairro. As pessoas a reconhecem na rua por conta do porte e do coque. Você coloca fotos de si mesma no Facebook e as pessoas curtem. Você conta no Twitter que está indo para a aula de ballet. Você se comporta como a namorada apaixonada e diz que a dança é a sua vida. Além disso, se acha mais especial que os demais mortais, afinal, você é bailarina!

Agora, digamos que a vida lhe imponha uma condição: para continuar no ballet clássico, ninguém poderia saber disso. As pessoas só descobririam sentadas na plateia, no momento em que as cortinas se abrissem e você começasse a dançar. Terminado o espetáculo, elas não te reconheceriam lá fora. Você voltaria a ser como todas as outras pessoas que não dançam.

O que você faria?

Ficou em dúvida? Então talvez você precise repensar a dança na sua vida.

Voltando ao João Carlos Martins, hoje ele quer uma coisa: sentar novamente diante de um piano e voltar a tocar. Porque essa é a sua pulsão de vida. Ele é pianista na sua essência. Ele é famoso, criou uma orquestra, é reconhecido no mundo por toda a sua história. E qual é o seu sonho? Tocar novamente um piano.

Qual é o papel da dança na sua vida? Essa resposta é pessoal, íntima e reservada. Não importa qual seja. Só não vale ser incoerente. Porque o que define uma bailarina em qualquer lugar do mundo é uma única coisa: ela realmente se dedica a dançar. O resto é firula e divagação.