Onde elas estão?

Há quase cinco anos, escrevi um dos textos mais acessados do blog, “As bailarinas negras e o ballet clássico“. Além de fazer um breve panorama sobre o assunto, falei a respeito de quatro bailarinas do passado (Janet Collins, Raven Wilkinson, Lauren Anderson e Aesha Ash) e quatro bailarinas que estavam ganhando cada vez mais espaço no mundo do ballet clássico (Misty Copeland, Céline Gittens, Michaela DePrince e Precious Adams). Hoje, onde estão essas bailarinas?

Misty Copeland
De solista a primeira-bailarina do American Ballet Theatre

Depois de muitos questionamentos sobre a demora de sua nomeação, Misty Copeland finalmente chegou ao mais alto posto da companhia em 2015, pouco tempo depois da publicação do texto. Na época, lembro de alguns comentários pejorativos, como se ela não fosse merecedora da promoção. Na verdade, comentários racistas, porque ela tem apuro técnico, talento e um físico impecável. Além disso, sua influência vai além dos palcos, ela é uma ativista pela inclusão de meninas negras na dança. Há quem a chame de midiática, eu chamo de reconhecimento mesmo. Atualmente, será que alguma bailarina consegue ter o alcance popular que a Misty conseguiu? Acredito que não.

Perfil no site da companhia, aqui.
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Trechos de Romeu e Julieta, Tchaikovsky pas de deux e Cisne branco, Misty Copeland, Vail Dance, 2015.

Céline Gittens
De solista a primeira-bailarina do Birmingham Royal Ballet

Confesso, eu acreditava que a Céline Gittens chegaria a primeira-bailarina antes da Misty Copeland, mas isso aconteceu um ano depois, em 2016. Delicada, técnica, eu gosto demais de vê-la dançar. Ela não tem tanta projeção quanto as outras três, mas quem se importa? Continua sendo uma grande bailarina.

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Céline Gittens, “Variação do cisne branco”, O lago dos cisnes, Birmingham Royal Ballet, 2019.

Michaela DePrince
Da companhia jovem à solista do Dutch National Ballet

Na época do texto, a Michaela sequer fazia parte da companhia principal, em pouco tempo, ingressou no corpo de baile e subiu na hierarquia até chegar a solista. Fala-se muito sobre a “força de sua história”, mas nesta palestra ela conta o grau de violência e abandono pelos quais ela passou. “Vocês acham que é um conto de fadas?”, ela pergunta depois de contar a sua vida. Não, não é. Além disso, o grande destaque deveria ser a sua carreira. Não há dúvidas de que o posto máximo da companhia é questão de tempo.

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Coreografia de Peter Leung/House of Makers, Michaela DePrince, Women in the World, 2015.

Precious Adams
De corpo de baile a first artist do English National Ballet

A Precious Adams estudou no Bolshoi Ballet Academy, foi uma das vencedoras do Prix de Lausanne, mas em cinco anos ela subiu apenas um posto na companhia (first artist está entre corpo de baile e demi-solista). Na minha opinião, ela é a mais técnica das quatro, eu sempre fico impressionada ao vê-la dançar. Será que está faltando presença em cena ou as coisas são mesmo mais lentas pelas mãos da Tamara Rojo, a diretora da companhia?

Perfil no site da companhia, aqui.
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“Pas de deux”, Harlequinade, Precious Adams e Fernando Carratalá Coloma, English National Ballet, 2018.

Esse breve texto não é nada perto das discussões e informações necessárias a respeito do racismo na dança. Por isso, recomendo também outros quatro posts do blog:

Vamos ler, ouvir, discutir, compartilhar. O racismo é um problema nosso e deve ser combatido até o seu fim.

Por aí #3

Vamos aos textos e informações deste mês? Quem quiser ver as publicações anteriores, aqui.

Para quem não sabe inglês, há o Google Tradutor e o Bing Tradutor. Não é a mesma coisa, mas o importante é se informar.

O que há de diferente no Balé da Cidade, que completa 50 anos
Além de um panorama sobre a história do Balé da Cidade de São Paulo, a matéria explica vários aspectos importantes da dança contemporânea e faz um contraponto com alguns outros do ballet clássico. É um excelente texto!
Para ler o texto completo, em português, aqui.

Professora de Arte vence o ‘Nobel de Educação’ de 2018
Andria Zafirakou é professora de arte no ensino médio de um distrito de Londres; seus alunos e suas alunas são pobres e expostos a grande violência. Ela venceu o Global Teacher Prize, sendo eleita a melhor professora do mundo. Ela cobrou maior espaço para as artes no currículo, pois “sempre são a primeira coisa a ser cortada”. Como discordar? Nós sabemos bem como a arte é negligenciada, e não apenas no Brasil, como gostamos de afirmar. Quem sabe esse prêmio seja uma fagulha que comece uma mudança.
Para ler o texto completo, em português, aqui.

Meet 10 Up-and-Coming Black Ballerinas Carrying on Misty Copeland’s Message of Diversity and Inclusivity
Misty Copeland não foi a primeira bailarina negra na história do ballet clássico, mas foi ela a responsável por abrir de uma vez as portas e os palcos para novas e promissoras bailarinas negras. Nesta lista, há dez jovens artistas que estão conquistando espaço e reconhecimento.
Para ler o texto completo, em inglês, aqui.

Projeto popular no Instagram reúne fotografias de bailarinas posando em cartões postais do Cairo
A matéria não é recente, mas continua válida e interessante. Inspirado no Ballerina Project, o fotógrafo Mohamed Taher desenvolveu o Ballerinas of Cairo em que mostra bailarinas em diversos pontos da capital do Egito. Para conhecermos um pouco além do que estamos tão acostumadas.
Para ler o texto completo, em português, aqui.

Gallery: Historic photos of The Nutcracker
Fotografias do arquivo do Royal Opera House mostram a história desse repertório em sua companhia de ballet. Uma viagem a um tempo que não tivemos a oportunidade de conhecer.
Para ler o texto completo, em inglês, aqui.

A importância das meias tonalizadas

A meia-calça rosa é um dos ícones do ballet clássico, só perde para a sapatilha, igualmente rosa. Na pele branca, elas mantêm as linhas do corpo, um dos pontos-chave do ballet.

Um momento: manter as linhas para quem? Como as bailarinas negras ficam nessa história? A Cyndi, querida amiga do blog O meu repertório, escreveu este longo texto sobre as implicações dessa dupla rosa no corpo e na arte dessas bailarinas.

Aproveitem essa aula.

***

Meia-calça rosa…
Cyndi Oliveira, O meu repertório

Esse assunto tava me incomodando há muito tempo. Porque, de tanta coisa que o ballet não me acolhe (ballet não, as pessoas), meia-calça parece o mais simples de resolver.

Mas não é.

Eu não gosto de meia-calça rosa em mim. Não gosto. Ela deixa a linha do corpo dividida, fica numa cor estranha e não me é agradável de olhar. A meia rosa, depois de velha, fica mais puxada para o branco, o que aumenta mais o contraste entre a parte de cima e a de baixo. Dá pra perceber muito bem na Misty (a bailarina negra com mais destaque ultimamente). A meia rosa dá uma encurtada, fica dividida.

Misty Copeland e Jeffrey Cirio, Dom Quixote, American Ballet Theatre. Foto: Rosalie O’Connor. / Misty Copeland, O corsário, American Ballet Theatre. Foto: Rosalie O’Connor.

Meia tonalizada é um amor!

Nas bailarinas de pele mais escura, o contraste é ainda maior. Por exemplo, Michaela DePrince:

Michaela DePrince e Sam Wilson, “grand pas de deux do cisne negro” de O lago dos cisnes. Foto: Matthew Murphy. / Michaela DePrince, O quebra-nozes, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet.

Das pesquisas que fiz, entendi que a meia-calça foi inventada para facilitar os movimentos. Antigamente, lá nas origens e etc, as bailarinas usavam roupas muito pesadas, que gradativamente foram perdendo camadas e comprimento. Muito era usado para esconder o corpo mesmo (normal, né, costumes da época). Quem não conhece a peripécia de Marie Camargo? (muita gente, então tá aqui o link).

Meia-calça também é pra aquecer. E tenho cá pra mim que também é pra esconder os músculos da mulher. Pra permanecer com a aparência frágil e feminina.

Enfim. Das ilustrações que vejo, as meias-calças são brancas. Mas não dá pra saber direito quão fiéis à realidade são essas cores. Outra coisa: ballet é europeu, né, pessoas bem brancas. As mulheres (ricas, obviamente) se cuidavam para manter a pele muito branca. Nessa época, não se via bailarina de outra cor mesmo, então, acredito que a meia-calça era como na ilustração.

Nestes vídeos da Royal, numa série chamada “Ballet Evolved”, dá pra ver como eram os figurinos e roupas para aula. Também tem este aqui que amo. E este link que fala sobre a história da roupa de ballet (tá em inglês, mas dá pra jogar num tradutor maroto). E pra ver em vez de ler: roupas do século 18 e 19.

E hoje?

Aquecer? Sim. Esconder músculo? Não sei. Ser da cor da pele? Não. A menos que você seja branca.

Pessoas dirão: “Ah, mas meia-calça rosa não é da cor da pele de ninguém”. E eu direi: não aqui no Brasil, que é muito difícil ser branquinha com tanto sol e miscigenação, mas olha bailarinas do hemisfério norte. Ih, não tá exatamente da cor? Mas tá uns dois tons abaixo. E se não é rosa, tem a meia-calça salmão, que fica ainda mais perto da cor da pele – da pele branca.

Entendo que as meias foram sempre assim, porque praticamente só houve bailarinas brancas. Praticamente não, a imensa maioria. Esmagadora. Então, num mundo com três, quatro bailarinas negras, uma produção de meias marrons não teria lógica.

Porém, continuar assim é, digamos, “silenciador”.

Há bailarinas negras – poucas, sim – e há estudantes negras. O ballet (as pessoas) vai continuar negando essa existência? Ao produzir apenas meias e sapatilhas que são da cor da pele de apenas um grupo de pessoas, ele (as pessoas) diz que os outros não são importantes.

Isso é notável não só no ballet, mas na sociedade em geral.

Ah, e o argumento “ah, mas bailarina e corpo de baile tem que ser uniforme!” é racista. Você pode usar e não perceber que é racista, mas, analisando, você está dizendo que bailarinas têm que ser todas iguais, e, por consequência, brancas. Claro, né, sempre foram brancas. E dizer que a meia-calça de cor da pele negra vai se destacar demais, você também está dizendo que a cor da pele dos braços e da cabeça vai se destacar demais. Né non? Vamos refletir.

Mas não só de segregação vivem as meias. Algumas marcas vendem meias tonalizadas. Eu já usei a da Só Dança e acho maravilhosa! O tom é lindo. Não é exatamente do tom da minha pele, então ainda tô com cara de quem tá usando meia (se isso é uma reclamação de quem é contra). São seis cores que a Só Dança produz: rosa, salmão, salmão claro, bege claro, bege escuro e caramelo (a minha). A Capezio daqui não contempla, tem rosa, bege e salmão. Já a Capezio gringa tem mais cores: rosa, rosa claro, NUDE (tô vendo esse termo aí, Capezio), “bronzeado”, “bronzeado” claro e caramelo (não tô incluindo cores como preto, branco e coloridas, porque estamos falando de cores de pele).

Eu sei que o Dance Theatre of Harlem usa meias tonalizadas e tem vários tons, mas não sei a marca que eles usam. Dá uma olhadinha na variedade:

Ainda não achei esse tom mais escuro pra comprar! E outra: uma vez, perguntei ao DTH se eles compravam as sapatilhas em tons marrons ou se os bailarinos pintavam TODAS elas. E, adivinha?, pintam TODAS ELAS. Ainda.

Ah, e tem este textinho bem legal (em inglês) sobre a experiência de uma mãe negra comprando meia tonalizada pra filha estudante do DTH =)

Achar sapatilhas tonalizadas é difícil. Só pra ter uma ideia, pesquisando o termo (em inglês) no Google, você só vê sapatilha pra gente branca! Miga, não dá pra defender.

Pois. Na Só Dança, as sapatilhas de meia-ponta são rosa, salmão e bege. O que é estranho, já que eles produzem meias de mais tons. Tipo “Oh, legaaal, tem meia da minha cor! Mas não tem sapatilha que combina então ela é inútil”. A Capezio gringa faz sapatilhas em rosa claro, “bronzeado” claro e NUDE (tô de olho). Já a Bloch passará a produzir sapatilhas em tons marrons, uhuuuuu! (brigada pelo link, Cássia!). Como ela mesma disse, “cabô pancake!”.

Que é bem isso, né?! Não tem da sua cor e você quer/precisa, você pinta. Com pó, pancake, tinta de tecido, base de make, combustível de foguete etc. Na minha antiga escola, o pessoal falava pra comprar sapatilha branca e pintar com uma misturinha de nugget branco e base. Mas eu nunca fiz não.

E eu nunca achei sapatilha de ponta tonalizada pra comprar.

Mas, aí, bem legal, você meia tonalizadinha, pintou a sapatilinha (por enquanto, é isso) chega seu prof e diz: não pode usar, tem que ser o uniforme, tem que ser igual às outras, você vai destacar demais.

E aí? Senta e shora?

Bom, é melhor que levantemos nossas vozes. Como diz aquele meme, “Vamos acordar que as mudanças não se fazem sozinhas”. E não se fazem mesmo! Nós, bailarinos negros, que devemos fazer a mudança. Vamos conversar com donos de academias e professores de ballet, vamos expor nossos argumentos, vamos tocar na ferida, vamos fazer nos enxergarem, vamos compartilhar a linda frase da Michaela: “Nunca tenha medo de ser uma papoula num campo de narcisos”. Então toca aqui quem tá comigo o/

Claro que a vida não é bonita e fácil assim, então a gente vai precisar ter força, porque a gente vai encontrar muita resistência. Mas, um dia, uma bailarina negra não irá se destacar no corpo de baile, porque haverá várias delas. De meia e sapatilha tonalizadas.

E nem um tico da história do ballet se perderá por isso.