Palavras de Maurice Béjart

Um dos meus livros de dança mais queridos é o Dançar a vida, de Roger Garaudy. Eu o citei no post “Os meus livros de cabeceira“, mas preciso falar com mais profundidade. Talvez um outro dia.

Hoje, relendo algumas passagens, me fixei nesta parte do prefácio escrito por Maurice Béjart. Para ler, reler e pensar a respeito.

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“A dança não é apenas um espetáculo, e o entusiasmo de um público novo e fervoroso não levará a parte alguma se uma profunda revolução não lhe devolver seu lugar no seio de uma sociedade que busca definição.

“Dançar é tão importante para uma criança quanto falar, contar ou aprender geografia. É essencial para a criança, que nasce dançando, não desaprender essa linguagem pela influência de uma educação repressiva e frustrante. É preciso que cada um de nós, ao sair de um espetáculo de dança que o tenha entusiasmado, se debruce sobre esse problema e o encare ao nível da existência e não apenas no do espetáculo, transpondo desse modo a satisfação interior para o plano da participação duradoura.

“O lugar da dança é nas casas, nas ruas, na vida.”

Maurice Béjart, trechos do prefácio de Dançar a vida, de Roger Garaudy.

Entre “Bolero” e “Carmen”

Bolero, de Maurice Béjart, foi criado em 1960; a música é “Bolero”, de Maurice Ravel. Carmen Suite, de Alberto Alonso, foi criado em 1967; a música é da ópera Carmen, de Georges Bizet, com adaptações de Rodion Shchedrin.

E por que eu reuni os dois ballets? Explico. A Debora Oliveira, leitora do blog, compartilhou comigo este vídeo de Carmen depois de ler o post que escrevi sobre o assunto. Dia desses, eu reassisti Bolero, do Béjart. Assim que cliquei no link do vídeo, associei os dois.

O foco da ação está no centro enquanto outros bailarinos dançam em volta. As cadeiras estão presentes em ambos os casos. Se prestarmos atenção, há praticamente a mesma palheta de cores: vermelho, bege, marrom, preto. Além disso, existe um desnível nos dois cenários: em um, o solista está em cima; no outro, embaixo. Isso dá um efeito incrível, que não existiria caso todos estivessem no mesmo plano.

Claro, há diferenças. Bolero tem apenas 15 minutos, se passa em uma cena e há um único solista. Carmen Suite tem um ato e 13 coreografias diferentes, com alguns outros bailarinos também em destaque.

Mesmo assim, o mais interessante é notar como os dois ballets partem da mesma premissa – foco no centro, círculo, desnível, outros dançando ao redor – e são completamente diferentes. Nisso reside a genialidade de um artista: pegar algo tão simples e transformar em uma grande obra.

Bolero, obra completa, Maya Plisetskaya

“Habanera”, Carmen Suite, Alicia Alonso

Qual é o meu preferido? Bolero. Dançaria mil vezes, sem enjoar. Mas confesso, sou apaixonada pela ópera Carmen, mas não entendo por que nenhum dos ballets me conquistou para valer até hoje.

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Para assistir à versão de Bolero com a Sylvie Guillem, aqui.
Para ler o post sobre Carmen, aqui.