Os meus livros de cabeceira

Há dois anos, eu prometi a indicação de uma lista de livros. Demorou, mas chegou.

Eu parto do seguinte princípio: na dúvida, não busque no Google, procure nos livros. São cinco livros que consulto sempre e um livro que releio volta e meia. Eles constituem a base do meu estudo. São exemplares que não empresto, não troco, não vendo e só saem da minha estante para as minhas mãos.

Montar uma biblioteca básica de dança é tarefa complicada. Alguns dos bons livros estão esgotados, ou são caros. É um trabalho de formiga, compra em sebos, pesquisa em livrarias, mas vale a pena.

É importante ressaltar: estes livros são importantes para mim e não constituem uma lista definitiva. Há outros livros excelentes e indicações são sempre bem-vindas. Vamos lá?

Princípios básicos do ballet clássico, Agrippina Vaganova

Publicado em 1934, ele reúne a base do método russo, também conhecido como Método Vaganova. O livro é dividido em 13 capítulos, começando com os conceitos básicos do ballet clássico, passando por todos os movimentos e passos, até chegar a exemplos de aula. Não há como conhecer o método russo em profundidade sem ler as palavras da própria Vaganova.

A edição em português está esgotada; em inglês, é possível comprar em lojas brasileiras. Eu tenho as duas, só para garantir. Há uma nova edição intitulada “Fundamentos da dança clássica”, mas não posso afirmar que é o mesmo livro, nunca o peguei em mãos. Em todo caso, quem tiver interesse, vale a pena pesquisar.

Curso de balé, Royal Academy of Dancing

Lançado em 1984, com prefácio da Margot Fonteyn, esse livro foi elaborado especialmente para o estudo em casa, como um complemento às aulas. Ele segue o método inglês, o Método Royal, e mostra vários movimentos do pré-primário ao quinto grau. Cada movimento é ilustrado passo a passo, com explicações detalhadas e alguns lembretes importantes. Ele é bem básico, mas é aquela história: se a base do ballet não é bem realizada, não espere grandes feitos nos passos mais difíceis.

A edição em português é fácil de ser encontrada.

Physics and the Art of Dance, Kenneth Laws

Escrito pelo físico Kenneth Laws, que começou a fazer ballet clássico aos 40 anos de idade, ele reúne física e ballet mostrando como o primeiro é um grande aliado do segundo. Muitos passos considerados difíceis de serem executados são vistos de outra maneira depois de lermos esse livro. Eu falo para quem quiser ouvir: eu só aprendi a fazer pirueta graças a ele. Ano passado, eu escrevi um post falando detalhadamente sobre o livro, aqui.

Não há edição em português, apenas em inglês.

Anatomia da dança, Jacqui Greene Haas

Perdi a conta do número de vezes em que falei desse livro. Preparadora física e ex-bailarina, a autora nos mostra como o conhecimento do próprio corpo melhora imensamente o nosso desempenho. O livro é repleto de exercícios para desenvolver nossa flexibilidade, resistência e tônus muscular. Ilustrado, explicativo, com dicas de segurança para ninguém se machucar, é um precioso material de estudo. Escrevi sobre ele em 2012, aqui.

É possível encontrar a edição em português em qualquer livraria.

Noverre − cartas sobre a dança, Marianna Monteiro

Jean-Georges Noverre foi bailarino, professor e coreógrafo, ele é responsável por uma das obras mais importantes sobre a dança: 15 cartas com reflexões sobre o ballet clássico. A primeira edição desse material data de 1760.

Marianna Monteiro, pesquisadora e professora brasileira, analisou essas cartas em sua dissertação de mestrado, defendida no departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. Além disso, para lançá-la em livro, ela traduziu essas cartas.

Sendo assim, vocês podem imaginar a importância dessa obra: uma leitura crítica e aprofundada dos escritos de Noverre e a tradução das suas considerações sobre o ballet clássico. É um livro obrigatório para quem deseja entender o ballet como arte cênica e o bailarino como artista. Muitas das críticas direcionadas ao ballet clássico hoje em dia foram feitas por Noverre há mais de 250 anos. Preciso dizer mais?

É uma edição facilmente encontrada em qualquer livraria.

Dançar a vida, Roger Garaudy

Quem me indicou esse livro pela primeira vez foi a Thaís, e o comprei em seguida. Quando ingressei na pós-graduação em dança, foram mais umas três ou quatro indicações vindas diretamente dos professores. Quer entender as mudanças da dança? É esse o livro. Roger Garaudy começa falando sobre o ballet clássico, passa pela dança moderna e chega à dança contemporânea. Não apenas conceitua essas mudanças ao longo do tempo, como as analisa. Eu o li umas três vezes e lerei outras tantas.

A edição em português está esgotada.

Onde comprar:

Todos esses livros foram comprados em apenas dois lugares: Estante Virtual e Livraria Cultura. A Estante Virtual é um site que agrega vários sebos, comprei em três diferentes e não tive problemas. No caso da Livraria Cultura, comprei apenas na loja virtual, mas é possível comprar diretamente nas lojas ou encomendar edições em inglês.

Agora é montar a própria biblioteca e estudar!

Anatomia da dança

Mês passado, fiz um post falando sobre a importância dos livros para o nosso estudo e disse que faria um outro com indicações de leitura. Mas antes, achei melhor fazer posts específicos de dois livros muito importantes. O primeiro deles é o Anatomia da dança, de Jacqui Greene Haas.

Fonte: Editora Manole

Falei brevemente sobre ele aqui. O livro é um “guia ilustrado para o desenvolvimento de flexibilidade, resistência e tônus muscular”. Como vocês sabem, não gosto de publicar exercícios, passos e afins, porque quando são feitos sem supervisão, há grandes chances de nos machucarmos. Mas esse livro é feito especialmente para esse tipo de estudo.

Dividido em nove capítulos, conhecemos sobre o nosso corpo em movimento e todas as “partes” que o compõem. Da coluna aos pés, descobrimos como nosso corpo funciona, especialmente na dança. Em cada capítulo, há exercícios para melhorar nosso desempenho. Tudo muito bem-explicado, com ilustrações que mostram os músculos e os ossos. Não só, há dicas de segurança, para ninguém se machucar fazendo por conta própria.

E se não bastasse, ele não é feito especialmente para bailarinos clássicos. Há também citações sobre jazz, dança irlandesa, dança de salão e explicações sobre necessidades específicas dessas danças. Sabe aquele livro obrigatório para todo bailarino que quer entender e conhecer melhor o próprio corpo?

Eu o conheci por acaso, quando o vi na mesa da minha então professora de ballet. Comprei e virou livro de cabeceira.

Ele foi desenvolvido por Jacqui Greene Haas, preparadora física do Cincinnati Ballet desde 1989 e diretora do Dance Medicine Academic Seminars. Ela é ex-bailarina profissional do Boston Ballet, Southern Ballet Theatre, Tampa Ballet, New Orleans Ballet e Cincinnati Ballet. E, além disso, é bacharel em dança pela University of South Florida. Ela é realmente uma especialista no assunto.

Para comprar
À primeira vista, ele parece caro, mas a qualidade da edição é excelente. O preço varia bastante entre um lugar e outro, por isso, é bom pesquisar.

E os livros nessa história?

Um dos pontos que mais me incomoda no ballet clássico é um certo desdém pelo estudo teórico. Dá-se um grande valor à oralidade, ou seja, os professores passarem seu conhecimento aos alunos. Mas os livros, coitados, não têm valor algum. Os “maestros” são os grandes detentores do saber.

Como eu vejo isso? Uma prova de que o ballet clássico parou no tempo.

Para que serve um professor: passar conhecimento ou mostrar caminhos? Para mim, é a segunda opção. Ninguém, por melhor que seja, sabe tudo. Nem Vaganova, nem Petipa, nem Nureyev, nem Pavlova sabiam. Cada qual tinha o seu quinhão de conhecimento e experiência. Isso os desmerece? De maneira alguma.

Mas no ballet, temos a ideia de que os professores sabem. Aliás, de que só eles sabem. Até eles acreditam nisso. Afinal, quantos de vocês passaram pela experiência de lerem livros indicados pelos seus professores? De discussões acerca da história do ballet clássico? De incentivo à pesquisa por sua conta e risco? Aposto que foram poucos.

Em sala de aula, como parte do estudo, eu nunca vi. Não vou negar, já tive aulas teóricas, mas a apostila custou mais caro do que qualquer livro que eu tenha comprado sobre o assunto. A minha estante de livros é dividida por temas. Há poucos livros de dança, apenas sete. Nenhum deles foi indicação de professor. Mas também entendo que isso faz parte da tal “cultura do ballet clássico” e essa ausência não é um motivo para desmerecer os professores.

Não acho que estudar a parte teórica e histórica da dança seja obrigação. Só acho que isso diferencia um bailarino de um reprodutor de passos. Querem um exemplo? O Marcelo Gomes. Na entrevista concedida ao Jô Soares (aqui) ele deu um banho de erudição. Ele conhece o seu ofício, ele sabe sobre dança. Ele não é um grande bailarino à toa.

E no caso de bailarinos amadores, como tantos de nós? O estudo teórico me ajuda a entender o que acontece em sala de aula. Eu recorro aos livros quando tenho grandes dúvidas. São eles que me situam na História. Quando eu faço aula, sei que o meu plié não é um simples plié. Ele surgiu há centenas de anos, em algum lugar, de alguma forma. Eu sou apenas consequência disso. Nenhuma bailarina,  em nenhum lugar do mundo está sozinha em sua barra fixa. Ela faz parte de um todo e só temos consciência disso quando estudamos para além das poucas horas práticas semanais.

Estou desmerecendo o professor? Não. Mas sei que cada professor tem o seu jeito. Ele é o resultado de sua experiência, de seu estudo, de seus anos de sapatilha. Para mim, aí reside a grande graça das aulas: quero aprender com ele, com esse conhecimento que foi construído até ali. Por isso é bacana ter aula com vários professores, porque a gente começa a entender como cada um deles funciona de uma maneira. A técnica clássica é a mesma para todos, mas a maneira como cada bailarino se apropria dessa técnica é absolutamente individual.

Sendo assim, cada um de nós constrói a sua própria história na dança. Isso parece óbvio, mas não é assim que somos instruídos. Mas acho absolutamente necessário que tenhamos consciência disso. Se não estudamos, esqueça. Seremos reprodutores de passos eternamente. Por isso, os livros de dança sempre terão um espaço primordial na minha vida. Não só, toda fonte de informação extraclasse que eu tiver, eu vou absorver. Não preciso que ninguém me incentive a fazer isso, porque essa lição eu já aprendi. Sozinha, mas aprendi.

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“E você não vai nos indicar livros, Cássia?” Vou sim. Farei um post apenas sobre isso, podem ficar tranquilos.