Entre o sonho e a dedicação

Geralmente, o primeiro texto do ano é um prenúncio dos caminhos do blog nos próximos meses. No começo do ano passado, eu escrevi sobre a alegria de dançar e assim levei as coisas: as publicações ficaram na superfície, nada de aprofundamento. Foi um “dançar na sala”, por assim dizer, um ano de diversão.

Neste ano, as coisas serão diferentes. Voltarei a questionar, a escrever sobre pontos importantes do ballet clássico, a enxergar o trabalho e a dedicação à dança como os pontos mais importantes de todo esse processo.

Fala-se muito no sonho de ser bailarina, mas nos esquecemos de um detalhe: para sonhar, não é preciso levantar da cama. É um eterno vir a ser. Além disso, a terra dos sonhos é um lugar aconchegante e acolhedor: não existem desilusões, dores, frustrações, repetição. Somos sempre a primeira-bailarina do Bolshoi e os aplausos são todos nossos. A realidade é bem diferente. Para a maioria, não existe papel principal, o palco raramente está presente, os aplausos são para todos, o movimento limpo e preciso acontece em dias de estado de graça. Nisso consiste ser bailarina amadora, a dedicação solitária em que ninguém nos vê.

Eu demorei quatro anos para fazer pirueta e sete anos para fazê-la de maneira limpa (Contei toda a história aqui e ensinei como fazê-la aqui). Até hoje, preciso pensar antes de girar, a pirueta não é um movimento que faz parte do meu corpo. Não adianta imaginar que as coisas cairão do céu, é preciso paciência e treino. Para algumas pessoas, muito treino.

Quem acompanha o blog há bastante tempo, talvez esteja dizendo: “Cássia, sabe quantas vezes você já disse isso?”. Muitas vezes, mas é preciso repetir. Sabe por quê? Ao longo desses quase oito anos escrevendo sobre ballet clássico, tenho notado que a impaciência e a preguiça estão cada vez mais presentes. Todas querem os resultados para ontem, e sem esforço. “Eu faço ballet há três meses e não danço nada? A minha perna alcança a minha cabeça, eu já sou bailarina.” Ballet é dedicação para a vida inteira, moça. Anote para não esquecer.

Uma pessoa pode nascer talentosa para a dança e habilidosa fisicamente, mas não existe uma única bailarina no mundo que assim se tornou sem estudo e dedicação. Pode vasculhar a história da dança nos últimos trezentos anos: não existe. Alguém acha que isso mudará?

Por outro lado, cada pessoa tem o seu caminho. Algumas conseguem resultados rápidos. Outras, nem ao longo de toda a vida. Algumas, depois de muito custo, sobem rapidamente, como é o caso da Léonore Baulac.

Léonore Baulac, sua nomeação para o posto de étoile, 31 de dezembro de 2016, Ópera de Paris. Foto: Svetlana Loboff/OnP.

Ela tentou entrar duas vezes na escola de dança da Ópera de Paris e foi reprovada. Finalmente, conseguiu aos 15 anos e ingressou nas turmas mais avançadas (não seria iniciante nessa idade). Ao se formar, entrou no corpo de baile da companhia. Durante anos, ficou lá na base. Nada de conseguir passar nos exames internos para subir na hierarquia, nem para o próximo posto do corpo de baile. Nada. Até que um dia conseguiu. Passou de novo. Mais uma vez. Depois de três anos, em 31 de dezembro de 2016, foi nomeada nada menos que étoile, ou seja, primeira-bailarina.

Talvez nem ela acredite como tudo aconteceu, mas aconteceu. Enquanto o momento não vinha, ela fez a parte dela e a vida se encarregou do restante. Sendo assim, vamos fazer a nossa parte? Talvez o nosso pote de ouro no fim do arco-íris não seja o posto mais alto de uma companhia, mas pode ser um movimento limpo, uma coreografia bem-feita, um maior conhecimento técnico, uma apresentação no palco. Tanto faz. Da minha parte, enquanto eu puder, as minhas sapatilhas e a minha barra fixa continuarão sendo as minhas companheiras de trabalho e estudo.

Bom 2017 para todas nós!