O pas de deux perdido

Hoje o blog terá um texto escrito por uma convidada especial, a querida amiga Juliana Mel, do Vídeos de Ballet Clássico. Preparadas para aprender?

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O pas de deux perdido
Juliana Mel

Há algum tempo, a Cássia me convidou para escrever uma matéria para o Dos passos da bailarina. Tive ideias para vários posts, mas não finalizei nenhuma! Eis que, semanas atrás, fiz uma descoberta incrível a respeito do repertório favorito dela, Giselle, e pensei: Por que não?

Tudo começou com o vídeo de uma variação postada nos stories do perfil Só Bailarinos no Instagram. Ele foi gravado durante o Universal Ballet Competition, que aconteceu em Miramar, na Flórida (EUA), e repostado no grupo Bailarinos da Ma, no WhatsApp.

Dia 1, Universal Ballet Competition, fev. 2019.

Ninguém naquele grupo sabia que variação era essa, inclusive eu. Mas, ao assistir, fiquei com aquela sensação de “já ouvi isso em algum lugar”… À primeira vista, pensei se tratar de alguma variação de La fille mal gardée, pois, além do figurino camponês, esse ballet sempre foi, desde o seu lançamento, uma verdadeira colcha de retalhos! A cada nova produção, uma partitura diferente. Veja como essa música lembra a da versão coreografada por Alicia Alonso.

“Variação de Lise”, La fille mal gardée, Ballet Nacional de Cuba, 2016, Anette Delgado.
O vídeo completo, aqui.

Depois, entrei no site do festival e pesquisei todas as variações femininas que costumam ser apresentadas. Da lista, as únicas que pareciam se encaixar no estilo da “coreografia misteriosa” seria alguma das variações do ballet Napoli, de August Bournonville. Verifiquei uma por uma, tanto na montagem antiga, dos anos 1980, como na versão mais recente, e nada!

Inconformada em não conseguir descobrir, repostei o vídeo nos stories do Instagram do meu blog e perguntei se alguém sabia. Quem atendeu ao chamado foi a professora Myrna Jamus, que volta e meia é mencionada pela Cássia aqui no blog.

Segundo a explicação dela, essa variação foi composta por Ludwig Minkus e fez parte de um pas de deux criado por Marius Petipa para o relançamento do ballet Giselle na Rússia, em 1884. A coreografia original, que não se sabe como é, era interpretada por Giselle e Albrecht no primeiro ato da peça, mas ficou pouco tempo em cartaz. Na década de 1950, Leonid Lavrovsky resgatou a música, há muito perdida, e criou uma nova coreografia em estilo clássico. Nos festivais, a variação feminina costuma ser atribuída a Giselle.

Variação feminina do pas de deux de Leonid Lavrovsky com música de Ludwig Minkus, Bolshoi Ballet School, Tóquio, 1986.
O vídeo completo do pas de deux, aqui.

O mais interessante é que a variação feminina do pas de deux camponês apresentada na versão do Kirov/Mariinsky nos dias de hoje tem música alternativa, com orquestração muito semelhante à variação de 1884.

“Variação feminina do pas de deux camponês”, Giselle, The Kirov Ballet, 1983, Olga Vtorushina.

E ainda, segundo a Myrna, a música de Minkus costuma ser utilizada como uma das infinitas variações de Paquita, com algumas modificações na coreografia de Lavrovsky. Particularmente, eu não me lembro de ter visto… Alguém aqui já?

Essa é só uma pequena amostra de como o universo do ballet é vasto. Eu, que estudo muito sobre os ballets de repertório, só agora aprendi sobre esse pas de deux que, algum dia, fez parte de Giselle. Quantas músicas e coreografias perdidas ainda iremos conhecer? Isso, só o tempo dirá.

Pela alegria de dançar

O ballet clássico é uma ode ao sofrimento. Horas e horas de aulas e ensaios. Dores pelo corpo todo. Pés machucados, com direito a unhas roxas prestes a cair. Lágrimas dia sim, outro também. Obsessão pelo movimento perfeito. Angústia desmedida por nunca atingir o apogeu. As tragédias gregas são mais tranquilas que a vida de uma bailarina.

É assim mesmo ou nós exageramos um pouco? Convenhamos, a menos que uma pessoa seja masoquista em um nível patológico, ninguém conseguiria viver assim. Mesmo para as bailarinas e os bailarinos profissionais, há um limite para o sofrimento. Ballet é difícil? Muito, como tantas outras coisas na vida.

Mas existe a alegria de dançar, a satisfação em ver o resultado de tanta dedicação, a plenitude de sentir-se finalmente uma bailarina. Por que isso não faz tanto sucesso? Porque o sofrimento é visto como sinônimo de luta: se sentimos dor, então nos dedicamos arduamente por alguma coisa.

A dor vale mais do que a alegria? Eu danço porque dançar me faz feliz. Há um punhado de tristezas? Sim, mas são poucas. O dia em que o ballet me fizer chorar encolhida na cama, eu procurarei outro amor na vida.

Por isso, em 2016, eu quero uma ode à alegria. É esse sorriso no rosto do Carlos Acosta e da Marianela Nuñez que desejarei a nós neste novo ano. E um pouco dessa doçura e delicadeza de La fille mal gardée não fará mal a ninguém.

Pas de ruban, La fille mal gardée, Royal Ballet. Carlos Acosta e Marianela Nuñez.