A importância das meias tonalizadas

A meia-calça rosa é um dos ícones do ballet clássico, só perde para a sapatilha, igualmente rosa. Na pele branca, elas mantêm as linhas do corpo, um dos pontos-chave do ballet.

Um momento: manter as linhas para quem? Como as bailarinas negras ficam nessa história? A Cyndi, querida amiga do blog O meu repertório, escreveu este longo texto sobre as implicações dessa dupla rosa no corpo e na arte dessas bailarinas.

Aproveitem essa aula.

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Meia-calça rosa…
Cyndi Oliveira, O meu repertório

Esse assunto tava me incomodando há muito tempo. Porque, de tanta coisa que o ballet não me acolhe (ballet não, as pessoas), meia-calça parece o mais simples de resolver.

Mas não é.

Eu não gosto de meia-calça rosa em mim. Não gosto. Ela deixa a linha do corpo dividida, fica numa cor estranha e não me é agradável de olhar. A meia rosa, depois de velha, fica mais puxada para o branco, o que aumenta mais o contraste entre a parte de cima e a de baixo. Dá pra perceber muito bem na Misty (a bailarina negra com mais destaque ultimamente). A meia rosa dá uma encurtada, fica dividida.

Misty Copeland e Jeffrey Cirio, Dom Quixote, American Ballet Theatre. Foto: Rosalie O’Connor. / Misty Copeland, O corsário, American Ballet Theatre. Foto: Rosalie O’Connor.

Meia tonalizada é um amor!

Nas bailarinas de pele mais escura, o contraste é ainda maior. Por exemplo, Michaela DePrince:

Michaela DePrince e Sam Wilson, “grand pas de deux do cisne negro” de O lago dos cisnes. Foto: Matthew Murphy. / Michaela DePrince, O quebra-nozes, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet.

Das pesquisas que fiz, entendi que a meia-calça foi inventada para facilitar os movimentos. Antigamente, lá nas origens e etc, as bailarinas usavam roupas muito pesadas, que gradativamente foram perdendo camadas e comprimento. Muito era usado para esconder o corpo mesmo (normal, né, costumes da época). Quem não conhece a peripécia de Marie Camargo? (muita gente, então tá aqui o link).

Meia-calça também é pra aquecer. E tenho cá pra mim que também é pra esconder os músculos da mulher. Pra permanecer com a aparência frágil e feminina.

Enfim. Das ilustrações que vejo, as meias-calças são brancas. Mas não dá pra saber direito quão fiéis à realidade são essas cores. Outra coisa: ballet é europeu, né, pessoas bem brancas. As mulheres (ricas, obviamente) se cuidavam para manter a pele muito branca. Nessa época, não se via bailarina de outra cor mesmo, então, acredito que a meia-calça era como na ilustração.

Nestes vídeos da Royal, numa série chamada “Ballet Evolved”, dá pra ver como eram os figurinos e roupas para aula. Também tem este aqui que amo. E este link que fala sobre a história da roupa de ballet (tá em inglês, mas dá pra jogar num tradutor maroto). E pra ver em vez de ler: roupas do século 18 e 19.

E hoje?

Aquecer? Sim. Esconder músculo? Não sei. Ser da cor da pele? Não. A menos que você seja branca.

Pessoas dirão: “Ah, mas meia-calça rosa não é da cor da pele de ninguém”. E eu direi: não aqui no Brasil, que é muito difícil ser branquinha com tanto sol e miscigenação, mas olha bailarinas do hemisfério norte. Ih, não tá exatamente da cor? Mas tá uns dois tons abaixo. E se não é rosa, tem a meia-calça salmão, que fica ainda mais perto da cor da pele – da pele branca.

Entendo que as meias foram sempre assim, porque praticamente só houve bailarinas brancas. Praticamente não, a imensa maioria. Esmagadora. Então, num mundo com três, quatro bailarinas negras, uma produção de meias marrons não teria lógica.

Porém, continuar assim é, digamos, “silenciador”.

Há bailarinas negras – poucas, sim – e há estudantes negras. O ballet (as pessoas) vai continuar negando essa existência? Ao produzir apenas meias e sapatilhas que são da cor da pele de apenas um grupo de pessoas, ele (as pessoas) diz que os outros não são importantes.

Isso é notável não só no ballet, mas na sociedade em geral.

Ah, e o argumento “ah, mas bailarina e corpo de baile tem que ser uniforme!” é racista. Você pode usar e não perceber que é racista, mas, analisando, você está dizendo que bailarinas têm que ser todas iguais, e, por consequência, brancas. Claro, né, sempre foram brancas. E dizer que a meia-calça de cor da pele negra vai se destacar demais, você também está dizendo que a cor da pele dos braços e da cabeça vai se destacar demais. Né non? Vamos refletir.

Mas não só de segregação vivem as meias. Algumas marcas vendem meias tonalizadas. Eu já usei a da Só Dança e acho maravilhosa! O tom é lindo. Não é exatamente do tom da minha pele, então ainda tô com cara de quem tá usando meia (se isso é uma reclamação de quem é contra). São seis cores que a Só Dança produz: rosa, salmão, salmão claro, bege claro, bege escuro e caramelo (a minha). A Capezio daqui não contempla, tem rosa, bege e salmão. Já a Capezio gringa tem mais cores: rosa, rosa claro, NUDE (tô vendo esse termo aí, Capezio), “bronzeado”, “bronzeado” claro e caramelo (não tô incluindo cores como preto, branco e coloridas, porque estamos falando de cores de pele).

Eu sei que o Dance Theatre of Harlem usa meias tonalizadas e tem vários tons, mas não sei a marca que eles usam. Dá uma olhadinha na variedade:

Ainda não achei esse tom mais escuro pra comprar! E outra: uma vez, perguntei ao DTH se eles compravam as sapatilhas em tons marrons ou se os bailarinos pintavam TODAS elas. E, adivinha?, pintam TODAS ELAS. Ainda.

Ah, e tem este textinho bem legal (em inglês) sobre a experiência de uma mãe negra comprando meia tonalizada pra filha estudante do DTH =)

Achar sapatilhas tonalizadas é difícil. Só pra ter uma ideia, pesquisando o termo (em inglês) no Google, você só vê sapatilha pra gente branca! Miga, não dá pra defender.

Pois. Na Só Dança, as sapatilhas de meia-ponta são rosa, salmão e bege. O que é estranho, já que eles produzem meias de mais tons. Tipo “Oh, legaaal, tem meia da minha cor! Mas não tem sapatilha que combina então ela é inútil”. A Capezio gringa faz sapatilhas em rosa claro, “bronzeado” claro e NUDE (tô de olho). Já a Bloch passará a produzir sapatilhas em tons marrons, uhuuuuu! (brigada pelo link, Cássia!). Como ela mesma disse, “cabô pancake!”.

Que é bem isso, né?! Não tem da sua cor e você quer/precisa, você pinta. Com pó, pancake, tinta de tecido, base de make, combustível de foguete etc. Na minha antiga escola, o pessoal falava pra comprar sapatilha branca e pintar com uma misturinha de nugget branco e base. Mas eu nunca fiz não.

E eu nunca achei sapatilha de ponta tonalizada pra comprar.

Mas, aí, bem legal, você meia tonalizadinha, pintou a sapatilinha (por enquanto, é isso) chega seu prof e diz: não pode usar, tem que ser o uniforme, tem que ser igual às outras, você vai destacar demais.

E aí? Senta e shora?

Bom, é melhor que levantemos nossas vozes. Como diz aquele meme, “Vamos acordar que as mudanças não se fazem sozinhas”. E não se fazem mesmo! Nós, bailarinos negros, que devemos fazer a mudança. Vamos conversar com donos de academias e professores de ballet, vamos expor nossos argumentos, vamos tocar na ferida, vamos fazer nos enxergarem, vamos compartilhar a linda frase da Michaela: “Nunca tenha medo de ser uma papoula num campo de narcisos”. Então toca aqui quem tá comigo o/

Claro que a vida não é bonita e fácil assim, então a gente vai precisar ter força, porque a gente vai encontrar muita resistência. Mas, um dia, uma bailarina negra não irá se destacar no corpo de baile, porque haverá várias delas. De meia e sapatilha tonalizadas.

E nem um tico da história do ballet se perderá por isso.

Uma aula de ballet em “O corsário”

Agora sim, posso dizer que o ballet clássico voltou aos meus dias. Preciso escrever textos, eu sei, mas tudo bem se hoje eu compartilhar dois vídeos?

As duas coreografias já apareceram no blog, a primeira dançada pela Jurgita Dronina, na época no Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet (hoje ela está no The National Ballet of Canada e também dança no English National Ballet) e a outra pela Nina Kaptsova, no Bolshoi Ballet. Hoje, as variações são dançadas em uma montagem do American Ballet Theatre, por duas de suas maiores bailarinas, hoje aposentadas da companhia: Julie Kent (diretora artística do The Washington Ballet) e Paloma Herrera (diretora artística do Balé Estável do Teatro Colón).

Não gosto de dois vídeos na sequência para não deixar a página “pesada”, mas compreendam, é um deleite assisti-los na sequência. Talento, domínio técnico, pernas mais baixas, presença de palco… Dá até um afago no peito, o ballet persiste.

Julie Kent, “Variação de Medora”, O corsário, American Ballet Theatre.
Para assistir com a Jurgita Dronina, aqui.

Paloma Herrera, “Variação de Gulnara”, O corsário, American Ballet Theatre.
Para assistir com a Nina Kaptsova, aqui.

O oitavo aniversário

Era começo de 2009, eu tinha 29 anos, um ano e meio de ballet, estudava na minha segunda escola e continuava me sentindo da mesma maneira: um peixe fora d’água. Sempre o sentimento de inadequação, a sensação de que eu não estava no meu lugar. Eu já mantinha blogs desde 2003, por que não criar um sobre ballet? Lembro de fazer uma lista de nomes e cortar um por um. No fim das contas, sobrou este: “Dos passos da bailarina”.

Chegou o primeiro aniversário, em 2010, e os anos foram passando: 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016… Oito anos escrevendo sobre ballet clássico, 857 posts, mais de dois milhões de visitas e um livro depois, cá estamos nós em 2017.

O retorno do meu trabalho teve momentos bem distintos. Nos primeiros anos, havia quem compartilhava comigo a própria história e havia quem me agredia. Os hoje tão conhecidos “haters” já existiam, mas aqui eles usavam tule e fitas de cetim. Foi por essa razão que a página e o grupo de discussão no Facebook foram apagados, porque algumas coisas eram bem pesadas e eu não sabia lidar com isso.

Depois do auge dos blogs e sua queda para dar lugar a outros meios, como as redes sociais e os canais no YouTube, isso acabou. Só recebo comentários bacanas, uma troca de histórias e informações, e as críticas são fundamentadas, ninguém me agride, xinga ou deprecia a minha história. Não acho que as coisas mudaram no mundo, porque o ódio está mais presente do que nunca, mas neste espaço as pessoas começaram a se desarmar. O motivo? Eu não sei, mas fico feliz que seja assim.

O foco dos textos e das publicações também mudou. Antes eu escrevia sobre o meu caminho no ballet clássico, hoje eu escrevo a minha visão sobre a dança clássica. Não uso mais o termo “bailarina adulta”, mas “bailarina amadora”, e não falo mais “ballet adulto”. Alguém já notou essa mudança? Qualquer dia eu conto o motivo. Além disso, publico muito mais informações sobre ballet e dança, talvez por ter aprendido os caminhos do estudo sobre esse assunto.

Reconheço, os tempos mudaram. Há trabalhos muito bons pela internet afora, vi vários deles surgirem e o “Dos passos da bailarina” se tornou aquela tia legal que as sobrinhas visitam de vez em quando para aprender um pouco mais. Por enquanto, não tenho vontade ou interesse de seguir esses novos rumos, nas redes sociais mantenho apenas meus perfis pessoais ‒ Twitter, Instagram, Facebook e Pinterest ‒ e só faço divulgação daquilo que gosto, sem ganhar nada por isso (seja brinde, pagamento ou algo semelhante). Não significa que é o melhor caminho, respeito imensamente quem trabalha de outra maneira, esse é apenas o meu jeito de preservar o que construí com tanto esmero.

Em resumo, o “Dos passos da bailarina” se tornou um casamento entre o ballet clássico, a palavra e o movimento. E enquanto houver bailarinas e bailarinos dançando por essas linhas, eu continuarei a escrever.

Obrigada pelos oitos anos, de coração.

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Vocês achavam que a comemoração terminaria sem dança? Escolhi a “Variação de Aurora” do segundo ato de A Bela Adormecida, da linda montagem do Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet. Como eu gosto dessa variação!

“Variação de Aurora”, segundo ato, A Bela Adormecida, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, Megan Zimny Kaftira.