Só tem no Instagram

Quando o blog nasceu, em fevereiro de 2009, o YouTube era uma criança de quatro anos. Os vídeos eram amadores: tinham qualidade sofrível, muitas vezes vindos de cópias de VHS, ou feitos com as câmeras da época. Além disso, eram rapidamente excluídos da plataforma por questões de direitos autorais, porque era incomum vídeos serem feitos especificamente para publicação na Internet.

Sendo assim, eu ainda estou revendo todos os posts do blog, desde o começo, e repondo muitos links. Hoje, as companhias de dança têm seus canais oficiais, suas contas em redes sociais, publicam trechos de espetáculos numa ótima qualidade e produzem conteúdo para esse fim. É outra história!

Mas, como vocês sabem, as coisas mudam de lugar. O YouTube perdeu espaço para o TikTok, o Instagram deixou as fotos de lado e abraçou os vídeos e, assim, boa parte do conteúdo acabou migrando para esses espaços.

Para mim, que gosto de vídeos no blog, porque é uma maneira de manter o conteúdo para pesquisa, a coisa complicou um pouco. Há sequências maravilhosas que valeriam bons posts, mas elas não estão disponíveis no YouTube, apenas no Instagram. Quero chorar de desgosto.

Mas chorar por quê? Porque é possível colocar os posts aqui, mas vocês terão de clicar nele e assistir lá no Instagram. Ou seja, esse trabalho tem de valer a pena.

Por isso, escolhi dois dos meus vídeos preferidos que só encontro lá. Sei de cor, de tantas vezes que vi.

O primeiro é um trecho de Mosaic, de Sidi Larbi Cherkaoui, para a Martha Graham Dance Company. A bailarina é a Anne Souder. A sequência, a fluidez dos movimentos, a beleza da cena, amo tudo.

O segundo é um vídeo do Grupo Corpo, feito especialmente para as redes sociais em comemoração dos 45 anos da companhia, do espetáculo Corpo, com coreografia de Rodrigo Pederneiras e música de Arnaldo Antunes. Eu fico hipnotizada toda vez que assisto, a música e a coreografia ficam na minha cabeça mesmo tempos depois de vê-lo.

Assistam aos dois e depois me contem.

Qual dança diz quem você é?

Eu estava há alguns anos sem fazer aulas de dança e queria voltar a estudar em um estúdio. Por que não tentar um outro caminho? Assim, comecei a fazer flamenco.

Em um sábado qualquer, eu era a única aluna presente. Enquanto eu esperava a professora chegar, fiquei parada na porta da sala ouvindo o que estava acontecendo na sala ao lado. A música entregava o mistério, era aula de ballet clássico.

Quando acabou, vi várias alunas adultas saindo de lá. Olhei para elas, collant, meia-calça rosa, sapatilhas, algumas um pouco mais alinhadas, outras levemente desarranjadas. Olhei para mim, saia longa ajustada ao corpo e rodada na barra, blusa de manga três quartos, sapato de salto quadrado. Flamenco é assim: você pode até tentar ser largada, mas não consegue, parece que estamos sempre lindas.

Nesse “olhar para elas” e “olhar para mim”, eu não me reconheci.

Não foi a primeira vez que esse não reconhecimento aconteceu. Anos antes, foi assim durante uma aula experimental de dança de rua e também aconteceu antes de uma apresentação de dança do ventre. Em ambos os casos, olhei no espelho e não me enxerguei ali. Mas dessa vez foi diferente, não sei por quê. Desde então, a ideia de uma dança que mostra quem somos ficou na minha cabeça.

Assim, pergunto a vocês: Qual dança diz quem você é?

Não pense em qualidade técnica, em anos de estudo, em dançar bem. Existe alguma dança que encontra a sua alma, que ao se olhar no espelho você sorri sem querer. Talvez você nunca a tenha dançado, mas algo lhe diz que seria um belo encontro.

Qual é a minha? Eu ainda não sei. Quem me conhece bem costuma me associar a danças de saias longas e rodadas, de flores nos cabelos, como nessa cena da minissérie Capitu. Aquele momento lá atrás em que me reconheci no ballet clássico não existe mais. Isso também acontece: o tempo passa, as coisas mudam e não somos mais a mesma pessoa. O que antes nos dizia tanta coisa perdeu o sentido. Alguém já passou por isso? O ballet e eu, por exemplo.

Talvez exista relação entre as características de cada dança e de cada pessoa. O ballet tem um ar onírico, delicado, um tanto pueril. O jazz é energia e ritmo, além de juvenil, não importa a idade de quem esteja dançando. O flamenco é belo, musical e imponente, toma conta de tudo. A dança contemporânea dialoga com o tempo e com a realidade na qual está inserida. O sapateado é a habilidade de um corpo que canta, os pés são um instrumento musical.

Existem outras tantas danças, mas escolhi essas cinco porque são algumas das mais comuns nos estúdios de dança do Brasil. Selecionei um vídeo para cada uma delas, todos com no máximo dois minutos, e a escolha foi proposital: são sempre pessoas dançando sozinhas. É mesmo o momento do “eu”, de olhar e se encontrar.

Quando eu descobrir a minha dança, eu volto para contar. Enquanto isso, divirtam-se, e me contem qual é a dança de vocês.

BALLET CLÁSSICO: “Variação de Swanilda”, primeiro ato, Coppélia, Pacific Northwest Ballet, Leta Biasucci

JAZZ: Who Are You / The Night Comes Again, Nicholas Palmquist

FLAMENCO: “Enternal monolouge”, Melina Najjar

DANÇA CONTEMPORÂNEA: Solo de Suíte Branca, Grupo Corpo, [não consegui descobrir quem é a bailarina]

SAPATEADO:Alexander Hamilton”, Hamilton, Bayley Graham

Coreografias que me deixam entre a agonia e a fascinação

Ano passado, contei que nos meus tempos de teatro eu participei de uma peça em que eu corria vendada em um armazém mal iluminado. Eu era guiada por uma outra atriz, mas mesmo assim senti um leve frio na espinha em todas as apresentações. Talvez por essa experiência, na dança, eu presto muita atenção na segurança das coreografias. Como assim? Presto atenção se as bailarinas e os bailarinos correm algum risco de se machucar ou de machucar alguém enquanto se apresentam.

O problema é a subjetividade da minha análise: como bati o braço correndo de olhos vendados em plena apresentação, sempre acho que a desgraça alheia vai acontecer. Isso não significa que os profissionais envolvidos nas obras não saibam o que estão fazendo, mas isso não diminui a minha agonia. Há coisas que eu vejo e minha respiração para por um segundo.

Assim, pensei em sequências de obras que me deram essa sensação. Acho todas incríveis, fico fascinada com essas passagens, mas meu coração acelera imediatamente.

Todos esses trechos são de dança contemporânea, mas prometo fazer também uma lista de ballet clássico. Sim, porque nem tudo é delicadeza no mundo do cetim!

A parede de Velox (1995), de Deborah Colker, Cia de Dança Deborah Colker

Em uma parede de escalada, bailarinos e bailarinas formam desenhos enquanto se movem entre as pedras que servem de apoio. A questão é: sem nenhum material de proteção. O resultado é fascinante, eu não pisco os olhos, mas é inevitável pensar que alguém vai escorregar, pisar em falso e cair.

Os tubos metálicos em Bach (1996), de Rodrigo Pederneiras, Grupo Corpo

Tubos presos no teto fazem alusão aos órgãos de Bach, na obra homônima do Grupo Corpo. Se não me engano, há quatro momentos em que os bailarinos usam esses tubos durante a coreografia: na abertura, em um duo, no momento em que bailarinas se seguram ao serem erguidas e tiradas de lá, e no final.

Eu sinto uma leve agonia em todos esses momentos, mas o ápice é justamente no final. Uma parte do elenco sobe nesses tubos enquanto uma outra parte dança no palco. A sensação é: a turma de cima cairá com tubos e tudo sobre a turma de baixo. Claro, nada disso acontece, todos descem, a coreografia continua, a obra termina, o resultado é incrível, mas a minha agonia segue firme.

A chuva de bolinhas verdes em Play (2017), de Alexander Ekman, Ópera de Paris

Enquanto vários bailarinos dançam no palco acontece uma chuva de bolinhas verdes. Todos saem correndo, fica apenas uma mulher com seu guarda-chuva. Quando o palco está completamente verde, eles voltam e dançam aleatoriamente, lembrando mesmo uma brincadeira de criança. A agonia começa aí. Depois, eles dançam em sincronia e eu só consigo pensar: “Quem será a primeira pessoa a pisar em falso em uma bolinha?”.

É tão bem-feito que eles dançam sem tirar os pés do chão, mas o pensamento persiste. De qualquer forma, visualmente, é lindo demais!

Os “vidros quebrados” em A Biblioteca de Babel (2019), de Ismael Ivo, Balé da Cidade de São Paulo

Em uma das primeiras sequências do espetáculo, os bailarinos e as bailarinas estão em sua “prateleira”, até que ouvimos o som de vidros se quebrando. Não só, vemos esses estilhaços caindo enquanto eles e elas vão saindo de seu espaço e tomando o palco, se arrastando sentados.

O nível da minha agonia: eu demorei uma meia hora para perceber que, claro!, aqueles pedaços sequer eram de acrílico, eram de plástico mesmo, tipo celofane. Ninguém em sã consciência dançaria tranquilamente com a real possibilidade de se machucar. Mas eu pensei nisso na hora? Não pensei, mérito da produção da obra. Eu realmente embarquei na ideia que quiseram passar.

E vocês, lembram de alguma passagem em que também sentiram agonia?