Qual dança diz quem você é?

Eu estava há alguns anos sem fazer aulas de dança e queria voltar a estudar em um estúdio. Por que não tentar um outro caminho? Assim, comecei a fazer flamenco.

Em um sábado qualquer, eu era a única aluna presente. Enquanto eu esperava a professora chegar, fiquei parada na porta da sala ouvindo o que estava acontecendo na sala ao lado. A música entregava o mistério, era aula de ballet clássico.

Quando acabou, vi várias alunas adultas saindo de lá. Olhei para elas, collant, meia-calça rosa, sapatilhas, algumas um pouco mais alinhadas, outras levemente desarranjadas. Olhei para mim, saia longa ajustada ao corpo e rodada na barra, blusa de manga três quartos, sapato de salto quadrado. Flamenco é assim: você pode até tentar ser largada, mas não consegue, parece que estamos sempre lindas.

Nesse “olhar para elas” e “olhar para mim”, eu não me reconheci.

Não foi a primeira vez que esse não reconhecimento aconteceu. Anos antes, foi assim durante uma aula experimental de dança de rua e também aconteceu antes de uma apresentação de dança do ventre. Em ambos os casos, olhei no espelho e não me enxerguei ali. Mas dessa vez foi diferente, não sei por quê. Desde então, a ideia de uma dança que mostra quem somos ficou na minha cabeça.

Assim, pergunto a vocês: Qual dança diz quem você é?

Não pense em qualidade técnica, em anos de estudo, em dançar bem. Existe alguma dança que encontra a sua alma, que ao se olhar no espelho você sorri sem querer. Talvez você nunca a tenha dançado, mas algo lhe diz que seria um belo encontro.

Qual é a minha? Eu ainda não sei. Quem me conhece bem costuma me associar a danças de saias longas e rodadas, de flores nos cabelos, como nessa cena da minissérie Capitu. Aquele momento lá atrás em que me reconheci no ballet clássico não existe mais. Isso também acontece: o tempo passa, as coisas mudam e não somos mais a mesma pessoa. O que antes nos dizia tanta coisa perdeu o sentido. Alguém já passou por isso? O ballet e eu, por exemplo.

Talvez exista relação entre as características de cada dança e de cada pessoa. O ballet tem um ar onírico, delicado, um tanto pueril. O jazz é energia e ritmo, além de juvenil, não importa a idade de quem esteja dançando. O flamenco é belo, musical e imponente, toma conta de tudo. A dança contemporânea dialoga com o tempo e com a realidade na qual está inserida. O sapateado é a habilidade de um corpo que canta, os pés são um instrumento musical.

Existem outras tantas danças, mas escolhi essas cinco porque são algumas das mais comuns nos estúdios de dança do Brasil. Selecionei um vídeo para cada uma delas, todos com no máximo dois minutos, e a escolha foi proposital: são sempre pessoas dançando sozinhas. É mesmo o momento do “eu”, de olhar e se encontrar.

Quando eu descobrir a minha dança, eu volto para contar. Enquanto isso, divirtam-se, e me contem qual é a dança de vocês.

BALLET CLÁSSICO: “Variação de Swanilda”, primeiro ato, Coppélia, Pacific Northwest Ballet, Leta Biasucci

JAZZ: Who Are You / The Night Comes Again, Nicholas Palmquist

FLAMENCO: “Enternal monolouge”, Melina Najjar

DANÇA CONTEMPORÂNEA: Solo de Suíte Branca, Grupo Corpo, [não consegui descobrir quem é a bailarina]

SAPATEADO:Alexander Hamilton”, Hamilton, Bayley Graham

Coreografias que me deixam entre a agonia e a fascinação

Ano passado, contei que nos meus tempos de teatro eu participei de uma peça em que eu corria vendada em um armazém mal iluminado. Eu era guiada por uma outra atriz, mas mesmo assim senti um leve frio na espinha em todas as apresentações. Talvez por essa experiência, na dança, eu presto muita atenção na segurança das coreografias. Como assim? Presto atenção se as bailarinas e os bailarinos correm algum risco de se machucar ou de machucar alguém enquanto se apresentam.

O problema é a subjetividade da minha análise: como bati o braço correndo de olhos vendados em plena apresentação, sempre acho que a desgraça alheia vai acontecer. Isso não significa que os profissionais envolvidos nas obras não saibam o que estão fazendo, mas isso não diminui a minha agonia. Há coisas que eu vejo e minha respiração para por um segundo.

Assim, pensei em sequências de obras que me deram essa sensação. Acho todas incríveis, fico fascinada com essas passagens, mas meu coração acelera imediatamente.

Todos esses trechos são de dança contemporânea, mas prometo fazer também uma lista de ballet clássico. Sim, porque nem tudo é delicadeza no mundo do cetim!

A parede de Velox (1995), de Deborah Colker, Cia de Dança Deborah Colker

Em uma parede de escalada, bailarinos e bailarinas formam desenhos enquanto se movem entre as pedras que servem de apoio. A questão é: sem nenhum material de proteção. O resultado é fascinante, eu não pisco os olhos, mas é inevitável pensar que alguém vai escorregar, pisar em falso e cair.

Os tubos metálicos em Bach (1996), de Rodrigo Pederneiras, Grupo Corpo

Tubos presos no teto fazem alusão aos órgãos de Bach, na obra homônima do Grupo Corpo. Se não me engano, há quatro momentos em que os bailarinos usam esses tubos durante a coreografia: na abertura, em um duo, no momento em que bailarinas se seguram ao serem erguidas e tiradas de lá, e no final.

Eu sinto uma leve agonia em todos esses momentos, mas o ápice é justamente no final. Uma parte do elenco sobe nesses tubos enquanto uma outra parte dança no palco. A sensação é: a turma de cima cairá com tubos e tudo sobre a turma de baixo. Claro, nada disso acontece, todos descem, a coreografia continua, a obra termina, o resultado é incrível, mas a minha agonia segue firme.

A chuva de bolinhas verdes em Play (2017), de Alexander Ekman, Ópera de Paris

Enquanto vários bailarinos dançam no palco acontece uma chuva de bolinhas verdes. Todos saem correndo, fica apenas uma mulher com seu guarda-chuva. Quando o palco está completamente verde, eles voltam e dançam aleatoriamente, lembrando mesmo uma brincadeira de criança. A agonia começa aí. Depois, eles dançam em sincronia e eu só consigo pensar: “Quem será a primeira pessoa a pisar em falso em uma bolinha?”.

É tão bem-feito que eles dançam sem tirar os pés do chão, mas o pensamento persiste. De qualquer forma, visualmente, é lindo demais!

Os “vidros quebrados” em A Biblioteca de Babel (2019), de Ismael Ivo, Balé da Cidade de São Paulo

Em uma das primeiras sequências do espetáculo, os bailarinos e as bailarinas estão em sua “prateleira”, até que ouvimos o som de vidros se quebrando. Não só, vemos esses estilhaços caindo enquanto eles e elas vão saindo de seu espaço e tomando o palco, se arrastando sentados.

O nível da minha agonia: eu demorei uma meia hora para perceber que, claro!, aqueles pedaços sequer eram de acrílico, eram de plástico mesmo, tipo celofane. Ninguém em sã consciência dançaria tranquilamente com a real possibilidade de se machucar. Mas eu pensei nisso na hora? Não pensei, mérito da produção da obra. Eu realmente embarquei na ideia que quiseram passar.

E vocês, lembram de alguma passagem em que também sentiram agonia?

Os meus outros amores

Não é segredo para ninguém que, em maior ou menor grau, somos apaixonadas pela dança. Ela toma conta dos nossos dias, dos nossos pensamentos, do nosso corpo e não conseguimos mais largá-la. Às vezes, a relação fica estremecida, mas não termina.

Mas alguém vive apenas de dança? Não é uma pergunte retórica, é um questionamento sincero. O mundo é vasto, não é raro termos outras paixões na vida.

Confesso, eu tenho outros dois amores. Dança, me perdoe, mas você não é a soberana do meu coração.

OS LIVROS

Não me lembro de um período da minha vida em que os livros não estivessem presentes de alguma maneira. Assim que aprendi a ler, as palavras tomaram conta dos meus dias.

Lá pelos meus onze anos, eu assisti na escola ao filme Sociedade dos poetas mortos. A poesia mudando a vida daqueles garotos e a minha, eu tão pequena sendo tomada por aquele amor. Comecei a escrever poemas e textos curtos pouco tempo depois. Ganhava livros de presente, cabulei aula para ler, adorava a biblioteca da faculdade, me tornei uma profissional dos livros, lancei três, participei de um clube de leitura por anos, faço um podcast sobre escrita com uma grande amiga escritora. Há livros ao lado da cama, na minha mesa, na estante. Tenho dois leitores de livros digitais. Amo livrarias. Adoro conversar sobre o que estou lendo, adoro saber o que as outras pessoas estão lendo. Sempre sorrio ao ver alguém com um livro em mãos. Desdenhe dos livros e nunca mais eu te olharei da mesma maneira. Se alguém fala mal da literatura, eu levo para o lado pessoal. Parece exagero, mas não é.

A minha relação com os livros é tão próxima que sequer posso compará-la com a dança. Os livros são quem eu sou, a dança é a minha companheira nos dias de alegria.

Trailer de Jane Eyre, do American Ballet Theatre, inspirado no livro homônimo de Charlotte Brontë.

O FUTEBOL

Eu jogava futebol na escola, mas era apenas no intervalo, porque meninas não jogavam futebol nas aulas de educação física. Para a minha desolação, eu era obrigada a jogar outras modalidades. Inventei uma dor de barriga em um jogo do campeonato de vôlei entre turmas porque tinha pavor de jogar (desculpe, time, mas seria bem pior comigo na quadra). No fim das contas, a agonia durou apenas o primeiro ano do ginásio, fui diagnosticada com um problema no meu joelho esquerdo e passei a ser liberada das aulas. Sabe como o problema deu uma trégua? Adulta, graças às aulas de ballet.

Eu sou corinthiana e passei anos da minha vida querendo ir ao estádio, mas nunca tive companhia. Porque era perigoso, porque não queriam me levar, porque torciam para outro time, porque isso e aquilo, enfim. O meu amor pelo futebol acontecia apenas assistindo aos jogos na sala de casa. Até que aconteceu a Copa do Mundo no Brasil. Não, eu não fui a um jogo sequer, mas emendava um jogo atrás do outro assistindo pela televisão. Dali em diante, passei a acompanhar futebol todos os dias. Sim, eu sou daquelas pessoas que assistem a mesas redondas, em que discutem por uma hora se foi pênalti ou não. Esquema tático, escanteio, tiro de meta, impedimento soam tão naturais para mim quanto plié, diagonal, corpo de baile e pas de bourré. Acompanho todos os jogos do meu time, em todo os campeonatos que ele participa. Também acompanho o time feminino e a seleção brasileira feminina.

Três anos depois, finalmente eu fui ao estádio. Sozinha. Passada a barreira do medo, fui outras vezes, sempre sozinha. Aprendi os cantos da torcida e me sinto em casa. Quando perguntam “Como é usar sapatilha de ponta?”, não conseguimos explicar porque só quem usou sabe como é. Com o futebol é a mesma coisa. Se você não torce por um clube de todo coração, nunca vai entender a emoção de um gol, a tristeza ao perder um jogo, o sentimento de ser campeão. Neste mosaico, eu estou lá na primeira perninha de baixo do H, chorando porque eu estava no estádio vendo meu time campeão brasileiro de 2017. É um momento que levarei para o resto da vida.

Trecho de “Big Bang”, da obra Onqotô, do Grupo Corpo. A coreografia faz alusão ao Fla-Flu (Flamengo e Fluminense), um dos maiores clássicos do futebol brasileiro.

E quais são os outros amores de vocês?