Um cisne negro reconstruído

Em fevereiro de 2016, eu publiquei a respeito da reconstrução de O lago dos cisnes realizada pelo coreógrafo Alexey Ratmansky. O que é uma reconstrução? Uma remontagem o mais próxima possível da obra original.

Há tempos quero assistir à montagem completa, mas por enquanto vou me contentar com um grand pas de deux, o do cisne negro.

Por favor, separem doze minutos do seu tempo para assistir ao vídeo completo. Prestem atenção nos detalhes: os giros, a altura da perna (até eu, a defensora-mor da perna baixa, estranhei!), a coda (a dificuldade não está apenas nos fouettés), algumas sequências que continuam semelhantes até hoje. É lindo e emocionante de ver.

E não estranhem o figurino verde: na montagem original, Odile não era um cisne negro, era uma feiticeira. Confesso, achei muito mais bonito.

“Grand pas de deux do cisne negro”, O lago dos cisnes, Viktorina Kapitonova e Denis Vieira, Zurich Ballet.

A Esmeralda original

De quem é a coreografia original de Esmeralda? Jules Perrot. A primeira apresentação foi em 1844, em Londres, com Carlotta Grisi no papel principal. Desde então, esse ballet foi revisto, recortado e remexido. Não apenas ele; geralmente, os repertórios são verdadeiros Frankensteins e guardam muito pouco da sua criação original.

Vocês imaginavam que o grand pas de deux de Esmeralda era assim?

“The romantic era”, 1980, 90min. Grand pas de deux, Esmeralda, de Jules Perrot. Bailarinos: Eva Evdokimova e Peter Schaufuss. Reconstrução e coreografia: John Gilpin.

O pote de ouro no fim do arco-íris

Não é segredo para ninguém que a minha bailarina preferida é a Aurélie Dupont, étoile da Ópera de Paris. Escrevi um post em 2011 contando os meus motivos, vocês podem ler aqui. Ela é a minha inspiração.

Porém, há outras duas bailarinas que estão além da inspiração na minha vida: Carla Fracci e Margot Fonteyn. Elas são o meu norte, os meus modelos, os meus exemplos na dança, o meu pote de ouro no fim do arco-íris. Se eu pudesse escolher qualquer coisa na dança, seria dançar igual a elas. Exagero, eu sei, mas eu realmente queria. Porque elas representam o ballet clássico que eu acredito.

À esquerda, Carla Fracci como Tatiana, em Onegin. Ao lado, Margot Fonteyn como Aurora, em A Bela Adormecida.

Quando eu digo que não me importo com hiperflexibilidade, não gosto de perna na orelha, tampouco de virtuosismo técnico, não é desdém com o ballet clássico realizado hoje em dia. Não é despeito de bailarina amadora frustrada. Simplesmente, nada disso me chama atenção, nem como espectadora, tampouco como bailarina. Não é isso o que eu quero assistir, muito menos como quero dançar.

Há uns meses, a revista Pointe publicou um excelente texto, cuja chamada no Twitter era “What makes a ballet dancer a ballerina?” As tradutoras-bailarinas que leem o blog concordarão comigo que existe aí uma sutileza impossível de traduzir para o português, mas seria algo do tipo “O que faz uma dançarina de ballet uma bailarina?”. Esse ballerina não se refere simplesmente à bailarina profissional, é uma alusão ao título prima ballerina; é para identificar quem mereceria ser ballerina, àquela que possui algo que a diferencia das demais. Eu vejo essa denominação como “a grande artista”. Essa questão é bem desenvolvida no texto; vocês podem lê-lo, em inglês, aqui.

Este é o meu grande desejo não realizado na vida: ser uma ballerina. Carla Fracci e Margot Fonteyn foram e meus olhos brilham quando as vejo dançar. É quando me reconheço e entendo por que o ballet clássico é tão importante na minha vida. Confesso, foi duro reconhecer essa frustração, mas aprendi a conviver com ela.

Nunca chegarei nesse patamar, mas eu tento. Quando estou na barra fixa, quando giro no centro, quando ouço repertórios, elas são o meu espelho. Porque elas existiram, eu me recuso a desistir.

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Para vê-las dançar:

Carla Fracci e Erik Bruhn, grand pas de deux do segundo ato, Giselle, aqui.
Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, pas de deux do quarto ato, O lago dos cisnes, aqui.