Os cinco repertórios obrigatórios

O espetáculo está prestes a começar. Enquanto isso, duas bailarinas conversam na coxia:
– Há um repertório pelo qual sou apaixonada, uma das cenas mais incríveis é quando Giselle…
– Giselle?

Essa cena realmente aconteceu. Sim, uma das bailarinas não sabia quem é Giselle. Não, ela não era profissional, era uma estudante de ballet, mas eu me pergunto: não deveria uma estudante conhecer minimamente o básico dos ballets de repertório?

Nesses anos de blog, reconheço o quanto insisto que bailarinas devem estudar. Isso é tão claro para mim que me admira quem diz o contrário. O ballet clássico não existe em si, há um propósito: dançar. Esse dançar vai além dos movimentos, ele carrega consigo toda uma bagagem técnica, histórica e artística. Não parece óbvio? Para as profissionais, sempre foi, para as amadoras, nem tanto. Tenho visto que ele se transformou em uma prática física com um pouco mais de glamour. É bonito posar de bailarina, quem não se sente linda?, mas ser bailarina é outra história.

Não serei a patrulheira, o ballet clássico não me pertence, cada qual faça dele o que quiser. Mas quem deseja ir além, vamos aos repertórios.

Há bastante tempo, expliquei o significado de repertório. Uma de suas acepções, de acordo com Vera Aragão, no curso Composição Coreográfica para Ballet, é:

“Em relação à dança, repertório é o conjunto de obras que, reunidas a partir de determinados critérios, continuam a ser encenadas, remontadas por diversas companhias ao redor do mundo e, mesmo décadas ou séculos após a morte de seus autores, continuam a gerar interesse do público que as assistem. Essas obras formam o acervo de uma companhia. Assim, repertório está ligado à permanência e à universalidade.”

Para mim, há cinco repertórios obrigatórios para quem estuda ballet clássico. Claro, é importante conhecer o maior número possível deles, mas esses devem fazer parte de nós como grandes amigos: conhecer a história, ter familiaridade com as músicas das passagens mais importantes, saber alguns passos das principais coreografias, reconhecer as personagens ao ouvir seu nome. Não precisa ser especialista, tampouco assistir a dezenas de montagens, mas compreender que os repertórios são tão importantes para o ballet quanto a técnica clássica.

Falarei brevemente os motivos pelos quais escolhi esses cinco e vou inserir links do Vídeos de Ballet Clássico, da querida Julimel. No seu blog, ela explica os repertórios, conta várias particularidades, além de publicar montagens de diversas companhias. Agora, não tem desculpa.

O lago dos cisnes

O repertório por excelência, O lago dos cisnes é sinônimo de ballet clássico: dificilmente alguma companhia não o montou pelo menos uma vez. Odette (cisne branco), Odile (cisne negro), Rothbart e Siegfried são as personagens principais, além da importância do conjunto de cisnes. Os primeiros acordes do prólogo nos fazem suspirar. É importante conhecer as sequências do entrance de Odette e Odile e suas respectivas variações, o pas d’action e a coda do segundo ato, o pas de quatre dos pequenos cisnes, o grand pas de deux do terceiro ato e outras tantas sequências. Quem sabe, escolher um cisne preferido, se identificar com um deles e chorar no final (não importa qual, pois eles diferem em algumas montagens). E, depois disso tudo, nunca mais olhar um cisne com os mesmos olhos.

Todos os posts do blog sobre O lago dos cisnes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Giselle

Auge do período romântico, um marco na história da dança, esse repertório foi responsável por elevar bailarinas ao status de estrela. Várias delas têm nessa camponesa o seu grande papel. Giselle, Albrecht, Hilarion e Myrtha são personagens que devemos conhecer muito bem; sem falar nas variações de Giselle, do primeiro e do segundo ato, o “Peasant Pas de Deux”, a morte de Hilarion, o pas de deux do segundo ato, as wilis e seus arabesques alinhados e na mesma respiração, e o momento mais emocionante, o enfrentamento entre Giselle e Myrtha para proteger Albrecht. Por fim, o tutu romântico tem em Giselle sua perfeita definição.

Todos os posts do blog sobre Giselle, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

A Bela Adormecida

Outro marco na história da dança, é o ponto máximo dos repertórios. Reza a lenda que Marius Petipa desenvolveu a coreografia quase ao mesmo tempo da criação musical de Tchaikovsky, foram feitas em conjunto, por isso tamanha sincronia. As mudanças coreográficas aconteceram em todos os repertórios ao longo do tempo, mas talvez  e isso é pura percepção  A Bela Adormecida tenha sido o repertório que sofreu menos modificações.

O conto de fadas veio da infância, mas só no ballet nós temos a alegria do entrance de Aurora, a beleza do “Adágio da rosa”, as fadas do nosso imaginário dançando juntas e sozinhas em suas variações, o grand pas de deux do terceiro ato que beira a perfeição, os coadjuvantes encantadores do “Grand pas de deux do Pássaro Azul”. É o ballet clássico em toda sua magnitude.

Todos os posts do blog sobre A Bela Adormecida, aqui.
Para conhecer a história e assistir a várias montagens, aqui.

O Quebra-Nozes

Não existe Natal para bailarinas e bailarinos sem ele. Montado em companhias ao redor do mundo durante as festividades de fim de ano, inclusive no Brasil, várias músicas são mais próximas de nós do que “Jingle Bells”. Os primeiros acordes da “Variação da Fada Açucarada” despertam nossa memória afetiva. A “Valsa das Flores” é praticamente o batismo de toda bailarina novata; assim como eu, aposto que várias de vocês também a dançaram. É o lado doce e encantador da infância traduzido pelo ballet clássico. A Clara somos nós quando crianças.

Todos os posts do blog sobre O Quebra-Nozes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Dom Quixote

Ele não é sinônimo de ballet clássico. Ele não é um marco na história da dança. Ele não é o ponto máximo dos repertórios. Ele não é a personificação do Natal. Por que então conhecer Dom Quixote? Inspirado na obra de Miguel de Cervantes, é um dos ballets mais montados no mundo. Não falo apenas de companhias de dança, mas em escolas também. Quem nunca assistiu ao grand pas de deux do casamento? Quem não conhece a “Variação de Kitri”, em várias versões, ou o seu desafio? Sem falar na delicadeza da cena do sonho ou da “Variação do Cupido”. Longe daquela melancolia tão característica de O lago dos cisnes e Giselle, os dois repertórios mais conhecidos, Dom Quixote tem a alegria em sua essência.

Todos os posts do blog sobre Dom Quixote, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Passada a fase obrigatória, quem quiser conhecer mais repertórios: A filha do faraó, Coppélia, Esmeralda, La bayadère, La fille mal gardèe, La sylphide, O corsário, Paquita, Raymonda. Esqueci de algum repertório importante?

Se alguém discordar da minha lista, sinta-se à vontade para refazê-la e expor os seus motivos. É sempre bom trocar informações e opiniões.

***

Observação: Bom seria eu inserir links em todas as menções dos repertórios, tanto das músicas quanto das coreografias, mas a coisa mais normal no YouTube é retirarem vídeos do ar. Várias vezes eu repus links em posts anteriores, mas não consigo atualizar como deveria. Sabendo disso, resolvi não inseri-los neste texto porque são vários, mas todas as menções são bem fáceis de serem encontradas em uma busca rápida pela internet afora.

Cinco textos para quem quer estudar e questionar

Para compensar tanto tempo sem postagens, eu selecionei vários links que mantenho no meu arquivo. Os textos estão em inglês ou francês, mas quem não lê nesses idiomas não precisa se preocupar, basta acessar um tradutor online. Selecionei dois para facilitar: Google Tradutor e Bing Tradutor. Os textos não terão a mesma fluência, mas é uma maneira de estudar e se informar.

Vamos lá!

What Happened to Our Ballets?
Nas primeiras apresentações de O lago dos cisnes, Odile era uma feiticeira; Enrico Cechetti foi o primeiro a dançar o papel de “O pássaro azul”, em A Bela Adormecida. Várias curiosidades sobre os primórdios de alguns ballets de repertório.
Para ler o texto completo, aqui.

Defining “Ballerina”
Para divulgar esse texto, a revista Pointe escreveu no Twitter, “What makes a ballet dancer a ballerina?”, algo como “O que faz uma dançarina de ballet ser uma bailarina?”. Em suma, seria um “O que faz uma bailarina ser uma artista?”. Infelizmente, não conseguimos em português o mesmo significado da frase com tamanha sutileza, mas o texto continua sendo muito importante. Afinal, o que define uma artista na dança? O que significa ter aquele “brilho” no palco que ninguém consegue definir o que é?
Para ler o texto completo, aqui.

10 of the best dance films
Em seu site, o Royal Ballet publicou uma lista com os dez melhores filmes de dança, segundo a companhia, com direito a trechos de todos eles. É muito bacana!
Para ver a lista completa, aqui.

Beyond Perfect: A Manifesto
Sarah Kay, bailarina do Semperoper Dresden Ballett e protagonista da minissérie Flesh and Bone, escreveu esse texto sobre os problemas que ela enfrentou no ballet por ter um corpo “fora do padrão” e questiona a exigência de um “corpo perfeito”. Não nos esqueçamos, para ser “fora do padrão” no ballet basta ter seios grandes ou ser levemente curvilínea. É um texto bastante relevante sobre essa questão.
Para ler o texto completo, aqui.

Les grandes interprètes de Giselle à travers les âges
O Danses avec la plume elaborou uma lista das bailarinas que foram as grandes intérpretes do papel de Giselle. Para quem ama tanto esse repertório, é um presente. A minha Giselle preferida, a Carla Fracci, consta na lista.
Para ler o texto completo, aqui.

BÔNUS

Livros esquecidos
O Forgotten Books publica livros antigos, tanto de ficção quanto de não ficção, e é possível ler online, baixar ou comprar impresso. São quase 300 mil títulos! Eu selecionei, adivinhem?, os livros de dança.
Para acessar o link, aqui.

Há bastante informação interessante nessa lista, divirtam-se!