Dentro do possível

Fazer aulas de ballet clássico e dançar ballet clássico nem sempre andam de mãos dadas. Há pessoas que fazem aulas, mas não querem estar no palco, o que é absolutamente legítimo. Já outras querem dançar, o que é igualmente legítimo.

No segundo caso, o grande problema é que as nossas expectativas estão muito além da nossa realidade como bailarina. Assistimos a tantos ballets que sonhamos com a Variação da Fada Lilás, Variação de Odile, Variação da Fada Açucarada. E quando finalmente tentamos dançá-las, sentimos que além de termos dois pés esquerdos, nunca fizemos uma única aula de ballet clássico na vida. É frustrante e desanimador.

Em primeiro lugar, vamos encarar a realidade. Peguemos a carga horária de aulas. Supondo que uma bailarina profissional tenha seis horas diárias de treino, seis dias por semana, descontando as apresentações, chegamos a 36 horas semanais entre aulas e ensaios. Por mês, ela faz 144 horas de ballet clássico.

Agora, vamos analisar uma bailarina amadora. Supondo que ela faça duas aulas na semana, de 1h30 cada, chegamos a três horas semanais de treino. Não contarei os ensaios dos espetáculos, tudo bem? Por mês, ela faz 12 horas de ballet clássico.

Ou seja, em média, as bailarinas profissionais treinam, por mês, 12 vezes mais do que as bailarinas amadoras. Sério mesmo que vocês querem comparar umas às outras? Por mais que as bailarinas profissionais tenham tipo físico adequado, talento e facilidade para a dança, elas treinam muito! Mas muito mesmo! Comparar chega a ser covardia.

Ainda assim queremos dançar. E agora, qual é a solução? Desistir? Abandonar as outras áreas da vida e treinar loucamente o dia todo? Não. Sejamos inteligentes. Vamos escolher coreografias possíveis de serem dançadas.

Sim, sei como os estúdios de dança funcionam: dançamos coreografias que nem sempre gostamos e usamos figurinos que nem sempre queremos. Mesmo assim, podemos aprender a selecionar coreografias e analisar quais conseguimos dançar minimamente bem.

Como exemplo, selecionei o adágio do primeiro ato de Raymonda, Teatro alla Scala, reconstrução¹ do ballet coreografado por Marius Petipa em 1898. Eu disse possível, não fácil…

Adágio, primeiro ato, Raymonda, Teatro alla Scala, Olesya Novikova e Friedemann Vogel, 2011.

Nesse caso, o ponto principal é ter um grande domínio do trabalho de pontas. Mas particularmente, acho esse domínio imprescindível para quem quer dançar nas pontas, caso contrário, não há motivo para usá-las no palco, por maior que seja a sua vontade.

Perceberam como é possível? Agora é prestar atenção naquelas coreografias que condizem com o seu nível técnico e as suas habilidades como bailarina. Podemos sim dançar bem e lindamente. Basta escolher a coreografia certa.

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¹ Reconstrução: é a remontagem de um ballet de repertório o mais próximo possível da sua concepção original. O coreógrafo ou remontador responsável pesquisa anotações, notações, documentos e demais registros da época. Algumas das reconstruções mais recentes são: Raymonda, do Teatro alla Scala; Giselle, do Pacific Northwest Ballet; O corsário, do Bolshoi Ballet; e Paquita Grand Pas, do Bolshoi Ballet.

Quem quiser saber mais sobre o assunto, leia o post “Time Has Told Me: Reconstructing Ballet”, The Ballet Bag, em inglês, aqui.