Fluidez dos movimentos

“De uma perspectiva espanhola, quanto mais elegante são o olhar, a pose dos braços e os movimentos, mais realistas eles são”.

Esse comentário é de Eduardo Laos, diretor da montagem de Dom Quixote para o Staatsballett Berlin, reproduzidas no post “A elegância em Dom Quixote“.

Lembrei dessas palavras ao assistir Danza IX (2018), do Ballet Nacional de España. Fiquei encantada pela fluidez dos movimentos: a dança faz parte do corpo da bailarina. Não conseguimos mais enxergar o limite entre a bailarina e os movimentos, ela é dona dessa coreografia, ela quem conta essa história. Não, ela não é a coreógrafa, essa obra é de Victoria Eugenia ‘Betty’. Mas se dissessem que é obra de Aloña Alonso, bailarina dessa apresentação, alguém duvidaria? Sem falar na elegância, é beleza do começo ao fim.

Danza IX (2018). BNS Historia. Ballet Nacional de España.
Coreografia: Victoria Eugenia ‘Betty’. Bailarina: Aloña Alonso.

Eu vejo essa fluidez de movimentos como um dos grandes objetivos na dança. Dançar sem parecer que houve tanto estudo, dançar sem transparecer as muitas horas de ensaio, dançar sem pensar na coreografia, dançar sem questionar, dançar simplesmente por dançar. Deixar a dança falar por si mesma.

Será que alguma vez eu consegui isso, lá atrás? Acredito que não. Mas se um dia eu voltar a dançar, esse vídeo será o meu exemplo a ser seguido, o que quero alcançar um dia. Quem sabe eu consiga.

Qual dança diz quem você é?

Eu estava há alguns anos sem fazer aulas de dança e queria voltar a estudar em um estúdio. Por que não tentar um outro caminho? Assim, comecei a fazer flamenco.

Em um sábado qualquer, eu era a única aluna presente. Enquanto eu esperava a professora chegar, fiquei parada na porta da sala ouvindo o que estava acontecendo na sala ao lado. A música entregava o mistério, era aula de ballet clássico.

Quando acabou, vi várias alunas adultas saindo de lá. Olhei para elas, collant, meia-calça rosa, sapatilhas, algumas um pouco mais alinhadas, outras levemente desarranjadas. Olhei para mim, saia longa ajustada ao corpo e rodada na barra, blusa de manga três quartos, sapato de salto quadrado. Flamenco é assim: você pode até tentar ser largada, mas não consegue, parece que estamos sempre lindas.

Nesse “olhar para elas” e “olhar para mim”, eu não me reconheci.

Não foi a primeira vez que esse não reconhecimento aconteceu. Anos antes, foi assim durante uma aula experimental de dança de rua e também aconteceu antes de uma apresentação de dança do ventre. Em ambos os casos, olhei no espelho e não me enxerguei ali. Mas dessa vez foi diferente, não sei por quê. Desde então, a ideia de uma dança que mostra quem somos ficou na minha cabeça.

Assim, pergunto a vocês: Qual dança diz quem você é?

Não pense em qualidade técnica, em anos de estudo, em dançar bem. Existe alguma dança que encontra a sua alma, que ao se olhar no espelho você sorri sem querer. Talvez você nunca a tenha dançado, mas algo lhe diz que seria um belo encontro.

Qual é a minha? Eu ainda não sei. Quem me conhece bem costuma me associar a danças de saias longas e rodadas, de flores nos cabelos, como nessa cena da minissérie Capitu. Aquele momento lá atrás em que me reconheci no ballet clássico não existe mais. Isso também acontece: o tempo passa, as coisas mudam e não somos mais a mesma pessoa. O que antes nos dizia tanta coisa perdeu o sentido. Alguém já passou por isso? O ballet e eu, por exemplo.

Talvez exista relação entre as características de cada dança e de cada pessoa. O ballet tem um ar onírico, delicado, um tanto pueril. O jazz é energia e ritmo, além de juvenil, não importa a idade de quem esteja dançando. O flamenco é belo, musical e imponente, toma conta de tudo. A dança contemporânea dialoga com o tempo e com a realidade na qual está inserida. O sapateado é a habilidade de um corpo que canta, os pés são um instrumento musical.

Existem outras tantas danças, mas escolhi essas cinco porque são algumas das mais comuns nos estúdios de dança do Brasil. Selecionei um vídeo para cada uma delas, todos com no máximo dois minutos, e a escolha foi proposital: são sempre pessoas dançando sozinhas. É mesmo o momento do “eu”, de olhar e se encontrar.

Quando eu descobrir a minha dança, eu volto para contar. Enquanto isso, divirtam-se, e me contem qual é a dança de vocês.

BALLET CLÁSSICO: “Variação de Swanilda”, primeiro ato, Coppélia, Pacific Northwest Ballet, Leta Biasucci

JAZZ: Who Are You / The Night Comes Again, Nicholas Palmquist

FLAMENCO: “Enternal monolouge”, Melina Najjar

DANÇA CONTEMPORÂNEA: Solo de Suíte Branca, Grupo Corpo, [não consegui descobrir quem é a bailarina]

SAPATEADO:Alexander Hamilton”, Hamilton, Bayley Graham

Bailando um tesoro

O Ballet Nacional de España é uma das companhias mais importantes daquele país, o primeiro diretor foi ninguém menos que Antonio Gades, e a base do seu trabalho artístico é a dança espanhola em suas várias expressões.

Talvez vocês se lembrem, eu fiz flamenco por um tempo. Pouco, na verdade, mas ainda estudo sobre o assunto. Gosto demais do Ballet Nacional de España e o acompanho por alto. Assim eu assisti a um vídeo tão interessante que quis compartilhar com vocês.

Em breve, eles lançarão “Bailando un tesoro”, um livro ilustrado para crianças sobre a dança espanhola e seus estilos. Para divulgar o lançamento, fizeram esse vídeo de dez minutos em que, além de entrevistas com os realizadores do livro, vemos várias crianças em uma escola de dança. Elas também fazem ballet clássico, assim como os profissionais da companhia, e é uma graça vê-las todas juntas e ouvi-las falar sobre dança. Em dado momento, um dos meninos diz: “Todo mundo tem direito de dançar porque é uma coisa muito bonita”. Como não amar?

Também há cenas dos profissionais da companhia em uma aula de ballet clássico e o diretor explica a importância desse estudo para bailarinas e bailarinos de dança espanhola.

Além de se desmancharem pelas crianças e se encantarem com o livro, prestem atenção na explicação sobre a Escuela Bolera, ela é prima do ballet clássico e farei um texto somente sobre isso qualquer dia desses.

O áudio original é espanhol, sem legendas, mas é tranquilo de entender.

“Bailando un tesoro”, video presentación del libro, Ballet Nacional de España.