“Carmen”, Compañía Antonio Gades

Depois de uma intensa campanha política, eleições acirradas e uma semana de alívio, vamos voltar aos posts? Vamos.

O livro Carmen (1845), de Prosper Mérimée, já virou ópera, filme, peça de teatro e espetáculo de dança de várias modalidades. Há mais de dez anos, eu falei brevemente sobre as montagens de dança, especialmente de ballet, aqui.

Hoje, é o flamenco. Essa sequência do espetáculo Carmen (1983), da Compañía Antonio Gades, foi desenvolvida quase paralelamente ao filme Carmen (1983), de Carlos Saura.

Não há música, apenas o som das palmas e do sapateado flamenco. Acho belíssimo, soa como música para mim.

Sequência de Carmen (1983), Compañía Antonio Gades, montagem de 2011.

Para fazer o amor voltar

Nesses treze anos escrevendo sobre dança, de uma maneira ou de outra, já falei diversas vezes a respeito do cansaço, da falta de vontade, de não querer saber de dança.

Eu tenho períodos de não assistir nem ler nada. Passo muito tempo sem acessar o perfil do blog no Instagram, para ter um descanso.

Aí, a vontade volta. Assisto, leio, quero sair dançando loucamente por aí. Com vocês também é assim ou o amor nunca aferrece?

Às vezes, as coisas voltam aos eixos sem qualquer esforço da minha parte; noutras, eu tenho de ir atrás da dança para fazermos as pazes. Como dessa vez.

Selecionei dois vídeos que conseguem me despertar. Basta eu assisti-los e o amor volta, o sorriso retorna e eu me sinto confortável com a dança novamente.

Primeiro, um ensaio de flamenco. Depois, uma gravação de jazz. Alguém consegue perceber a semelhança entre os dois? As pessoas estão felizes dançando, a alegria salta aos olhos. Talvez seja isso o que eu tenho buscado na dança.

Día Internacional del Flamenco 2019. Ballet Nacional de España. Ensayos de Electra.

All These Things That I’ve Done
(Coreografia: Nicholas Palmquist. Estúdio: Steps on Broadway)

Fluidez dos movimentos

“De uma perspectiva espanhola, quanto mais elegante são o olhar, a pose dos braços e os movimentos, mais realistas eles são”.

Esse comentário é de Eduardo Laos, diretor da montagem de Dom Quixote para o Staatsballett Berlin, reproduzidas no post “A elegância em Dom Quixote“.

Lembrei dessas palavras ao assistir Danza IX (2018), do Ballet Nacional de España. Fiquei encantada pela fluidez dos movimentos: a dança faz parte do corpo da bailarina. Não conseguimos mais enxergar o limite entre a bailarina e os movimentos, ela é dona dessa coreografia, ela quem conta essa história. Não, ela não é a coreógrafa, essa obra é de Victoria Eugenia ‘Betty’. Mas se dissessem que é obra de Aloña Alonso, bailarina dessa apresentação, alguém duvidaria? Sem falar na elegância, é beleza do começo ao fim.

Danza IX (2018). BNS Historia. Ballet Nacional de España.
Coreografia: Victoria Eugenia ‘Betty’. Bailarina: Aloña Alonso.

Eu vejo essa fluidez de movimentos como um dos grandes objetivos na dança. Dançar sem parecer que houve tanto estudo, dançar sem transparecer as muitas horas de ensaio, dançar sem pensar na coreografia, dançar sem questionar, dançar simplesmente por dançar. Deixar a dança falar por si mesma.

Será que alguma vez eu consegui isso, lá atrás? Acredito que não. Mas se um dia eu voltar a dançar, esse vídeo será o meu exemplo a ser seguido, o que quero alcançar um dia. Quem sabe eu consiga.