Dia da Bailarina

Eu não faço uma aula de ballet há tempos. Eu não me apresento no palco há anos. Dia desses, no corredor vazio do hospital onde sou voluntária, enquanto esperava a minha mãe para irmos embora, lá estava eu fazendo uns passos de ballet. Sem nem pensar, ou perceber, a bailarina sempre aparece, não importa onde eu esteja.

Isso é para lembrar a máxima que todas nós conhecemos, mas às vezes nos esquecemos: uma vez bailarina, sempre bailarina.

Feliz Dia da Bailarina para todas nós!

Para comemorar, uma variação bem curtinha, mas delicada que só.

“Variação do pas de six”, Napoli, Royal Danish Ballet, Susanne Grinder.

A bailarina que mora em mim

Menina, eu queria ser bailarina. Poucos anos depois, conheci o jazz. No começo da adolescência, o sapateado me encantou. Jovem, por que não a dança do ventre? Adulta, eu reencontrei a menina e finalmente me tornei bailarina.

Nove anos se passaram desde a minha primeira sapatilha. É muito? Para o ballet, quase nada. Trezentos anos de existência em relação a nove anos de experiência é uma sábia senhora diante de uma recém-nascida.

Passei por várias fases ao longo desses anos. Do “finalmente eu consegui fazer ballet” para o “eu nunca vou conseguir dançar ballet”. Da alegria das primeiras descobertas à tristeza de não conseguir consolidá-las. Reconhecer-se bailarina, sempre amadora, sempre nos palcos diante dos conhecidos, sempre entre quatro paredes. Nunca profissional, nunca para a plateia, nunca para o mundo.

As dores? Sejam do ballet, sejam da vida, sejam da saúde. Convivi com todas elas nesses anos. O meu corpo titubeou tantas vezes. Eu voltava, ele dizia, “Vamos parar um pouco?”. Eu fazia as suas vontades, depois, retornava às minhas. Assim, ouvia, “Não estou aguentando, por favor, mais um descanso”. Até que o entendi, ele tem os seus limites, mas para dançar bem, eu deveria ultrapassá-los todos. Na queda de braço entre o ballet e a minha saúde, ouvi os pedidos do meu corpo, porque sem ele eu não existo, eu não sinto, eu não danço.

Mas a dança precisa continuar. Há tantas formas de dançar. Há tantas formas de dançar ballet, mas isso ninguém nos diz, essa é a nossa descoberta. Existe o ballet dos grandes palcos, o ballet das primeiras-bailarinas, o ballet dos estúdios, o ballet nosso de cada dia. Aquele que eu danço, dia sim outro também, sozinha, para mim, sem que alguém veja, sem que ninguém perceba, sem que todos saibam. Eu danço, sempre. Eu danço ballet, sempre.

Não tenho na minha vida o ballet que eu queria, mas tenho o ballet que eu posso ter. Seria eu menos bailarina?

Ninguém precisa responder. Eu sou bailarina, do jeito que consigo ser.

Parabéns pelo nosso dia!