Variações (quase) desconhecidas

Outro dia eu propus o seguinte lá no nosso grupo de discussão: “Qual variação vocês amam, mas poucas bailarinas sabem que ela existe?”. Como exemplo, eu publiquei uma variação que já apareceu várias vezes no blog, a “Segunda variação do Rio Nilo“, A filha do faraó, Bolshoi Ballet.

Houve várias indicações. Entre variações praticamente desconhecidas e outras um pouco mais próximas de nós, todas são semelhantes num ponto: uma mais linda do que a outra. Achei uma tristeza deixar todas aquelas preciosidades perdidas por lá e perguntei se poderia trazer para cá.

Aqui estão elas, com o nome de quem indicou, as informações da variação e o link para o vídeo. Quem puder, assista a todas, valerá muito a pena.

Bárbara Menezes
“Variação do lenço”, Raymonda, Teatro alla Scala, Olesya Novikova.
Para assistir, aqui.

Cyndi Oliveira
“Valsa fantástica”, primeira variação, Raymonda, New National Theatre Tokyo.
Para assistir, aqui.

Erika Camargo
Outra versão da “Variação de Dulcinea”, Dom Quixote, Mariinsky Ballet, Margarita Kulik.
[O vídeo foi apagado. Para assistir a mesma variação, mas dançada pela Renata Shakirova, aqui.]

Giovanna Fernandes
“Quarta variação de Paquita”, Paquita, Kirov Ballet (Mariinsky Ballet), Larissa Lezhnina.
Para assistir, aqui.

Gisela Ferreira
“Primeira variação do pas de trois”, O lago dos cisnes, Colorado Ballet, Shelby Dyer.
[O vídeo foi apagado e não consegui encontrar um novo vídeo da mesma companhia.]

Julimel
“Variação de Esmeralda”, segundo ato, Esmeralda, The Mussorgsky Ballet, Elvira Khabibullina.
Para assistir, aqui.

Maria Eduarda Molina
“Variação de Gamzatti”, terceiro ato, La bayadère, Royal Ballet, Darcey Bussell.
Para assistir, aqui.

Marília Mascarenhas
“Variação de Nikyia”, La bayadère, Mariinsky Ballet, Polina Semionova.
[O vídeo foi apagado e não encontrei vídeo semelhante.]

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O texto foi atualizado em 25 de maio de 2021.

Variação de Gamzatti

Encontrei este vídeo por um acaso, mas é daqueles que merecem um post. A variação começa com a Darcey Bussell e, de repente, passa à Marianela Nuñez. Da magnitude de uma para a delicadeza da outra.

“Variação de Gamzatti”, La Bayadère, Royal Ballet.
Darcey Bussell (1991), Marianela Nuñez (2009).

Por mais incrível que Darcey tenha sido, eu prefiro a Marianela. Ela dança como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo.

ATUALIZAÇÃO: A responsável por essa belíssima montagem é a Julimel, do Vídeos de Ballet. Quem quiser ver outros vídeos, acesse o seu canal no YouTube, aqui.

O que caracteriza um bom alongamento?

Uma das perguntas campeãs aqui no blog é: “Eu não sou flexível, posso fazer ballet?”. Ou, ao contrário, pessoas muito flexíveis que já se acham bailarinas por essa razão.

Por isso, adorei quando li na coluna Nosso corpo, de Francine Lima, da revista Época, um texto sobre alongamento com o subtítulo “Ser muito flexível não significa ser mais saudável”. Ela conta como mudou o seu conceito de alongamento e, principalmente, o que significa um “bom alongamento”. Preparem-se, é completamente diferente do que aprendemos nas aulas de ballet. É importante ler o texto completo, mas aqui estão alguns trechos:

Fazer exercício de alongamento sem saber o que precisa ser alongado não faz sentido. A coisa mais importante nesse tipo de atividade é justamente a atenção que se deve dar a cada parte do corpo. Se o objetivo de um movimento é, por exemplo, alongar a musculatura posterior da coxa, por que o professor diria que o aluno deve procurar encostar os dedos das mãos na ponta dos pés? Por que focar nas mãos e nos pés se a intenção é trabalhar a coxa? […]

Segundo a professora Adriana Ramos Schierz, ou Drika, que é fisioterapeuta e dá aulas de alongamento postural na Competition, eu não preciso necessariamente encostar as mãos nos pés para conseguir a flexibilidade de que eu preciso na parte posterior das coxas. […] Alongar errado é errado justamente porque, em vez de relaxar, tensiona.

Eu acho muito bonito quem consegue abrir espacato e encostar o pé na orelha. Mas nem sempre essa flexibilidade invejável é de fato invejável. […] pessoas hiperflexíveis têm de tomar cuidado para não estirar demais a musculatura e desproteger as articulações. As bailarinas molinhas e artistas de circo precisam é maneirar no alongamento e caprichar no fortalecimento da musculatura. [grifo meu]

O padrão do atleta não serve muito para promover saúde. Se a ginasta olímpica precisa exagerar na flexibilidade, apesar das dores, para ganhar medalhas, gente comum em busca de qualidade de vida deve ter como principal parâmetro o próprio corpo. Doeu? Está forçando demais ou na direção errada. Relaxou? Aproveite e permaneça. Não sentiu nada? Continue procurando até encontrar o seu limite. Sem olhar para o aluno ao lado, que tem corpo, dores e usos bem diferentes dos seus.

Francine Lima, repórter da revista Época, em Alongar quanto, e para quê?
Para ler o texto completo, clique aqui.

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São raros os professores que afirmam categoricamente que é mais importante ter musculatura fortalecida do que excelente flexibilidade.

Foto: Erin Baiano

A Darcey Bussell conseguiu se manter no ar por quê? Quem responder “por causa da força dessas pernas”, entendeu. Uma abertura de 180º sem uma musculatura bem-trabalhada só funciona no chão.