Dez danças

O tempo passou voando e em junho fará oito anos que comecei a dançar. Outro dia parei para pensar sobre as danças que estudei, experimentei e conheci, e me dei conta que nunca falei sobre isso no blog. Comentei algumas vezes,  escrevi no meu perfil, mas contar em apenas um texto como foram essas experiências, eu não contei.

Vou aproveitar o Dia Internacional da Dança e falarei brevemente sobre as dez danças que encontrei e me encontraram nesse período. Depois da introdução, elas estão na ordem em que apareceram na minha vida.

O meu caminho na dança

Comecei aos 27 anos de idade e passei por três estúdios de dança. No primeiro, estudei ballet clássico, dança do ventre, dança cigana e jazz, e fiz aulas experimentais de dança de rua, dança oriental contemporânea e dança clássica indiana. No segundo e no terceiro estúdio, estudei apenas ballet. Cursei metade de uma pós-graduação em dança e consciência corporal, onde tive dança contemporânea e danças circulares. Estou no quarto estúdio, há pouco tempo eu comecei a estudar flamenco.

1. Ballet clássico
Tempo de estudo: quatro anos e meio.

Seis anos falando dele, mas vou resumir. Em 2007, procurei por aulas de dança do ventre e escolhi uma escola onde havia ballet clássico para adultas. Resolvi fazer as duas. No meu primeiro dia, comecei pelo ballet e virou amor. Passei por três estúdios de dança e dancei quatro coreografias em três espetáculos diferentes. Somando o tempo de estudo em todos eles, foram quatro anos e meio, com uma pausa de um ano. Estou sem aulas de ballet em estúdio há três anos e pouco, mas treino em casa com uma certa regularidade para não perder o que aprendi. Quando parei, eu estava no nível intermediário.

Volta e meia tento voltar, mas não encontro um lugar, há sempre algum empecilho. Aliás, empecilho é a palavra. Se eu ainda estivesse no segundo estúdio, onde fiz o curso regular, e se tantas coisas não tivessem acontecido na minha vida nesse período, neste ano eu me formaria bailarina clássica. Talvez não fosse mesmo para ser.

  • Nesses anos escrevi diversos textos sobre minha experiência com o ballet clássico, e todos estão reunidos na categoria “Dos passos de uma bailarina adulta”, aqui.

2. Dança do ventre
Tempo de estudo: um ano.

Grande responsável pelo meu início na dança, nos primeiros seis meses as aulas de dança do ventre aconteciam em seguida às aulas de ballet, o meu começo está intimamente ligado às duas. Estudei sempre na mesma escola e, além dos vários movimentos de quadril, aprendi a dançar com snujs, pandeiro, bastão, taças, véu simples, véu duplo, véu wings e sete véus. Também tive noções de música árabe. A primeira vez que dancei no palco foi uma coreografia de dança do ventre. No segundo estúdio, também dancei uma coreografia de dança do ventre no espetáculo, convidada pela minha professora de ballet. Tive ótimas professoras, gostava das aulas e aprendi muito, mas parei porque não me identificava mais. Mesmo assim, até hoje respeito imensamente tanto a dança do ventre quanto as bailarinas tão dedicadas a ela.

  • Para ler o texto que escrevi sobre dança do ventre, aqui.

3. Dança cigana
Tempo de estudo: quatro meses.

Eu era aluna de ballet e dança do ventre, e havia visto a turma de dança cigana dançar no espetáculo de fim de ano. Que coisa mais linda! Comecei as aulas por puro encantamento. Tive apenas uma professora, que sempre ia além e nos explicava sobre cultura cigana. Nós nos sentíamos imersas naquele universo e as alunas sempre saíam da aula com um sorriso no rosto. Nunca ouvi uma repreensão ou vivi uma situação delicada, nada. Era realmente um momento de encontro. Parei as aulas porque saí da escola, senão teria continuado.

  • Para ler o texto que escrevi sobre dança cigana, aqui.

4. Jazz
Tempo de estudo: duas aulas.

Eu fazia ballet, dança do ventre e dança cigana. Bastava? Não, eu cismei que faria jazz e me matriculei. Paguei apenas um mês, fiz duas aulas e faltei nas outras duas. A professora era muito boa, mas eu me sentia deslocada, eu não conseguia “me achar” dançando. Olhava para os lados e me perguntava: “O que eu estou fazendo aqui?”. Mas foi algo pessoal, não teve qualquer relação com o jazz em si. Foi nesse momento que saí do primeiro estúdio, então parei todas praticamente ao mesmo tempo. Eu já estava no segundo estúdio fazendo o curso regular de ballet clássico e queria me dedicar a isso.

No segundo estúdio, a professora de jazz precisava de mais uma pessoa para dançar a coreografia de jazz musical no espetáculo de fim de ano. Eu não era sua aluna, mas amava a coreografia, assistia aos ensaios e sabia a música de cor. Ela deve ter lido isso na minha testa e me convidou para dançar. Um ator cantou a música ao vivo. Foi muito legal, me diverti dançando e entendi por que tantas pessoas amam musical. Às vezes, sinto saudade, mas não penso em fazer jazz novamente.

  • Para ler o texto que escrevi sobre jazz, aqui.

5. Dança de rua
Tempo de estudo: aula experimental.

Eu passava boa parte dos sábados no estúdio, surgiu a oportunidade e por que não fazer aula experimental de dança de rua? Eu acho demais, admiro quem dança, mas sabe quando algo não tem absolutamente nada a ver com você? Nem a música, nem a roupa, nem os movimentos. Pense numa pessoa desengonçada: eu. Resolvi deixar a dança de rua para quem entende do assunto e dança superbem.

  • Para assistir a um vídeo de dança de rua, aqui.

6. Dança oriental contemporânea
Tempo de estudo: aula experimental.

Se não me engano, essa modalidade foi desenvolvida pelas donas do estúdio onde comecei. É um misto de dança indiana, dança do ventre, ballet e jazz, ao som de música indiana moderna. O resultado é muito bonito, mas pensem numa pessoa absolutamente perdida. Todo mundo já tinha terminado a sequência e eu ainda estava no meio do caminho. Também não era para mim, sou melhor como espectadora.

  • Para assistir a um vídeo de dança oriental contemporânea, aqui.

7. Dança clássica indiana
Tempo de estudo: aula experimental.

Estavam pensando em incluir dança clássica indiana na programação da escola e ofereceram uma aula experimental de Bharatanatyam. (Há várias danças clássicas indianas e Bharatanatyam é uma delas.) Foi uma experiência muito bonita, pois há todo um ritual para que a aula aconteça. Ela começa com um pedido de permissão para a aula acontecer e termina com um agradecimento, praticamente com os mesmos dizeres. Os tempos são marcados pela professora com um determinado instrumento, cujo nome eu não me lembro. Quem pensa que difícil é ballet clássico, não conhece a dança indiana. Foi a única vez que vi várias pessoas sentadas nos cantos da sala desistindo da aula. É bem difícil, mas é de uma beleza singular. Eu não sou de desistir e fiz a aula até o fim. Isso aconteceu em 2008 e até hoje lembro da professora, do som do instrumento, de alguns passos, do que senti. A minha relação com a dança tem um pouco dos acontecimentos desse dia.

  • Para assistir a um vídeo da dança clássica indiana Bharatanatyam, aqui.

8. Dança contemporânea
Tempo de estudo: 20h na pós-graduação em dança.

Primeiro dia de pós-graduação e já começamos com dança contemporânea. Entrar em contato com uma dança ao longo de um fim de semana em um curso de especialização é bem diferente de uma aula experimental. Você estuda teoria e prática, termina de ler um texto, ouvir uma explicação e passa para os movimentos. É outra coisa! Parece que temos uma noção ampliada da modalidade, dançamos dentro de um contexto.

Eu não entendia nada de dança contemporânea e tinha a visão do senso comum: não vi, não dancei, não gostei. Depois dessas aulas, eu compreendi o seu propósito. Eu não me descobri uma apaixonada pela dança contemporânea, mas a minha maneira de olhar para essa dança mudou completamente e isso fez toda a diferença.

  • Para ler o texto que escrevi sobre dança contemporânea, aqui.

9. Danças circulares
Tempo de estudo: 20h na pós-graduação em dança.

Na pós-graduação, nós tínhamos aula um fim de semana por mês e não lembro se foi no quarto ou quinto mês que tivemos danças circulares. A professora era incrível, ela tinha uma visão da dança e da vida que deixou a turma meio atordoada. Além disso, imagine uma professora discorrer por uma hora sobre o impacto da dança na vida das pessoas e depois guiar os alunos para todos dançarem juntos. Impossível não ser tocado por isso.

As danças circulares têm um sentindo de comunhão, de partilha, de estar com o outro, algo raro na dança. Estamos muito acostumados a “olhar para dentro” quando dançamos e as danças circulares só existem se todos estão unidos na roda. Sem o outro você não dança. Sem você o outro não dança. Essa comunhão nos ampara.

Essa foi minha última grande aula de dança antes de um hiato de aulas na minha vida.

  • Para ler o texto que escrevi sobre danças circulares, aqui.

10. Flamenco
Tempo de estudo: comecei há três semanas.

Eu queria voltar ao ballet e procurei por meses, mas sempre havia um problema: o horário, o nível da turma, a formação da professora. O que fazer? Se eu não conseguia voltar ao ballet, faria uma outra dança.

Ao longo desses anos, eu sempre quis fazer flamenco, mas simplesmente não acontecia. Eu me limitava a ver outras alunas dançando, a ouvir o som da sala ao lado, mas nunca era eu. Nem aula experimental eu fiz. Agora, as coisas se encaixaram e deu certo. E sabe o mais interessante? Pela primeira vez, eu senti a diferença desses anos dedicados à dança. Ela já está em mim. O meu corpo é um corpo que dança. Pensei que jamais chegaria a esse estágio, e falo sério.

  • Para ler o texto que escrevi sobre flamenco antes de começar a dançá-lo, aqui.
  • Para ler o texto que escrevi para contar sobre o início das minhas aulas de flamenco, aqui.

O que aprendi com todas essas experiências? Conhecer várias danças amplia a nossa visão sobre a dança como um todo. O mundo não gira em torno da nossa modalidade preferida. Não, ninguém dançará bem todas elas. Bailarinas clássicas não dançam bem outras modalidades só porque fazem ballet clássico. Há pessoas que nunca fizeram ballet e dançam superbem outras danças. É uma visão equivocada que o ballet é a base de todas as danças, eu mesma presenciei e vivenciei isso.

A dança existe de várias maneiras. A dança é para todos. Vamos aproveitar essa data para reconhecer e celebrar isso.

Whatever Lola Wants

“Não sou capaz. Nunca serei.”
“Desista então.”
“Por que não me mostra como se faz?”
“Porque não somos iguais. Lola, eu não posso te ensinar a ser você mesma. […] Dance para você, não para eles. […] Veja toda a energia que você está desperdiçando. Pegue essa energia e use-a. Use tudo o que está vivendo. Não fuja dos seus sentimentos. […] Use o seu corpo. Seja o seu próprio instrumento. Mostre-me o seu interior.”

Ismahan para Lola, no filme Whatever Lola Wants.

Eu soube deste filme por conta da minha ex-professora de dança do ventre. Ela publicou o link no Facebook e eu resolvi guardá-lo para assistir quando tivesse tempo. E ele me tocou de tal maneira que resolvi compartilhar com vocês.

Lola trabalha nos correios de Nova York e faz aulas de ballet clássico. Ela é muito dedicada e sonha em ser profissional, mas se vê obrigada a trabalhar em algo que não gosta. Além disso, está com 25 anos, “tarde demais” para vislumbrar algo além. Graças ao seu amigo, ela descobre a história de Ismahan, uma grande bailarina egípcia.

Em Nova York, ela se apaixona por um egípcio que acaba voltando para o seu país. Lola resolve ir atrás dele no Egito e, bem… Para conhecer o restante da história, vocês terão de assistir.

“Whatever Lola Wants” nos mostra o poder transformador da dança. Não importa qual seja ela, quando a dança é algo genuíno em nós, ela nos move. Mesmo que a sua dança não seja a do ventre, é impossível não se ver na história da Lola.

Quem quiser ter uma ideia, assista ao trailer.

Ganhei meu domingo, minha semana, meu mês, meu ano por conta do que acabei de assistir…

Dança do ventre

Vamos para o primeiro post da nova categoria: Dos outros movimentos. A cada 15 dias falarei sobre uma dança diferente e começarei pelas que conheço. A primeira, a mais querida depois do ballet: a dança do ventre.

Eu tenho dois segredos sobre ela. 1) Eu comecei mesmo no ballet porque busquei aulas de dança do ventre. Encontrei as duas no mesmo estúdio. Uma me levou a outra, especialmente porque uma aula era depois da outra. 2) É a única dança em que sempre recebi mais elogios do que críticas das professoras.

A dança do ventre é aquela dança que todo mundo acha que sabe, até o dia em que faz uma aula. Cansei de ver mulheres se achando, como se bastasse mexer o quadril. Ledo engano. É necessário muita dedicação e estudo para alcançar um nível técnico satisfatório.

Esta sou eu, em dezembro de 2007, na pose final da coreografia.

Eu fiz aulas durante um ano e me surpreendi com a grade curricular. Movimentos básicos, batidas, oitos, camelos, redondos, shimmies (os tremidos de quadril), véus (simples, duplo, sete, wings), snujs, pandeiro, taças, punhal, candelabro, bastão, espada. Dessa lista, na sequência, eu cheguei até o pandeiro. Sem falar em todos os desdobramentos das danças folclóricas. É um vasto campo de estudo.

Tenho um respeito profundo pela dança do ventre e pelas professoras que tive. Foram três fixas e algumas esporádicas. Nunca ouvi um grito, uma impaciência, um desmerecimento. Nada. Nem comigo, nem com as demais alunas. Também nunca vi mulheres dizendo que estavam gordas, mesmo quando estavam acima do peso. Pelo contrário, o mais comum é vermos o resgate da autoestima, todas se sentindo lindas entre brilhos e vidrilhos, em paz com o próprio corpo e com o que ele é capaz de fazer.

Particularmente, eu acho muito difícil conciliar ballet clássico e dança do ventre. A primeira pode auxiliar a segunda, mas raramente alguém será boa nas duas. Enquanto no ballet a base é a coluna vertebral e tronco e quadril formam um bloco indissociável, na dança do ventre é o contrário. O quadril é praticamente um ser independente do corpo, ele manda na história, enquanto que no ballet ficamos alinhadas o tempo todo. Sofri um bocado até entender como cada uma acontece.

Infelizmente, há um grande preconceito em relação a essa dança. Quem faz ou já fez, sabe: basta comentar com alguém e escutamos um “Dança aí para a gente ver”. Ou então ouvimos um “E aí, já dançou para alguém?”. Dança do ventre não é striptease. Poupe-me. Além disso, por mais que estudemos, as pessoas notam outras coisas. Ou o nosso corpo. Ou as bijuterias. Ou o belo figurino. Ou “o poder do nosso quadril” (eu já ouvi isso!). Mas nós, que estudamos com afinco, sabemos enxergar a dança de fato. Eu parei em 2008 e até hoje entendo o que vejo. E continuo achando incrível.

Esta é a Jillina, bailarina de dança do ventre. Era ela a minha maior inspiração.

Quem quiser mais informações, acesse o Cadernos de Dança, aqui.

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