Pela alegria de dançar

O ballet clássico é uma ode ao sofrimento. Horas e horas de aulas e ensaios. Dores pelo corpo todo. Pés machucados, com direito a unhas roxas prestes a cair. Lágrimas dia sim, outro também. Obsessão pelo movimento perfeito. Angústia desmedida por nunca atingir o apogeu. As tragédias gregas são mais tranquilas que a vida de uma bailarina.

É assim mesmo ou nós exageramos um pouco? Convenhamos, a menos que uma pessoa seja masoquista em um nível patológico, ninguém conseguiria viver assim. Mesmo para as bailarinas e os bailarinos profissionais, há um limite para o sofrimento. Ballet é difícil? Muito, como tantas outras coisas na vida.

Mas existe a alegria de dançar, a satisfação em ver o resultado de tanta dedicação, a plenitude de sentir-se finalmente uma bailarina. Por que isso não faz tanto sucesso? Porque o sofrimento é visto como sinônimo de luta: se sentimos dor, então nos dedicamos arduamente por alguma coisa.

A dor vale mais do que a alegria? Eu danço porque dançar me faz feliz. Há um punhado de tristezas? Sim, mas são poucas. O dia em que o ballet me fizer chorar encolhida na cama, eu procurarei outro amor na vida.

Por isso, em 2016, eu quero uma ode à alegria. É esse sorriso no rosto do Carlos Acosta e da Marianela Nuñez que desejarei a nós neste novo ano. E um pouco dessa doçura e delicadeza de La fille mal gardée não fará mal a ninguém.

Pas de ruban, La fille mal gardée, Royal Ballet. Carlos Acosta e Marianela Nuñez.

Encontro no segundo ato

Estou em uma fase Dom Quixote da vida e acabei de assistir a um pas de deux que quase ninguém comenta: Kitri e Basílio no segundo ato. Algumas montagens dão a essa passagem um ar mais sensual, mas a versão do Royal Ballet ficou delicada e romântica.

Sem falar que Carlos Acosta e Marianela Nuñez dançando juntos é sempre lindo de ver!

“Pas de deux segundo ato”, Dom Quixote, Royal Ballet, Carlos Acosta e Marianela Nuñez.

Kitri e Basílio

Carlos Acosta é bailarino convidado do Royal Ballet. Lauren Anderson foi primeira-bailarina do Houston Ballet e hoje dá aulas na companhia. Aliás, ela foi a primeira bailarina negra a chegar ao posto principal de uma grande companhia dos Estados Unidos, em 1990.

Eu assisti a este vídeo diversas vezes e sempre me impressiono com a força dos dois em cena. Infelizmente, não encontrei outros vídeos deles dançando juntos. Outros vídeos da Lauren Anderson então, são poucos. Mas este grand pas de deux é o suficiente para vermos que estamos diante de grandes bailarinos. Ele dispensa apresentações. Ela sempre será uma bailarina incrível.

Grand pas de deux, “Dom Quixote”, Carlos Acosta e Lauren Anderson.