O prólogo que inspirou o prólogo

Quem assistiu ao filme Black Swan provavelmente se lembra da sequência inicial, quando Rothbart transforma Odette em cisne.

Prológo, Black Swan, direção de Darren Aronofsky, 2010.

Em seguida, a personagem principal, Nina, acorda e durante seu alongamento matinal conta à mãe sobre o sonho que tivera, o prólogo que acabamos de assistir, ela estava dançando O lago dos cisnes e parecia a versão do Bolshoi.

Não sou uma especialista em repertórios, mas o prólogo do filme é idêntico ao prólogo de uma outra companhia russa: esta montagem do Kirov/Mariinsky, de 1968, feita especialmente para ser filmada.

Esse prólogo tem uma força dramática tão grande, é uma das passagens mais belas do ballet clássico.

Prólogo, O lago dos cisnes, Kirov Ballet, 1968, Yelena Yevteleva e Makhmud Esambayev.
Quem quiser baixá-la, aqui.

Os meus filmes preferidos de dança

Já escrevi sobre alguns filmes, mas nunca reuni os meus preferidos em um único lugar. Resolvi fazer isso porque é uma maneira de vocês comentarem os preferidos de vocês e termos indicações de vários filmes bacanas em um só post.

A minha lista é parcial e os critérios de preferência, totalmente subjetivos. Não é uma lista de “melhores”; se assim, fosse, dois filmes não constariam aqui. As escolhas tem como base a minha visão da dança sob diversos aspectos.

Há filmes “clássicos” no meio da dança que não entraram na lista. Por exemplo, sou apaixonada por “Dirty Dancing”, mas eu o vejo como uma história de amor em que a dança é coadjuvante. Choro sempre que assisto a “Billy Elliot”, é um filme belíssimo, mas não me identifico com a história. Ou seja, só constam aqueles filmes que me tocaram profundamente.

Aqui estão eles. Para assistir ao trailer, basta clicar nos títulos dos filmes.

Strictly Ballroom (Vem dançar comigo), Baz Luhrmann, 1992.
Uma competição de dança de salão, uma iniciante com pouco tempo para aprender a dançar e um dos finais mais emocionantes entre todos os filmes de dança. Eu o assisti no começo da minha adolescência e esse vestido vermelho da protagonista fez parte do meu imaginário por anos e anos. Para mim, esse filme mostra o poder agregador da dança. O diretor é o mesmo de “Moulin Rouge”, um dos meus musicais preferidos.

Center Stage (Sob a luz da fama), Nicholas Hytner, 2000.
Estudantes de ballet clássico em uma grande escola de formação. Coisa rara é encontrar alguém que faça ballet e não tenha assistido ao filme. Eu já assisti várias vezes e é impossível a gente não se identificar em vários momentos. Nem preciso dizer que o meu amor é pela Jody Sawyer, aquela que ouve o tempo todo que não deveria dançar. O final nos ensina muita coisa, talvez por isso eu goste tanto.
O post sobre o filme, aqui.

Pina (Pina), Wim Wenders, 2011.
Documentário sobre Pina Bausch. Na verdade, uma grande homenagem a ela. Um filme incrível, que mexe com todos aqueles apaixonados por dança. Se eu tivesse de escolher um único nome, uma única referência na minha vida na dança, sem dúvida, seria Pina Bausch. Sinto como se ela me dissesse que a dança faz parte de todos nós. Nela eu me encontro e esse filme me mostrou isso claramente. Mesmo quem não é afeito à dança contemporânea, assista. E assista de novo. E chore silenciosamente quando terminar.
O post sobre o filme, aqui.

Black Swan (Cisne negro), Darren Aronofsky, 2010.
Bailarina é escolhida para os papéis principais de “O lago dos cisnes” e começa a acreditar que está sendo perseguida por sua “rival”. Eu tenho uma profunda ligação com esse filme e sou sua defensora voraz. Ele fala muito mais sobre as entranhas do ballet clássico e da nossa obsessão pela perfeição do que qualquer outro filme. Sem falar no calvário da protagonista, que além de lidar com seus próprios medos e inseguranças, tem de ouvir o tempo todo que não é capaz para o papel que lhe deram. Nada muito diferente do que acontece com quem faz ballet… Enfim, eu o acho incrível de mil maneiras e poderia passar horas falando sobre “Black Swan”. Cada vez que o assisto, novos detalhes saltam aos olhos. É um primor! Nina Sayers, estamos juntas!
O post sobre o filme, aqui.

Whatever Lola Wants (O que Lola quiser), Nabil Ayouch, 2007.
Lola quer dançar profissionalmente, mas não consegue. Enquanto ela não “acontece”, trabalha nos correios de Nova York. Até o dia em que ela viaja ao Egito e conhece Ismahan, uma grande bailarina de dança do ventre. Do ponto de vista cinematográfico, o filme não tem nada demais. A sua grandeza reside em outros pontos: a determinação de Lola, as aulas de Ismahan, a disposição da novata em aprender, a generosidade da grande bailarina em ensinar, mostrar que existe a técnica, mas sem alma ela não quer dizer nada, deixar claro que cada bailarina é o espelho de sua dança… Sinceramente, os ensinamentos de Ismahan deveriam ser levados sempre conosco: “Lola, eu não posso te ensinar a ser você mesma. Use o seu corpo. Seja o seu próprio instrumento.”
O post sobre o filme, aqui.

E os filmes preferidos de vocês, quais são?

Odette: frágil ou rainha?

Eu tenho o costume de ler os comentários dos vídeos no YouTube. Gosto de saber o que as pessoas acharam, mesmo que pareça um absurdo o que disseram. Em uma dessas vezes, assistindo pela vigésima vez à estreia da Evgenia Obraztsova em “O lago dos cisnes”, li o comentário de uma pessoa dizendo que a sua Odette era a moça frágil e amedrontada como deveria ser, ao contrário de várias outras bailarinas que davam ao cisne branco um ar de “diva”. E não é verdade?

Pensemos: você está caminhando no bosque feliz e contente, um feiticeiro medonho aparece do nada e te aprisiona no corpo de um cisne, sem mais nem menos. Desde então, você está fadada a ser cisne durante o dia e mulher durante à noite, além de estar longe de sua mãe que chorou tanto a ponto de formar um lago onde você é obrigada a ficar durante o dia. Não só, para se livrar disso, você precisa encontrar um rapaz que a ame verdadeiramente. E detalhe: encontrará esse rapaz, mas ele pedirá outra em casamento e você será prisioneira para sempre. Haja angústia!

Para mim, a melhor tradução desse aprisionamento pode ser vista nesta cena.

Primeira cena do filme Black Swan, de Darren Aronofsky.

Sim, eu acho que a Natalie Portman conseguiu entender claramente a personalidade da Odette (e também da Odile, mas isso fica para outro dia). A angústia está nos seus olhos, o tempo todo. E notem o momento em que ela toca o próprio rosto depois da transformação… Na segunda vez, parece que ela mostra as lágrimas escorrendo. Perfeito!

Mas ela é atriz, existe uma facilidade maior pela própria característica da profissão (e falei sobre essas diferenças aqui). E entre as bailarinas? A meu ver, duas conseguiram encontrar esse tom de fragilidade: a Evgenia Obraztsova e a Gillian Murphy. Sendo que a Gillian consegue manter isso o tempo todo ao longo do ballet, eu fico impressionada.

Por outro lado, o perfil “rainha dos cisnes” impera. Acho que duas bailarinas atingem o grau máximo nesse quesito: Ulyana Lopatkina e Svetlana Zakharova. Divas do começo ao fim.

Dentre essas duas possibilidades, eu prefiro a Odette frágil, amedrontada e angustiada para fazer o contraponto com a Odile vil, sedutora e dona da situação. Mas essa é uma visão absolutamente pessoal.

E vocês, preferem a frágil ou a rainha?