Coreografias que me deixam entre a agonia e a fascinação

Ano passado, contei que nos meus tempos de teatro eu participei de uma peça em que eu corria vendada em um armazém mal iluminado. Eu era guiada por uma outra atriz, mas mesmo assim senti um leve frio na espinha em todas as apresentações. Talvez por essa experiência, na dança, eu presto muita atenção na segurança das coreografias. Como assim? Presto atenção se as bailarinas e os bailarinos correm algum risco de se machucar ou de machucar alguém enquanto se apresentam.

O problema é a subjetividade da minha análise: como bati o braço correndo de olhos vendados em plena apresentação, sempre acho que a desgraça alheia vai acontecer. Isso não significa que os profissionais envolvidos nas obras não saibam o que estão fazendo, mas isso não diminui a minha agonia. Há coisas que eu vejo e minha respiração para por um segundo.

Assim, pensei em sequências de obras que me deram essa sensação. Acho todas incríveis, fico fascinada com essas passagens, mas meu coração acelera imediatamente.

Todos esses trechos são de dança contemporânea, mas prometo fazer também uma lista de ballet clássico. Sim, porque nem tudo é delicadeza no mundo do cetim!

A parede de Velox (1995), de Deborah Colker, Cia de Dança Deborah Colker

Em uma parede de escalada, bailarinos e bailarinas formam desenhos enquanto se movem entre as pedras que servem de apoio. A questão é: sem nenhum material de proteção. O resultado é fascinante, eu não pisco os olhos, mas é inevitável pensar que alguém vai escorregar, pisar em falso e cair.

Os tubos metálicos em Bach (1996), de Rodrigo Pederneiras, Grupo Corpo

Tubos presos no teto fazem alusão aos órgãos de Bach, na obra homônima do Grupo Corpo. Se não me engano, há quatro momentos em que os bailarinos usam esses tubos durante a coreografia: na abertura, em um duo, no momento em que bailarinas se seguram ao serem erguidas e tiradas de lá, e no final.

Eu sinto uma leve agonia em todos esses momentos, mas o ápice é justamente no final. Uma parte do elenco sobe nesses tubos enquanto uma outra parte dança no palco. A sensação é: a turma de cima cairá com tubos e tudo sobre a turma de baixo. Claro, nada disso acontece, todos descem, a coreografia continua, a obra termina, o resultado é incrível, mas a minha agonia segue firme.

A chuva de bolinhas verdes em Play (2017), de Alexander Ekman, Ópera de Paris

Enquanto vários bailarinos dançam no palco acontece uma chuva de bolinhas verdes. Todos saem correndo, fica apenas uma mulher com seu guarda-chuva. Quando o palco está completamente verde, eles voltam e dançam aleatoriamente, lembrando mesmo uma brincadeira de criança. A agonia começa aí. Depois, eles dançam em sincronia e eu só consigo pensar: “Quem será a primeira pessoa a pisar em falso em uma bolinha?”.

É tão bem-feito que eles dançam sem tirar os pés do chão, mas o pensamento persiste. De qualquer forma, visualmente, é lindo demais!

Os “vidros quebrados” em A Biblioteca de Babel (2019), de Ismael Ivo, Balé da Cidade de São Paulo

Em uma das primeiras sequências do espetáculo, os bailarinos e as bailarinas estão em sua “prateleira”, até que ouvimos o som de vidros se quebrando. Não só, vemos esses estilhaços caindo enquanto eles e elas vão saindo de seu espaço e tomando o palco, se arrastando sentados.

O nível da minha agonia: eu demorei uma meia hora para perceber que, claro!, aqueles pedaços sequer eram de acrílico, eram de plástico mesmo, tipo celofane. Ninguém em sã consciência dançaria tranquilamente com a real possibilidade de se machucar. Mas eu pensei nisso na hora? Não pensei, mérito da produção da obra. Eu realmente embarquei na ideia que quiseram passar.

E vocês, lembram de alguma passagem em que também sentiram agonia?

Por aí #3

Vamos aos textos e informações deste mês? Quem quiser ver as publicações anteriores, aqui.

Para quem não sabe inglês, há o Google Tradutor e o Bing Tradutor. Não é a mesma coisa, mas o importante é se informar.

O que há de diferente no Balé da Cidade, que completa 50 anos
Além de um panorama sobre a história do Balé da Cidade de São Paulo, a matéria explica vários aspectos importantes da dança contemporânea e faz um contraponto com alguns outros do ballet clássico. É um excelente texto!
Para ler o texto completo, em português, aqui.

Professora de Arte vence o ‘Nobel de Educação’ de 2018
Andria Zafirakou é professora de arte no ensino médio de um distrito de Londres; seus alunos e suas alunas são pobres e expostos a grande violência. Ela venceu o Global Teacher Prize, sendo eleita a melhor professora do mundo. Ela cobrou maior espaço para as artes no currículo, pois “sempre são a primeira coisa a ser cortada”. Como discordar? Nós sabemos bem como a arte é negligenciada, e não apenas no Brasil, como gostamos de afirmar. Quem sabe esse prêmio seja uma fagulha que comece uma mudança.
Para ler o texto completo, em português, aqui.

Meet 10 Up-and-Coming Black Ballerinas Carrying on Misty Copeland’s Message of Diversity and Inclusivity
Misty Copeland não foi a primeira bailarina negra na história do ballet clássico, mas foi ela a responsável por abrir de uma vez as portas e os palcos para novas e promissoras bailarinas negras. Nesta lista, há dez jovens artistas que estão conquistando espaço e reconhecimento.
Para ler o texto completo, em inglês, aqui.

Projeto popular no Instagram reúne fotografias de bailarinas posando em cartões postais do Cairo
A matéria não é recente, mas continua válida e interessante. Inspirado no Ballerina Project, o fotógrafo Mohamed Taher desenvolveu o Ballerinas of Cairo em que mostra bailarinas em diversos pontos da capital do Egito. Para conhecermos um pouco além do que estamos tão acostumadas.
Para ler o texto completo, em português, aqui.

Gallery: Historic photos of The Nutcracker
Fotografias do arquivo do Royal Opera House mostram a história desse repertório em sua companhia de ballet. Uma viagem a um tempo que não tivemos a oportunidade de conhecer.
Para ler o texto completo, em inglês, aqui.

Audição para bailarinas do Balé da Cidade de São Paulo

Para quem é profissional ou tem interesse em ser, estão abertas inscrições para fazer parte do Balé da Cidade de São Paulo. Estas são as informações retiradas do site:

Inscrições para Bailarinas

O Balé da Cidade de São Paulo, grupo artístico da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, abre inscrições entre os dias 2 de maio e 15 de junho de 2016, para participação de bailarinas em audição. As bailarinas aprovadas na audição exercerão atividades junto ao Balé da Cidade de São Paulo durante a Temporada 2016.

Poderão inscrever-se candidatas com idade, entre 18 e 32 anos completos até a data da audição.

As inscrições serão realizadas presencialmente ou por correspondência, enviada pelo correio para a Sede do Balé da Cidade de São Paulo, situada à Rua João Passalaqua nº 66 – Bela Vista, São Paulo – SP, CEP.: 01326-020, no período de 2 de maio a 15 de junho de 2016, em dias úteis, das 10 às 15 horas. No ato da inscrição a candidata deverá enviar, ou trazer devidamente preenchidas, a Ficha de Inscrição, a Ficha Médica e o Termo de Autorização de Uso de Imagem que estão disponíveis abaixo. E-mail: baledacidade@theatromunicipal.org.br

Mais informações no Edital do Processo Seletivo, disponível na lista de arquivos para download.

Os arquivos para download podem ser baixados aqui.

Boa sorte!