Quando os gestos se transformam em dança

Antes de começar as aulas de dança, eu fiz teatro durante cinco anos. Dentre tantos jogos teatrais que fazíamos, um era bem comum, aliás, tão comum que também o fiz em dança contemporânea, na pós-graduação que não terminei. É o jogo da confiança. Não sei se o nome é esse, mas o objetivo, sim, o de aprendermos a confiar em quem compartilha a cena conosco. Não basta dançar junto, não basta atuar junto, para que a arte aconteça é necessário confiar, especialmente em duas artes, dança e teatro, em que o corpo é nosso instrumento. Sem confiança, nada acontece.

O jogo consiste no seguinte: várias pessoas em um círculo e uma pessoa no meio. Esta pessoa fechará os olhos e vai soltar o próprio corpo em direção às outras, que terão de ampará-la sem deixá-la cair no chão. Bonito, né? Descrevendo assim, uma beleza. Agora, imagine-se lá no meio entre pessoas que você não conhece.

Eu sempre tive dificuldade nesse jogo porque não conseguia “largar” o meu corpo, sempre ficava receosa e com medo de cair. Sabe quantas vezes isso aconteceu? Nenhuma, sempre alguém me amparou. Mesmo assim, se eu tiver de fazê-lo novamente, duvido que me “jogarei” tão fácil.

Lembrei disso ao assistir a esta sequência de Le parc, de Angelin Preljocaj. O pas de deux mais famoso dessa obra já apareceu por aqui, mas esta parte eu não conhecia. Qual não foi a minha surpresa ao ver um jogo teatral se transformar em uma bela sequência.

Trecho de Le parc, Ópera de Paris, Aurélie Dupont.

Em outro momento meu no teatro, em uma das peças que participei, eu corria vendada em círculos em um armazém mal iluminado. Estava amparada por outra atriz, que corria de mãos dadas comigo e me guiava por vários obstáculos do caminho, feitos pelas demais atrizes, ao som de “Loin des villes”, de Yann Tiersen. Aquilo sim foi uma prova de confiança! Passei agonia em todas as apresentações, mas a plateia sempre achava lindo.

Pois me surpreendi novamente ao assistir a esta sequência de A bela adormecida, de Matthew Bourne, que também já apareceu por aqui com “O adágio da rosa”. Não é muito diferente da sequência de Le parc, mas também é baseada na confiança, e muito bonita, de uma imensa delicadeza.

“Aurora dança em seu sono”, A bela adormecida, Matthew Bourne, Hannah Vassalo.

O que essas passagens da minha vida no teatro e essas sequências de Le parc e A bela adormecida tem a ver com o Dia Internacional da Dança? Tudo. Os pequenos gestos, as ações banais, um detalhe aqui, uma coisa ali, todos podem se transformar em uma sequência, uma coreografia, uma obra. É assim que a arte acontece, nesse mosaico de referências vindas de nossas experiências e de nosso conhecimento. Por isso a arte precisa de tempo, estudo, trabalho e atenção. Tudo vira dança, não nos esqueçamos disso.

Feliz dia para nós!