Variação da Colombina

Harlequinade (1900) é um ballet de Marius Petipa com música de Riccardo Drigo. Quem não conhece o pas de deux e as variações masculina e feminina? Famosos em festivais e competições pelo mundo afora, essas coreografias tão conhecidas não fazem parte da obra original, sabiam? Elas foram criadas por Pyotr Gusev na década de 1930 e com outras músicas de Riccardo Drigo. Para saber mais, clique aqui.

Em 2018, Alexei Ratmansky fez a reconstrução* de Harlequinade (1900) para o American Ballet Theatre. Esta é a “Variação da Colombina”, dançada pela bailarina Skylar Brandt. Não é uma graça?

“Variação da Colombina”, Harlequinade, reconstrução de Alexei Ratmansky, Skylar Brandt, American Ballet Theatre, 2020.

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* Reconstruções são montagens muito próximas das ideias de seus criadores. Para isso, pesquisam-se notações coreográficas, documentos históricos, vídeos, depoimentos de participantes das montagens originais e demais materiais que ajudem a recompor o repertório.

O pequeno bailarino nigeriano

Em meados de julho, viralizou na internet um vídeo de um menino dançando ballet a céu aberto, na chuva, em um chão de cimento batido. Anthony Mmmesoma Madu tem 11 anos e estuda na Leap of Dance Academy, em Lagos, na Nigéria. Fundada em 2017 pelo professor autodidata Daniel Owoseni Ajala, a escola tem 12 alunos e oferece aulas gratuitas de dança em um espaço improvisado. Se você é uma das poucas pessoas que ainda não assistiu ao vídeo, clique aqui.

Não é difícil se encantar por ele, além de dançar muito bem, o seu talento é nítido. Nasceu para ser artista.

“Meet 11 Year Old Ballet Dancer, Mmesoma”, Orange Culture Nigeria, 8 ago. 2020

Quem também ficou impressionada foi a bailarina Cynthia Harvey, diretora artística da American Ballet Theatre Jacqueline Kennedy Onassis School. Ela concedeu uma bolsa de estudos em dança para Anthony e outra no treinamento de professores para Daniel. Por causa da pandemia, ambos estão estudando online, mas ano que vem Anthony vai estudar nos Estados Unidos.

O seu sucesso ultrapassou as redes sociais e foi notícia na Reuters, NBC News, Good Morning America, AFP News Agency, BBC News, The New York Times, Le Monde, The Guardian, The Washington Post e Time, para citar alguns.

Quem quiser saber mais sobre a escola de dança e seu fundador, as melhores matérias são as do The Guardian e do The New York Times. Aviso de antemão: dificilmente a nossa visão sobre o ballet clássico continuará a mesma depois dessa história.

E nesta outra matéria da BBC News, legendada em português, conhecemos um pouco da história de Anthony, além de seu medo e sua ansiedade em ficar longe da família para estudar em outro país. Quando ele chora ao se imaginar indo embora, choramos junto: tão menino lidando com tantas coisas ao mesmo tempo. Que seja apenas o começo, Anthony! Os palcos do mundo esperam por você.

“Menino que dançava balé descalço na rua ganha bolsa nos EUA após vídeo viral”, BBC News Brasil, 29 ago. 2020

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Onde elas estão?

Há quase cinco anos, escrevi um dos textos mais acessados do blog, “As bailarinas negras e o ballet clássico“. Além de fazer um breve panorama sobre o assunto, falei a respeito de quatro bailarinas do passado (Janet Collins, Raven Wilkinson, Lauren Anderson e Aesha Ash) e quatro bailarinas que estavam ganhando cada vez mais espaço no mundo do ballet clássico (Misty Copeland, Céline Gittens, Michaela DePrince e Precious Adams). Hoje, onde estão essas bailarinas?

Misty Copeland
De solista a primeira-bailarina do American Ballet Theatre

Depois de muitos questionamentos sobre a demora de sua nomeação, Misty Copeland finalmente chegou ao mais alto posto da companhia em 2015, pouco tempo depois da publicação do texto. Na época, lembro de alguns comentários pejorativos, como se ela não fosse merecedora da promoção. Na verdade, comentários racistas, porque ela tem apuro técnico, talento e um físico impecável. Além disso, sua influência vai além dos palcos, ela é uma ativista pela inclusão de meninas negras na dança. Há quem a chame de midiática, eu chamo de reconhecimento mesmo. Atualmente, será que alguma bailarina consegue ter o alcance popular que a Misty conseguiu? Acredito que não.

Perfil no site da companhia, aqui.
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Trechos de Romeu e Julieta, Tchaikovsky pas de deux e Cisne branco, Misty Copeland, Vail Dance, 2015.

Céline Gittens
De solista a primeira-bailarina do Birmingham Royal Ballet

Confesso, eu acreditava que a Céline Gittens chegaria a primeira-bailarina antes da Misty Copeland, mas isso aconteceu um ano depois, em 2016. Delicada, técnica, eu gosto demais de vê-la dançar. Ela não tem tanta projeção quanto as outras três, mas quem se importa? Continua sendo uma grande bailarina.

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Céline Gittens, “Variação do cisne branco”, O lago dos cisnes, Birmingham Royal Ballet, 2019.

Michaela DePrince
Da companhia jovem à solista do Dutch National Ballet

Na época do texto, a Michaela sequer fazia parte da companhia principal, em pouco tempo, ingressou no corpo de baile e subiu na hierarquia até chegar a solista. Fala-se muito sobre a “força de sua história”, mas nesta palestra ela conta o grau de violência e abandono pelos quais ela passou. “Vocês acham que é um conto de fadas?”, ela pergunta depois de contar a sua vida. Não, não é. Além disso, o grande destaque deveria ser a sua carreira. Não há dúvidas de que o posto máximo da companhia é questão de tempo.

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Site pessoal, aqui.
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Coreografia de Peter Leung/House of Makers, Michaela DePrince, Women in the World, 2015.

Precious Adams
De corpo de baile a first artist do English National Ballet

A Precious Adams estudou no Bolshoi Ballet Academy, foi uma das vencedoras do Prix de Lausanne, mas em cinco anos ela subiu apenas um posto na companhia (first artist está entre corpo de baile e demi-solista). Na minha opinião, ela é a mais técnica das quatro, eu sempre fico impressionada ao vê-la dançar. Será que está faltando presença em cena ou as coisas são mesmo mais lentas pelas mãos da Tamara Rojo, a diretora da companhia?

Perfil no site da companhia, aqui.
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“Pas de deux”, Harlequinade, Precious Adams e Fernando Carratalá Coloma, English National Ballet, 2018.

Esse breve texto não é nada perto das discussões e informações necessárias a respeito do racismo na dança. Por isso, recomendo também outros quatro posts do blog:

Vamos ler, ouvir, discutir, compartilhar. O racismo é um problema nosso e deve ser combatido até o seu fim.