De pas de deux a pas de six

A coreografia começa com um pas de deux e depois se transforma em um pas de six. Essa delicadeza faz parte da linda obra Dances at a Gathering, de Jerome Robbins.

“Chopin Mazurka, Op. 6 nº 2″, Dances at Gathering, Ópera de Paris, 2014.
Amandine Albisson, Joshua Hoffalt, Ludmila Pagliero, Karl Paquette, Charline Giezendanner, Christophe Duquenne.

Uma nomeação e uma lição

Para quem não conhece, a hierarquia da Ópera de Paris funciona da seguinte maneira: quadrilles, coryphées, sujets, premiers danseurs e étoiles. Para as três primeiras promoções, os bailarinos precisam passar nos concursos internos da companhia. Para ser nomeado étoile, apenas se for escolhido pela direção.

Há dois dias, a Ópera nomeou sua nova étoile: Amandine Albisson. Ela entrou para a companhia em 2006 e, ano passado, passou no concurso para première danseuse. Em apenas poucos meses, foi escolhida pela diretora Brigitte Lefèvre para ocupar o posto máximo da companhia.

Amandine Albisson no concurso interno da Ópera de Paris, 2013. Foto: Sébastien Mathié.

Vou explicar brevemente algumas coisas para vocês entenderem meu ponto de vista. A Brigitte Lefèvre é bastante criticada pelas suas escolhas. Demorou muito tempo para nomear bailarinas queridas pelo público, como Myriam Ould-Braham e Isabelle Ciaravola, e foi questionada pelas nomeações de Ludmila Pagliero, Eleonora Abbagato e, agora, Amandine Albisson. Também por não ter escolhido dessa vez a Eve Grinsztajn. No caso de Amandine, ela é declaradamente a preferida de Brigitte, e o abraço das duas depois do anúncio mostra isso. (Quem quiser ver, aqui.)

Não entrarei no mérito do talento da Amandine Albisson. Aliás, simpatizo demais com ela. Não consegui encontrar vídeos dela dançando coreografias clássicas, mas fiquei encantada com seu talento ao assistir a trechos de uma obra contemporânea. O que são esses braços e esse domínio da técnica? (Para assistir, aqui. Ela aparece em 4’21”.) Dessa forma, o que falarei não tem a ver com ela, mas com uma situação que permeia não apenas o ballet clássico, mas a vida: talento e dedicação não garantem nada a ninguém.

Quantas bailarinas do corpo de baile ficaram lá eternamente porque não eram as preferidas? Quantas chegaram a primeira-bailarina sem, necessariamente, merecerem isso? Quantas bailarinas demoraram a subir porque não tinham um padrinho ou madrinha para segurar sua mão?

E nem falo somente das companhias. Nos estúdios de dança, sabemos que isso acontece. Não apenas nos cursos de formação, mas nos cursos livres. Eu já fui preterida por quem não gostava lá muito de mim. Eu já percebi quando relevaram certas coisas porque iam com a minha cara. Também já vi papéis principais irem para as mãos de quem não merecia e foi triste assistir à merecedora dançar apenas um pas de quatre.

O mundo é justo? Não. É injusto sempre? Também não. Mas é importante perceber que o progresso não depende apenas de nós. Às vezes, tivemos o azar de esbarrar com quem não gosta da gente. Ou, às vezes, só alcançamos certos feitos porque alguém carrega uma imensa simpatia por nós.

Não duvido que Amandine Albisson seria nomeada étoile em algum momento, mas ela só conseguiu agora por causa da Brigitte Lefèvre. Se isso acontece em uma das companhias mais antigas e reconhecidas do mundo, não sejamos inocentes: acontece em qualquer lugar.

Reconhecer isso nos dá a real dimensão de como a vida funciona. E o que nos cabe, ou não, realizar.

Para saber mais

Quem quiser ler uma análise sobre a nomeação de Amandine Albisson, leia o post do blog Danses avec la plume, em francês, aqui.