A primeira-bailarina do bairro

Ela chega altiva no estúdio de dança. Independentemente da sua altura, é longilínea. Coque impecável, agasalho de dança cheio de estilo, que esconde por baixo a roupa de aula, meia-calça rosa fazendo as vezes de legging. Um brilho natural na pele, um gloss rosa na boca, cílios naturalmente alongados.

Aliás, o que não é alongado nela? Durante o aquecimento, o tornozelo vai parar na testa, o pé, na cabeça. Na hora da aula, ela nunca erra as sequências da barra. E as diagonais? Chainé, chainé, chainé, chainé e termina com um arabesque, porque ela realmente acredita que está dançando a “Variação de Odette”, de O lago dos cisnes.

Só tem um problema: ela nunca está alinhada, porque o nariz empinado não deixa. Sempre para cima. Ela não acha, ela tem certeza que nasceu para ser primeira-bailarina, só não está no Bolshoi ou no Royal porque o destino não quis.

Conhece alguém assim?

Eu chamo essa aluna de “primeira-bailarina do bairro”: é a melhor sim, no bairro dela. Ela não seria profissional em nenhum lugar, tampouco dança suficientemente bem para fazer frente às bailarinas de grandes companhias.

Mas você, que começou adulta, ainda não sabe disso. Ao vê-la dançar, acredita que nasceu com dois pés esquerdos. Não importa o seu tipo de corpo, você não será alongada nunca. O joelho teima em dobrar. Você se sente estranha com aquela meia-calça cor de rosa. O collant mostra mais do que devia. Você nunca vai acertar o tempo do pas de bourré. Diagonal? Você não consegue ir de um ponto a outro, você se perde no caminho e ainda esbarra na colega de turma (eu já fiz isso). O seu nome é frustração.

“Por que eu e essa bailarina estamos na mesma turma?”, você diz para si mesma, “Tem alguma coisa errada”. Não, não tem. Vocês estão na mesma turma por um motivo: ela não é tão boa quanto pensa nem você é tão ruim quanto imagina.

Eu conheci várias delas, tanto no meu tempo de aulas de ballet quanto depois. Hoje eu acho graça, porque essa vaidade imensa parece coisa de vilã adolescente daqueles filmes da Sessão da Tarde, sabe? Ou da Netflix, dependendo da sua idade.

Como reconhecê-la? Conhecimento sobre ballet clássico. Quanto mais você souber, quanto mais você estudar, quanto mais você assistir, mais fácil será reconhecer quem realmente domina a técnica clássica (e isso vale para as aulas presenciais, as aulas online e as publicações nas redes sociais).

É tão importante assim saber isso? Sim e não. Sim, para você não atrapalhar o seu desenvolvimento na dança. Não, porque não é para levar tão a sério. Siga o seu caminho e que ela siga o caminho dela. No fim das contas, na dança é você e você, e mais ninguém.

Qual dança diz quem você é?

Eu estava há alguns anos sem fazer aulas de dança e queria voltar a estudar em um estúdio. Por que não tentar um outro caminho? Assim, comecei a fazer flamenco.

Em um sábado qualquer, eu era a única aluna presente. Enquanto eu esperava a professora chegar, fiquei parada na porta da sala ouvindo o que estava acontecendo na sala ao lado. A música entregava o mistério, era aula de ballet clássico.

Quando acabou, vi várias alunas adultas saindo de lá. Olhei para elas, collant, meia-calça rosa, sapatilhas, algumas um pouco mais alinhadas, outras levemente desarranjadas. Olhei para mim, saia longa ajustada ao corpo e rodada na barra, blusa de manga três quartos, sapato de salto quadrado. Flamenco é assim: você pode até tentar ser largada, mas não consegue, parece que estamos sempre lindas.

Nesse “olhar para elas” e “olhar para mim”, eu não me reconheci.

Não foi a primeira vez que esse não reconhecimento aconteceu. Anos antes, foi assim durante uma aula experimental de dança de rua e também aconteceu antes de uma apresentação de dança do ventre. Em ambos os casos, olhei no espelho e não me enxerguei ali. Mas dessa vez foi diferente, não sei por quê. Desde então, a ideia de uma dança que mostra quem somos ficou na minha cabeça.

Assim, pergunto a vocês: Qual dança diz quem você é?

Não pense em qualidade técnica, em anos de estudo, em dançar bem. Existe alguma dança que encontra a sua alma, que ao se olhar no espelho você sorri sem querer. Talvez você nunca a tenha dançado, mas algo lhe diz que seria um belo encontro.

Qual é a minha? Eu ainda não sei. Quem me conhece bem costuma me associar a danças de saias longas e rodadas, de flores nos cabelos, como nessa cena da minissérie Capitu. Aquele momento lá atrás em que me reconheci no ballet clássico não existe mais. Isso também acontece: o tempo passa, as coisas mudam e não somos mais a mesma pessoa. O que antes nos dizia tanta coisa perdeu o sentido. Alguém já passou por isso? O ballet e eu, por exemplo.

Talvez exista relação entre as características de cada dança e de cada pessoa. O ballet tem um ar onírico, delicado, um tanto pueril. O jazz é energia e ritmo, além de juvenil, não importa a idade de quem esteja dançando. O flamenco é belo, musical e imponente, toma conta de tudo. A dança contemporânea dialoga com o tempo e com a realidade na qual está inserida. O sapateado é a habilidade de um corpo que canta, os pés são um instrumento musical.

Existem outras tantas danças, mas escolhi essas cinco porque são algumas das mais comuns nos estúdios de dança do Brasil. Selecionei um vídeo para cada uma delas, todos com no máximo dois minutos, e a escolha foi proposital: são sempre pessoas dançando sozinhas. É mesmo o momento do “eu”, de olhar e se encontrar.

Quando eu descobrir a minha dança, eu volto para contar. Enquanto isso, divirtam-se, e me contem qual é a dança de vocês.

BALLET CLÁSSICO: “Variação de Swanilda”, primeiro ato, Coppélia, Pacific Northwest Ballet, Leta Biasucci

JAZZ: Who Are You / The Night Comes Again, Nicholas Palmquist

FLAMENCO: “Enternal monolouge”, Melina Najjar

DANÇA CONTEMPORÂNEA: Solo de Suíte Branca, Grupo Corpo, [não consegui descobrir quem é a bailarina]

SAPATEADO:Alexander Hamilton”, Hamilton, Bayley Graham

Dois encontros, a sincronicidade e a dança no fim do caminho

Neste texto, eu farei um longo percurso de uma experiência pessoal até a livre criação artística na dança. Quer caminhar comigo até lá? Respire fundo, pegue na minha mão e venha.

Uma tarde de novembro de 2020. Passeando pelo Twitter, um tuíte chamou a minha atenção: era uma palestra da jornalista e escritora Suleika Jaouad. Autora do livro “Between Two Kingdoms“, ela foi diagnosticada com leucemia aos 22 anos de idade e contava como a parte mais difícil de seu câncer foi o depois, quando já estava curada. Como recomeçar depois de ter a vida interrompida? Cliquei no link e resolvi assistir.

Encontro um: Suleika, eu e o futuro

Não era um dia qualquer, não para mim. Como eu contei semana passada, tive problemas de saúde em 2012, mas só recebi os diagnósticos corretos entre 2020 e 2021. O mais importante aconteceu no dia seguinte à palestra, eu recebi o resultado de dezessete exames diferentes, que atestavam os erros médicos do passado. Eu estava bem, era algo simples, a minha vida poderia seguir normalmente. Façam os cálculos, foram oito anos de engano. Vocês conseguem imaginar o que eu senti?

Naquele momento, as palavras da Suleika Jaouad passaram a fazer sentido para mim: como recomeçar depois de uma grande pausa na vida? Não tive um problema de saúde tão sério e debilitante quanto o dela, mas foram anos de privações, dores, sintomas aleatórios, angústia e isolamento. De um dia para o outro, acabou. Eu estava livre. E agora?

Ninguém a minha volta entendeu, claro. Eu não tinha motivo algum para me sentir mal, não era uma coisa boa? Mas uma pessoa me entenderia, a Suleika Jaouad. Ela sequer imagina que os seus dezessete minutos de palestra, que chegaram até mim como um aviso do futuro, foram o meu alento.

Um ano depois, novamente no Twitter, soube que a leucemia dela voltou. Eu senti demais a notícia, como se fosse com uma pessoa próxima. Ela fez o transplante de medula e está em processo de recuperação. Do fundo do meu coração, fiz a única coisa que eu poderia fazer: desejar a ela uma nova cura.

Apenas ao final da leitura eu notei onde eu estava: era a newsletter “The Isolation Journals” (Diários de Isolamento). E chegamos ao ponto que quero compartilhar com vocês: a criação artística no nosso dia a dia.

Ao receber o seu primeiro diagnóstico de leucemia, a Suleika criou o “Projeto 100 dias”, que consistia em uma criação artística por dia, tanto dela quanto de seus familiares e das pessoas próximas. Quando a pandemia começou, ela usou a mesma ideia para criar a newsletter “The Isolation Journals”, em que propostas de escrita eram enviadas às pessoas inscritas. Assim, elas criavam seus próprios textos com base nessas indicações. Para vocês terem uma ideia, são mais de 100 mil pessoas inscritas ao redor do mundo.

A newsletter gratuita é enviada todo domingo com dois textos: um da Suleika Jaouad e outro de uma pessoa convidada, geralmente uma artista, que também é responsável pela proposta criativa. Caso você queira seguir a proposta, terá uma criação sua ao final da tarefa.

No meu texto de quinta-feira passada, eu terminei dizendo que nesta semana eu falaria sobre a “criação livre”, sem compromisso, mas a ideia era falar sobre qualquer arte. No domingo, recebi a nova newsletter. Agora, me digam: quais as chances dessa edição ter como artista convidada uma bailarina e coreógrafa do Brasil com uma proposta criativa de dança?

Encontro dois: Sofia, eu e a dança

Sofia Tsirakis é bailarina, coreógrafa e em 2014 criou o Danças Polifônicas, uma plataforma artística cujo foco é a dança em um diálogo com outras artes, como música e teatro. Ela e Suleika Jaouad fizeram faculdade juntas nos Estados Unidos e são amigas.

Em seu texto intitulado “One Hundred Small Dances” (Cem Pequenas Danças), publicado na newsletter “The Isolation Journals” número 190, ela conta brevemente a respeito de sua participação no primeiro “Projeto 100 dias”, seu desejo em se dedicar à dança logo após a faculdade, suas dúvidas entre ficar em Nova York ou voltar para o Brasil e, por fim, sua prática de dança.

Em um trecho, ela diz: “Eu fechava meus olhos e me concentrava primeiro na respiração, tentando ouvir, deixar meu corpo me guiar. Às vezes, eu ouvia música, mas muitas vezes eu fazia isso em silêncio”.

Além disso, Sofia nos presenteia com a sua proposta criativa, como podemos encontrar essa dança, como deixá-la surgir, fluir e fazer-se presente.

Aqui é um ponto-chave: o processo proposto por Sofia para essa “pequena dança” surgir. Confesso, a minha vontade foi dançar naquele momento, como se o movimento adormecido em mim tivesse acabado de acordar.

“Onde está isso, Cássia, eu também quero fazer!”

A newsletter é escrita em inglês e eu sei que vocês querem ler aqui a proposta traduzida para o português, mas não farei isso. Por quê? Por alguns motivos. Primeiro, vocês não vão até o link original. Segundo, vocês não vão ler o texto completo da Sofia Tsirakis. Terceiro, acho importante vocês lerem tudo, os dois textos e a proposta. Quarto, quem quer mesmo terá de se mexer, ou seja, ler em inglês ou usar o Google Tradutor. Vamos? Clique aqui.

Quem ama dançar não precisa obrigatoriamente abraçar a dança como um projeto de vida e se mostrar ao mundo. Podemos dançar sem sermos bailarinas, criar apenas para si mesma, para se encontrar, se reconhecer, sentir a dança no corpo e na alma. Um dia essa “pequena dança” pode abrir a porta e sair por aí? Claro que pode, a gente nunca sabe quando a vida vai nos surpreender. Mas, por ora, dance simplesmente porque você quer dançar. Para muitas de nós, é o suficiente.

Para saber mais:

O perfil pessoal da Suleika Jaouad, aqui.
O perfil pessoal da Sofia Tsirakis, aqui.
O perfil do “The Isolation Journals”, aqui.
Para se inscrever na newsletter “The Isolation Journals”, em inglês, aqui.
A newsletter 190, “Roiling, Coiling, Shapeshifting & dancer Sofia Tsirakis on a road trip with no fixed destination”, com a prática criativa de dança, em inglês, aqui.
A Suleika Jaouad dançando no hospital, aqui.