Sentir-se uma criança

Há onze anos, eu não me apresento em um palco dançando ballet clássico. Dia desses, estava lembrando dessa época e do meu desconforto nas apresentações.

Durante o meu período de aulas de dança, eu me apresentei em três espetáculos. Ao todo, foram quatro coreografias de ballet clássico, duas de dança do ventre e uma de jazz musical. Eu não entendia por que me sentia “estranha” apenas ao dançar ballet. Medo do palco nunca foi, porque fiz cinco anos de teatro e participei de três peças antes de começar a dançar. Em relação aos cursos, no teatro raramente nos apresentamos uma única vez, você fará uma minitemporada de qualquer forma. Na dança, são meses de ensaio para três minutos no palco, se muito, e acabou.

Também por essa razão, os públicos são diferentes. No teatro, há muitas pessoas que não conhecem ninguém ali e vão assistir à peça. Na dança, são familiares e pessoas próximas das alunas que vão assistir à apresentação de uma pessoa querida.

O meu incômodo poderia ser pela minha própria inabilidade? Nunca dancei bem ballet clássico e sempre me senti meio desengonçada. Mesmo seguindo a coreografia, eu me sentia fora do lugar.

E os figurinos? O primeiro foi um vestido lindo e o último foi um macacão, muito bonito também. Ambos eu guardo até hoje. Tutu mesmo só usei o romântico, um rosa e outro branco, e nas provas de figurino eu dizia que parecia um algodão-doce. Com o tutu rosa, eu realmente parecia. O figurino era lindo, minha mãe chorou ao me ver no palco, mas eu me sentia com 10 anos de idade. Eu tinha 29. Preciso dizer que doei os tutus?

Assim, tive um estalo: eu me sentia como se estivesse em uma apresentação da quinta-série. Eu me sentia uma criança.

Não, não é essa a visão que eu tenho de uma bailarina. Ao ver profissionais dançando de tutu, nunca olhei para nenhuma delas como uma menina. Pelo contrário, sempre vi mulheres e as acho incríveis. Existem alguns questionamentos a respeito da infantilização da mulher no ballet clássico? Sim, existem, mas poderemos falar sobre esse assunto em um outro dia. Há praticantes de ballet clássico que, mesmo sem querer, se mostram um pouco infantilizadas? Também existem, mas é uma escolha, ou um desejo. O ponto não é esse, mas como eu me sentia.

Sempre aparentei ser mais nova, e a minha altura também não ajuda, tenho 1,50m. Por isso, costumo ser vista como fofa sem qualquer tentativa de infantilização da minha parte (Afinar a voz, falar devagar, virar a cabeça para o lado ao prestar atenção no que dizem e sorrir curtinho para evidenciar as bochechas, sabem como é?). Agora, imaginem uma fofa de tutu, dançando ballet e meio desengonçada. Quando temos 10 anos é uma graça. Aos 30 anos, não.

Por essa razão, mas sem ter consciência disso, não sentia o palco como o meu lugar. Se eu dançasse bem, me sentiria de outra maneira? Talvez. Se eu dançasse mais vezes e para um outro público, seria diferente? Quem sabe. Se eu dançasse com outro figurino, me sentiria mais confortável? Pode ser. O “se” é sempre uma possibilidade.

A realidade é que, de bailarina tule cor de rosa, eu me sinto uma criança. Ou um algodão-doce.

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ATUALIZAÇÃO:
Pesquisando para a newsletter de novembro, encontrei o post “A diferença entre a sala de aula e o palco”, de novembro de 2009, em que eu falava sobre me sentir inadequada dançando ballet clássico. Onze anos entre a dúvida e a resposta.

Arte para quê?

Quais são as memórias mais presentes da arte na minha vida?

Eu menininha assistindo ao filme “O mágico de Oz” na televisão. Recém-alfabetizada lendo “O menino maluquinho” na casa da minha avó materna. Eu trancada no quarto ouvindo mil vezes um disquinho de ensino de música clássica em que os instrumentos da orquestra eram apresentados um por vez e depois todos juntos tocavam “Farandole“, de Bizet. Na escola, assistindo ao filme “Sociedade dos poetas mortos” e chorando de soluçar. Descobrir “Romeu e Julieta“, ler uma vez e reler mais de quinze vezes. Da faculdade em diante, visitar as exposições de Monet, Degas e Dalí no Masp, e a Bienal de São Paulo. Adulta, assistir à peça “Hysteria“, do Grupo XIX de Teatro, uma divisora de águas na minha vida. Música clássica na Sala São Paulo e no Theatro Municipal. Assistir ao meu repertório preferido, “Giselle“, dançado pelo Bolshoi.

Entre esses vários momentos, eu também passei para o outro lado. Fiz três peças de teatro e quase me tornei atriz profissional. Dancei em três espetáculos como aluna apaixonada. Escrevi três livros e tenho outros em andamento. Na última peça, a minha personagem (a menina Ofélia do conto “A legião estrangeira“, de Clarice Lispector) contava que matou um pintinho. Em uma das apresentações, lembro de uma moça na minha frente com os olhos marejados e uma expressão de angústia. Enquanto eu contava sobre o pintinho, eu pensei: “Ela matou um na infância”. Possivelmente, ela voltou mais tranquila para casa naquele dia. Ela não era a única no mundo que acabou com um pintinho sem querer.

Todos nós tivemos pelo menos um encontro transformador com a arte. Uma música, um filme, uma peça, um livro, um quadro. Alguma obra, em algum momento, mudou a nossa visão de mundo.

Aí vem a pergunta: como essa obra surgiu? Músicas caíram do céu em um dia de chuva? Livros nasceram em árvores? Atores e atrizes apareceram no seu quintal? Quadros coloridos começaram a surgir nas paredes da sua casa como num passe de mágica? Filmes brotaram quando uma televisão foi ligada?

A resposta é óbvia, mas vamos a ela: não, essas obras foram criadas. Há muitas pessoas envolvidas nesse processo. A ideia surge com os artistas. A produção vem depois, de artistas e outros profissionais. Ou seja, muitas pessoas trabalham bastante para a gente enxergar a vida e o mundo de outra maneira.

Quem duvida, por favor, crie alguma coisa. Tente. Junte a turma do seu bairro e produza “Dom Quixote”. Reúna um dos seus grupos de whatsapp, especialmente um bem raivoso que chama artistas de vagabundos, e façam um filme. Componha uma canção e grave. Escreva uma história e depois a transforme em livro. Vamos lá, mãos à obra! Depois volte aqui e venha me dizer que artistas levam uma vida tranquila. Tente trabalhar sem ser um alvo constante. Tente produzir sem dinheiro para a obra e tampouco para se sustentar dignamente. Afinal, artistas vivem de inspiração e vento, quem precisa de dinheiro e isenção fiscal são os fabricantes de geladeira e refrigerante.

“Cássia, não venha com mimimi! Há coisas mais importantes no país, como saúde e educação.”

Tiraram educação artística do currículo escolar e eu não estou sabendo? A psiquiatra brasileira Nise da Silveira não revolucionou o tratamento de saúde mental por meio da arte? Eu poderia usar índices, pesquisas e informações para mostrar que arte tem relação direta com saúde e educação, mas eu não vou. Hoje, não.

Eu queria terminar 2019 sendo delicada e afetuosa, mas eu não sou “good vibes”. Aliás, se alguém consegue ser na situação em que nos encontramos, boa sorte, porque você vai precisar.

Dei mil voltas para não falar claramente sobre a demonização da cultura, o ataque às artes e a perseguição aos artistas. Será que ainda existe democracia? Se temos de pensar mil vezes antes de falar, talvez ela seja apenas uma abstração.

As informações necessárias sobre a importância da arte e a economia da cultura virão em 2020. Vamos dialogar bastante por aqui. Hoje o texto foi pessoal e desconexo porque o que existe em mim nesse fim de ano não é mel, é bile. Mas em poucas horas um novo ano vai surgir e continuaremos. Porque é isso o que fazemos, continuamos.

De uma maneira ou de outra, a arte sempre resiste, porque sem ela não existimos.

Feliz Ano-Novo!

Os meus outros amores

Não é segredo para ninguém que, em maior ou menor grau, somos apaixonadas pela dança. Ela toma conta dos nossos dias, dos nossos pensamentos, do nosso corpo e não conseguimos mais largá-la. Às vezes, a relação fica estremecida, mas não termina.

Mas alguém vive apenas de dança? Não é uma pergunte retórica, é um questionamento sincero. O mundo é vasto, não é raro termos outras paixões na vida.

Confesso, eu tenho outros dois amores. Dança, me perdoe, mas você não é a soberana do meu coração.

OS LIVROS

Não me lembro de um período da minha vida em que os livros não estivessem presentes de alguma maneira. Assim que aprendi a ler, as palavras tomaram conta dos meus dias.

Lá pelos meus onze anos, eu assisti na escola ao filme Sociedade dos poetas mortos. A poesia mudando a vida daqueles garotos e a minha, eu tão pequena sendo tomada por aquele amor. Comecei a escrever poemas e textos curtos pouco tempo depois. Ganhava livros de presente, cabulei aula para ler, adorava a biblioteca da faculdade, me tornei uma profissional dos livros, lancei três, participei de um clube de leitura por anos, faço um podcast sobre escrita com uma grande amiga escritora. Há livros ao lado da cama, na minha mesa, na estante. Tenho dois leitores de livros digitais. Amo livrarias. Adoro conversar sobre o que estou lendo, adoro saber o que as outras pessoas estão lendo. Sempre sorrio ao ver alguém com um livro em mãos. Desdenhe dos livros e nunca mais eu te olharei da mesma maneira. Se alguém fala mal da literatura, eu levo para o lado pessoal. Parece exagero, mas não é.

A minha relação com os livros é tão próxima que sequer posso compará-la com a dança. Os livros são quem eu sou, a dança é a minha companheira nos dias de alegria.

Trailer de Jane Eyre, do American Ballet Theatre, inspirado no livro homônimo de Charlotte Brontë.

O FUTEBOL

Eu jogava futebol na escola, mas era apenas no intervalo, porque meninas não jogavam futebol nas aulas de educação física. Para a minha desolação, eu era obrigada a jogar outras modalidades. Inventei uma dor de barriga em um jogo do campeonato de vôlei entre turmas porque tinha pavor de jogar (desculpe, time, mas seria bem pior comigo na quadra). No fim das contas, a agonia durou apenas o primeiro ano do ginásio, fui diagnosticada com um problema no meu joelho esquerdo e passei a ser liberada das aulas. Sabe como o problema deu uma trégua? Adulta, graças às aulas de ballet.

Eu sou corinthiana e passei anos da minha vida querendo ir ao estádio, mas nunca tive companhia. Porque era perigoso, porque não queriam me levar, porque torciam para outro time, porque isso e aquilo, enfim. O meu amor pelo futebol acontecia apenas assistindo aos jogos na sala de casa. Até que aconteceu a Copa do Mundo no Brasil. Não, eu não fui a um jogo sequer, mas emendava um jogo atrás do outro assistindo pela televisão. Dali em diante, passei a acompanhar futebol todos os dias. Sim, eu sou daquelas pessoas que assistem a mesas redondas, em que discutem por uma hora se foi pênalti ou não. Esquema tático, escanteio, tiro de meta, impedimento soam tão naturais para mim quanto plié, diagonal, corpo de baile e pas de bourré. Acompanho todos os jogos do meu time, em todo os campeonatos que ele participa. Também acompanho o time feminino e a seleção brasileira feminina.

Três anos depois, finalmente eu fui ao estádio. Sozinha. Passada a barreira do medo, fui outras vezes, sempre sozinha. Aprendi os cantos da torcida e me sinto em casa. Quando perguntam “Como é usar sapatilha de ponta?”, não conseguimos explicar porque só quem usou sabe como é. Com o futebol é a mesma coisa. Se você não torce por um clube de todo coração, nunca vai entender a emoção de um gol, a tristeza ao perder um jogo, o sentimento de ser campeão. Neste mosaico, eu estou lá na primeira perninha de baixo do H, chorando porque eu estava no estádio vendo meu time campeão brasileiro de 2017. É um momento que levarei para o resto da vida.

Trecho de “Big Bang”, da obra Onqotô, do Grupo Corpo. A coreografia faz alusão ao Fla-Flu (Flamengo e Fluminense), um dos maiores clássicos do futebol brasileiro.

E quais são os outros amores de vocês?