O meu ano na dança

Em 2020,

Eu assisti online a várias obras de dança: pré-gravadas, gravadas especialmente para este momento de isolamento social, transmissões ao vivo.
Eu assisti a mais obras de companhias brasileiras do que de companhias internacionais.
Eu assisti a mais obras de dança contemporânea do que de ballet clássico.
Eu assisti a poucas lives, mas todas de profissionais da área.
Eu assisti à dança em outros meios, de videodança a palestras, de trechos curtos a documentário.
Eu ouvi trilhas sonoras de espetáculos de dança.
Eu ouvi podcasts de dança.
Eu li textos sobre dança.
Eu participei de uma oficina sobre produção audiovisual em dança.
Eu mantive o blog com posts nem tão regulares ao longo do ano todo.
Eu fiz newsletters sobre dança.
Eu pesquisei e escrevi profissionalmente sobre dança.
Eu não dancei. Mesmo assim, a dança foi presente na minha vida como nunca.
E este é o meu desejo para o próximo ano: a dança sempre presente, da maneira que for.

Até 2021.

Sentir-se uma criança

Há onze anos, eu não me apresento em um palco dançando ballet clássico. Dia desses, estava lembrando dessa época e do meu desconforto nas apresentações.

Durante o meu período de aulas de dança, eu me apresentei em três espetáculos. Ao todo, foram quatro coreografias de ballet clássico, duas de dança do ventre e uma de jazz musical. Eu não entendia por que me sentia “estranha” apenas ao dançar ballet. Medo do palco nunca foi, porque fiz cinco anos de teatro e participei de três peças antes de começar a dançar. Em relação aos cursos, no teatro raramente nos apresentamos uma única vez, você fará uma minitemporada de qualquer forma. Na dança, são meses de ensaio para três minutos no palco, se muito, e acabou.

Também por essa razão, os públicos são diferentes. No teatro, há muitas pessoas que não conhecem ninguém ali e vão assistir à peça. Na dança, são familiares e pessoas próximas das alunas que vão assistir à apresentação de uma pessoa querida.

O meu incômodo poderia ser pela minha própria inabilidade? Nunca dancei bem ballet clássico e sempre me senti meio desengonçada. Mesmo seguindo a coreografia, eu me sentia fora do lugar.

E os figurinos? O primeiro foi um vestido lindo e o último foi um macacão, muito bonito também. Ambos eu guardo até hoje. Tutu mesmo só usei o romântico, um rosa e outro branco, e nas provas de figurino eu dizia que parecia um algodão-doce. Com o tutu rosa, eu realmente parecia. O figurino era lindo, minha mãe chorou ao me ver no palco, mas eu me sentia com 10 anos de idade. Eu tinha 29. Preciso dizer que doei os tutus?

Assim, tive um estalo: eu me sentia como se estivesse em uma apresentação da quinta-série. Eu me sentia uma criança.

Não, não é essa a visão que eu tenho de uma bailarina. Ao ver profissionais dançando de tutu, nunca olhei para nenhuma delas como uma menina. Pelo contrário, sempre vi mulheres e as acho incríveis. Existem alguns questionamentos a respeito da infantilização da mulher no ballet clássico? Sim, existem, mas poderemos falar sobre esse assunto em um outro dia. Há praticantes de ballet clássico que, mesmo sem querer, se mostram um pouco infantilizadas? Também existem, mas é uma escolha, ou um desejo. O ponto não é esse, mas como eu me sentia.

Sempre aparentei ser mais nova, e a minha altura também não ajuda, tenho 1,50m. Por isso, costumo ser vista como fofa sem qualquer tentativa de infantilização da minha parte (Afinar a voz, falar devagar, virar a cabeça para o lado ao prestar atenção no que dizem e sorrir curtinho para evidenciar as bochechas, sabem como é?). Agora, imaginem uma fofa de tutu, dançando ballet e meio desengonçada. Quando temos 10 anos é uma graça. Aos 30 anos, não.

Por essa razão, mas sem ter consciência disso, não sentia o palco como o meu lugar. Se eu dançasse bem, me sentiria de outra maneira? Talvez. Se eu dançasse mais vezes e para um outro público, seria diferente? Quem sabe. Se eu dançasse com outro figurino, me sentiria mais confortável? Pode ser. O “se” é sempre uma possibilidade.

A realidade é que, de bailarina tule cor de rosa, eu me sinto uma criança. Ou um algodão-doce.

*

ATUALIZAÇÃO:
Pesquisando para a newsletter de novembro, encontrei o post “A diferença entre a sala de aula e o palco”, de novembro de 2009, em que eu falava sobre me sentir inadequada dançando ballet clássico. Onze anos entre a dúvida e a resposta.

Arte para quê?

Quais são as memórias mais presentes da arte na minha vida?

Eu menininha assistindo ao filme “O mágico de Oz” na televisão. Recém-alfabetizada lendo “O menino maluquinho” na casa da minha avó materna. Eu trancada no quarto ouvindo mil vezes um disquinho de ensino de música clássica em que os instrumentos da orquestra eram apresentados um por vez e depois todos juntos tocavam “Farandole“, de Bizet. Na escola, assistindo ao filme “Sociedade dos poetas mortos” e chorando de soluçar. Descobrir “Romeu e Julieta“, ler uma vez e reler mais de quinze vezes. Da faculdade em diante, visitar as exposições de Monet, Degas e Dalí no Masp, e a Bienal de São Paulo. Adulta, assistir à peça “Hysteria“, do Grupo XIX de Teatro, uma divisora de águas na minha vida. Música clássica na Sala São Paulo e no Theatro Municipal. Assistir ao meu repertório preferido, “Giselle“, dançado pelo Bolshoi.

Entre esses vários momentos, eu também passei para o outro lado. Fiz três peças de teatro e quase me tornei atriz profissional. Dancei em três espetáculos como aluna apaixonada. Escrevi três livros e tenho outros em andamento. Na última peça, a minha personagem (a menina Ofélia do conto “A legião estrangeira“, de Clarice Lispector) contava que matou um pintinho. Em uma das apresentações, lembro de uma moça na minha frente com os olhos marejados e uma expressão de angústia. Enquanto eu contava sobre o pintinho, eu pensei: “Ela matou um na infância”. Possivelmente, ela voltou mais tranquila para casa naquele dia. Ela não era a única no mundo que acabou com um pintinho sem querer.

Todos nós tivemos pelo menos um encontro transformador com a arte. Uma música, um filme, uma peça, um livro, um quadro. Alguma obra, em algum momento, mudou a nossa visão de mundo.

Aí vem a pergunta: como essa obra surgiu? Músicas caíram do céu em um dia de chuva? Livros nasceram em árvores? Atores e atrizes apareceram no seu quintal? Quadros coloridos começaram a surgir nas paredes da sua casa como num passe de mágica? Filmes brotaram quando uma televisão foi ligada?

A resposta é óbvia, mas vamos a ela: não, essas obras foram criadas. Há muitas pessoas envolvidas nesse processo. A ideia surge com os artistas. A produção vem depois, de artistas e outros profissionais. Ou seja, muitas pessoas trabalham bastante para a gente enxergar a vida e o mundo de outra maneira.

Quem duvida, por favor, crie alguma coisa. Tente. Junte a turma do seu bairro e produza “Dom Quixote”. Reúna um dos seus grupos de whatsapp, especialmente um bem raivoso que chama artistas de vagabundos, e façam um filme. Componha uma canção e grave. Escreva uma história e depois a transforme em livro. Vamos lá, mãos à obra! Depois volte aqui e venha me dizer que artistas levam uma vida tranquila. Tente trabalhar sem ser um alvo constante. Tente produzir sem dinheiro para a obra e tampouco para se sustentar dignamente. Afinal, artistas vivem de inspiração e vento, quem precisa de dinheiro e isenção fiscal são os fabricantes de geladeira e refrigerante.

“Cássia, não venha com mimimi! Há coisas mais importantes no país, como saúde e educação.”

Tiraram educação artística do currículo escolar e eu não estou sabendo? A psiquiatra brasileira Nise da Silveira não revolucionou o tratamento de saúde mental por meio da arte? Eu poderia usar índices, pesquisas e informações para mostrar que arte tem relação direta com saúde e educação, mas eu não vou. Hoje, não.

Eu queria terminar 2019 sendo delicada e afetuosa, mas eu não sou “good vibes”. Aliás, se alguém consegue ser na situação em que nos encontramos, boa sorte, porque você vai precisar.

Dei mil voltas para não falar claramente sobre a demonização da cultura, o ataque às artes e a perseguição aos artistas. Será que ainda existe democracia? Se temos de pensar mil vezes antes de falar, talvez ela seja apenas uma abstração.

As informações necessárias sobre a importância da arte e a economia da cultura virão em 2020. Vamos dialogar bastante por aqui. Hoje o texto foi pessoal e desconexo porque o que existe em mim nesse fim de ano não é mel, é bile. Mas em poucas horas um novo ano vai surgir e continuaremos. Porque é isso o que fazemos, continuamos.

De uma maneira ou de outra, a arte sempre resiste, porque sem ela não existimos.

Feliz Ano-Novo!