Sempre há uma perdida

Mesmo que a gente queira a perfeição, os erros existem e todo mundo sabe. Há os pequenos deslizes, que a plateia não nota, e há os grandes desastres, que todo mundo percebe.

Alguém vai para o lado oposto, ou erra a contagem, ou esquece o passo, ou é mais lenta que as demais. Quem nunca passou por isso? Sinto muito, mas hoje não vou filosofar sobre o erro, mas vamos rir disso. Porque quando vemos depois, admitam, é bem engraçado.

Provavelmente, já contei essa história, mas ela merece ser recontada. Eu passei por essa situação, mas não como coadjuvante, eu fui a protagonista do grande erro. Doze bailarinas, duas colunas, cada qual dava um pequeno salto e depois todas se entrecruzavam fazendo pietiné. Elas foram e eu fiquei para trás, porque fui muito lenta. E como filmaram do mezanino, dá para ver lindamente a dona Cássia perdida lá no meio. O detalhe é que eu havia cometido o mesmo erro no ensaio e tive de ouvir uma bronca gigantesca. Acho que o meu inconsciente rebelde não gostou dos gritos e errei de novo em plena apresentação.

Querem outra? Um ano depois, lá estava eu no corpo de baile. Em um determinado momento, todas deveriam fazer uma sequência de attitude croisé devant. Tenho quase certeza que fiz effacé. E enquanto fazia os passos, eu pensava: “Acho que há algo errado.” Digo quase porque nunca assisti à filmagem, mas lembro de mim no palco com essa sensação de errar e continuar dançando como se nada estivesse acontecendo.

Pensei nessas histórias ao assistir à Valsa dos erros, de “The Concert”, de Jerome Robbins. Eu a conheci graças à querida Cyndi. Eu rio alto toda vez que assisto e aposto que vocês também vão se identificar em algum momento. Ou porque já fizeram algo semelhante ou porque alguma colega de turma é a perdida da vez.

A valsa dos erros, “The Concert”, Vienna State Ballet.

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Para saber mais sobre “The Concert”, em inglês, aqui.

Dentro do possível

Fazer aulas de ballet clássico e dançar ballet clássico nem sempre andam de mãos dadas. Há pessoas que fazem aulas, mas não querem estar no palco, o que é absolutamente legítimo. Já outras querem dançar, o que é igualmente legítimo.

No segundo caso, o grande problema é que as nossas expectativas estão muito além da nossa realidade como bailarina. Assistimos a tantos ballets que sonhamos com a Variação da Fada Lilás, Variação de Odile, Variação da Fada Açucarada. E quando finalmente tentamos dançá-las, sentimos que além de termos dois pés esquerdos, nunca fizemos uma única aula de ballet clássico na vida. É frustrante e desanimador.

Em primeiro lugar, vamos encarar a realidade. Peguemos a carga horária de aulas. Supondo que uma bailarina profissional tenha seis horas diárias de treino, seis dias por semana, descontando as apresentações, chegamos a 36 horas semanais entre aulas e ensaios. Por mês, ela faz 144 horas de ballet clássico.

Agora, vamos analisar uma bailarina amadora. Supondo que ela faça duas aulas na semana, de 1h30 cada, chegamos a três horas semanais de treino. Não contarei os ensaios dos espetáculos, tudo bem? Por mês, ela faz 12 horas de ballet clássico.

Ou seja, em média, as bailarinas profissionais treinam, por mês, 12 vezes mais do que as bailarinas amadoras. Sério mesmo que vocês querem comparar umas às outras? Por mais que as bailarinas profissionais tenham tipo físico adequado, talento e facilidade para a dança, elas treinam muito! Mas muito mesmo! Comparar chega a ser covardia.

Ainda assim queremos dançar. E agora, qual é a solução? Desistir? Abandonar as outras áreas da vida e treinar loucamente o dia todo? Não. Sejamos inteligentes. Vamos escolher coreografias possíveis de serem dançadas.

Sim, sei como os estúdios de dança funcionam: dançamos coreografias que nem sempre gostamos e usamos figurinos que nem sempre queremos. Mesmo assim, podemos aprender a selecionar coreografias e analisar quais conseguimos dançar minimamente bem.

Como exemplo, selecionei o adágio do primeiro ato de Raymonda, Teatro alla Scala, reconstrução¹ do ballet coreografado por Marius Petipa em 1898. Eu disse possível, não fácil…

Adágio, primeiro ato, Raymonda, Teatro alla Scala, Olesya Novikova e Friedemann Vogel, 2011.

Nesse caso, o ponto principal é ter um grande domínio do trabalho de pontas. Mas particularmente, acho esse domínio imprescindível para quem quer dançar nas pontas, caso contrário, não há motivo para usá-las no palco, por maior que seja a sua vontade.

Perceberam como é possível? Agora é prestar atenção naquelas coreografias que condizem com o seu nível técnico e as suas habilidades como bailarina. Podemos sim dançar bem e lindamente. Basta escolher a coreografia certa.

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¹ Reconstrução: é a remontagem de um ballet de repertório o mais próximo possível da sua concepção original. O coreógrafo ou remontador responsável pesquisa anotações, notações, documentos e demais registros da época. Algumas das reconstruções mais recentes são: Raymonda, do Teatro alla Scala; Giselle, do Pacific Northwest Ballet; O corsário, do Bolshoi Ballet; e Paquita Grand Pas, do Bolshoi Ballet.

Quem quiser saber mais sobre o assunto, leia o post “Time Has Told Me: Reconstructing Ballet”, The Ballet Bag, em inglês, aqui.

Saudade de palco

Ao pesquisar posts antigos sobre o assunto, percebi que a palavra “palco” era recorrente neste blog. Falei sobre isso diversas vezes, sob vários pontos de vista. Inclusive, disse que gostava mesmo de aula, não de apresentação.

Tenho pensado muito a esse respeito e foi impossível não fazer uma analogia com meus anos de atriz. Só então entendi essa minha saudade.

Eu fiz teatro durante cinco anos. Eu faço ballet há cinco anos. No primeiro caso, foram três peças e 25 apresentações. No segundo, foram três espetáculos e quatro apresentações.

Quase caí de costas quando fiz a soma. Tudo bem que não me apresento no ballet há dois anos e meio, mas esse número pularia de quatro apresentações para, sei lá, sete? Pouco do mesmo jeito.

Além dessa diferença, existe outra mais importante. No teatro, temos um público que vai à peça justamente por se interessar por ela. Família e amigos estão presentes, mas até pelo número de apresentações, quem nos vê é quem não nos conhece. A relação é entre público e artista.

Pelo menos no ballet clássico, há dois públicos possíveis para quem não é profissional. Existe a “plateia amiga”, aquela das apresentações de fim de ano, composta por família, amigos, consortes e conhecidos, e existe a “plateia especializada”, aquela dos festivais, composta por jurados e outros “concorrentes”. Cadê o público?

Tenho um punhado de histórias dos meus tempos de teatro. De ver alguém da plateia emocionado em plena cena minha. De uma senhora vir conversar comigo depois da peça, enquanto eu ainda estava de figurino, porque ela queria saber a minha idade porque a minha personagem era uma criança. De pessoas que eu reconhecia de outras sessões, porque fizeram questão de assistir à peça diversas vezes. E eu não era atriz profissional. As três peças foram resultado dos meus cursos de teatro. Mas comecei a conhecer o palco, a relação com a plateia e o fascínio que isso exerce.

Agora, me digam, como ter isso na dança sem ser profissional?

De uns tempos para cá, sinto uma vontade imensa de estar no palco. De dançar para a plateia. Mas não quero rostos conhecidos, não quero jurados, não quero companheiros de ballet. Eu quero essa relação público e artista. Acho que finalmente cheguei a uma bifurcação na estrada. Na dança, não dá para ter as duas coisas, estar no palco diante de uma plateia que está presente apenas pelo espetáculo, sendo amadora. Ou dá, mas esse caminho eu ainda não conheço.

Enquanto isso, e a vontade de colocar uns holofotes na garagem da minha casa e chamar todo mundo para me assistir, hein?!