“A alegria é a prova dos nove”

Eu ouvi essa frase de Oswald de Andrade há pouco tempo e ela ecoou em mim de uma maneira difícil de explicar. Admiro imensamente quem é alegre, quem consegue trazer a alegria para a vida especialmente no meio do caos. É muito fácil se afogar na dor, sorrir com ela é outra história.

O imperativo da felicidade, essa obrigação em sermos felizes o tempo todo, nada disso me comove, tampouco me convence. Agora, a alegria? Muitas vezes, ela é o sobrenome da dança.

Assisti a esse vídeo há quase dois meses e, por algum motivo, eu o guardei para publicar justamente no primeiro post do ano. Ele me parece mais apropriado do que nunca. Eu já falei sobre a alegria de dançar, mas dessa vez é a alegria que ultrapassa os limites do ballet clássico. É a alegria da dança, do corpo, de estarmos vivas.

Dancemos com alegria, simplesmente porque merecemos.

Coreografia: Nicholas Palmquist. Música: “All These Things That I’ve Done”, The Killers.

Arte para quê?

Quais são as memórias mais presentes da arte na minha vida?

Eu menininha assistindo ao filme “O mágico de Oz” na televisão. Recém-alfabetizada lendo “O menino maluquinho” na casa da minha avó materna. Eu trancada no quarto ouvindo mil vezes um disquinho de ensino de música clássica em que os instrumentos da orquestra eram apresentados um por vez e depois todos juntos tocavam “Farandole“, de Bizet. Na escola, assistindo ao filme “Sociedade dos poetas mortos” e chorando de soluçar. Descobrir “Romeu e Julieta“, ler uma vez e reler mais de quinze vezes. Da faculdade em diante, visitar as exposições de Monet, Degas e Dalí no Masp, e a Bienal de São Paulo. Adulta, assistir à peça “Hysteria“, do Grupo XIX de Teatro, uma divisora de águas na minha vida. Música clássica na Sala São Paulo e no Theatro Municipal. Assistir ao meu repertório preferido, “Giselle“, dançado pelo Bolshoi.

Entre esses vários momentos, eu também passei para o outro lado. Fiz três peças de teatro e quase me tornei atriz profissional. Dancei em três espetáculos como aluna apaixonada. Escrevi três livros e tenho outros em andamento. Na última peça, a minha personagem (a menina Ofélia do conto “A legião estrangeira“, de Clarice Lispector) contava que matou um pintinho. Em uma das apresentações, lembro de uma moça na minha frente com os olhos marejados e uma expressão de angústia. Enquanto eu contava sobre o pintinho, eu pensei: “Ela matou um na infância”. Possivelmente, ela voltou mais tranquila para casa naquele dia. Ela não era a única no mundo que acabou com um pintinho sem querer.

Todos nós tivemos pelo menos um encontro transformador com a arte. Uma música, um filme, uma peça, um livro, um quadro. Alguma obra, em algum momento, mudou a nossa visão de mundo.

Aí vem a pergunta: como essa obra surgiu? Músicas caíram do céu em um dia de chuva? Livros nasceram em árvores? Atores e atrizes apareceram no seu quintal? Quadros coloridos começaram a surgir nas paredes da sua casa como num passe de mágica? Filmes brotaram quando uma televisão foi ligada?

A resposta é óbvia, mas vamos a ela: não, essas obras foram criadas. Há muitas pessoas envolvidas nesse processo. A ideia surge com os artistas. A produção vem depois, de artistas e outros profissionais. Ou seja, muitas pessoas trabalham bastante para a gente enxergar a vida e o mundo de outra maneira.

Quem duvida, por favor, crie alguma coisa. Tente. Junte a turma do seu bairro e produza “Dom Quixote”. Reúna um dos seus grupos de whatsapp, especialmente um bem raivoso que chama artistas de vagabundos, e façam um filme. Componha uma canção e grave. Escreva uma história e depois a transforme em livro. Vamos lá, mãos à obra! Depois volte aqui e venha me dizer que artistas levam uma vida tranquila. Tente trabalhar sem ser um alvo constante. Tente produzir sem dinheiro para a obra e tampouco para se sustentar dignamente. Afinal, artistas vivem de inspiração e vento, quem precisa de dinheiro e isenção fiscal são os fabricantes de geladeira e refrigerante.

“Cássia, não venha com mimimi! Há coisas mais importantes no país, como saúde e educação.”

Tiraram educação artística do currículo escolar e eu não estou sabendo? A psiquiatra brasileira Nise da Silveira não revolucionou o tratamento de saúde mental por meio da arte? Eu poderia usar índices, pesquisas e informações para mostrar que arte tem relação direta com saúde e educação, mas eu não vou. Hoje, não.

Eu queria terminar 2019 sendo delicada e afetuosa, mas eu não sou “good vibes”. Aliás, se alguém consegue ser na situação em que nos encontramos, boa sorte, porque você vai precisar.

Dei mil voltas para não falar claramente sobre a demonização da cultura, o ataque às artes e a perseguição aos artistas. Será que ainda existe democracia? Se temos de pensar mil vezes antes de falar, talvez ela seja apenas uma abstração.

As informações necessárias sobre a importância da arte e a economia da cultura virão em 2020. Vamos dialogar bastante por aqui. Hoje o texto foi pessoal e desconexo porque o que existe em mim nesse fim de ano não é mel, é bile. Mas em poucas horas um novo ano vai surgir e continuaremos. Porque é isso o que fazemos, continuamos.

De uma maneira ou de outra, a arte sempre resiste, porque sem ela não existimos.

Feliz Ano-Novo!

Onde elas estão?

Há quase cinco anos, escrevi um dos textos mais acessados do blog, “As bailarinas negras e o ballet clássico“. Além de fazer um breve panorama sobre o assunto, falei a respeito de quatro bailarinas do passado (Janet Collins, Raven Wilkinson, Lauren Anderson e Aesha Ash) e quatro bailarinas que estavam ganhando cada vez mais espaço no mundo do ballet clássico (Misty Copeland, Céline Gittens, Michaela DePrince e Precious Adams). Hoje, onde estão essas bailarinas?

Misty Copeland
De solista a primeira-bailarina do American Ballet Theatre

Depois de muitos questionamentos sobre a demora de sua nomeação, Misty Copeland finalmente chegou ao mais alto posto da companhia em 2015, pouco tempo depois da publicação do texto. Na época, lembro de alguns comentários pejorativos, como se ela não fosse merecedora da promoção. Na verdade, comentários racistas, porque ela tem apuro técnico, talento e um físico impecável. Além disso, sua influência vai além dos palcos, ela é uma ativista pela inclusão de meninas negras na dança. Há quem a chame de midiática, eu chamo de reconhecimento mesmo. Atualmente, será que alguma bailarina consegue ter o alcance popular que a Misty conseguiu? Acredito que não.

Perfil no site da companhia, aqui.
Site pessoal, aqui.
Instagram, aqui.

Trechos de Romeu e Julieta, Tchaikovsky pas de deux e Cisne branco, Misty Copeland, Vail Dance, 2015.

Céline Gittens
De solista a primeira-bailarina do Birmingham Royal Ballet

Confesso, eu acreditava que a Céline Gittens chegaria a primeira-bailarina antes da Misty Copeland, mas isso aconteceu um ano depois, em 2016. Delicada, técnica, eu gosto demais de vê-la dançar. Ela não tem tanta projeção quanto as outras três, mas quem se importa? Continua sendo uma grande bailarina.

Perfil no site da companhia, aqui.
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Céline Gittens, “Variação do cisne branco”, O lago dos cisnes, Birmingham Royal Ballet, 2019.

Michaela DePrince
Da companhia jovem à solista do Dutch National Ballet

Na época do texto, a Michaela sequer fazia parte da companhia principal, em pouco tempo, ingressou no corpo de baile e subiu na hierarquia até chegar a solista. Fala-se muito sobre a “força de sua história”, mas nesta palestra ela conta o grau de violência e abandono pelos quais ela passou. “Vocês acham que é um conto de fadas?”, ela pergunta depois de contar a sua vida. Não, não é. Além disso, o grande destaque deveria ser a sua carreira. Não há dúvidas de que o posto máximo da companhia é questão de tempo.

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Site pessoal, aqui.
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Coreografia de Peter Leung/House of Makers, Michaela DePrince, Women in the World, 2015.

Precious Adams
De corpo de baile a first artist do English National Ballet

A Precious Adams estudou no Bolshoi Ballet Academy, foi uma das vencedoras do Prix de Lausanne, mas em cinco anos ela subiu apenas um posto na companhia (first artist está entre corpo de baile e demi-solista). Na minha opinião, ela é a mais técnica das quatro, eu sempre fico impressionada ao vê-la dançar. Será que está faltando presença em cena ou as coisas são mesmo mais lentas pelas mãos da Tamara Rojo, a diretora da companhia?

Perfil no site da companhia, aqui.
Instagram, aqui.

“Pas de deux”, Harlequinade, Precious Adams e Fernando Carratalá Coloma, English National Ballet, 2018.

Esse breve texto não é nada perto das discussões e informações necessárias a respeito do racismo na dança. Por isso, recomendo também outros quatro posts do blog:

Vamos ler, ouvir, discutir, compartilhar. O racismo é um problema nosso e deve ser combatido até o seu fim.