Como o isolamento social transformou a minha relação com a dança

Cinco meses em casa. Diante das circunstâncias e no meio desse turbilhão que estamos vivendo, a dança acabou sendo o meu norte. A nossa relação mudou, e sem qualquer chance das coisas voltarem a ser como antes.

Eu não faço aulas regulares há anos, sendo assim, ficar sem ir ao estúdio não foi um problema. Estudo em casa desde que comecei a dançar, sendo assim, ter uma barra não é novidade. Não sou bailarina profissional, sendo assim, a ruptura na rotina de trabalho não foi um motivo de angústia e preocupação.

O que mudou?

Com os teatros fechados pelo mundo afora, as companhias tiveram de encontrar meios de mostrar o seu trabalho. Assim, várias companhias disponibilizaram obras do seu repertório por um tempo determinado e tivemos acesso a muita informação. Nesses meses de isolamento social, eu assisti a mais espetáculos de dança do que nesses anos todos fazendo aulas e escrevendo sobre o assunto.

Pesquisei sobre dança profissional como nunca havia feito. Só então entendi claramente como a dança é a prima pobre das artes: o espaço dedicado ao jornalismo cultural nos veículos de comunicação tem diminuído nos últimos anos, e a dança é a menor parte dessa fatia tão pequena. Nos demais meios, como a internet, há muito espaço para a dança como prática e pouco espaço para a dança como arte e cultura. Há muito espaço para o sentir-se bailarina e pouco espaço para o ser bailarina profissional. Não estou me eximindo da responsabilidade: faço o mea culpa, eu sempre dei espaço para o que já tinha espaço demais.

Claro, comecei falando de mim, da minha experiência, das minhas angústias. Sim, eu cresci muito durante os anos que fiz aulas de dança, quero voltar um dia; além disso, as nossas dificuldades merecem atenção e informação. Mas o meu olhar se abriu quando eu assisti à dança de mil maneiras. Quantas obras incríveis! As sapatilhas não precisam estar nos meus pés, elas podem estar na minha frente. A dança desnuda o mundo para mim.

E onde entra a valorização de quem torna tudo isso possível?

Os profissionais de dança trabalham muito, nem sempre ganham o necessário, que dirá o merecido. Falo de todos: quem dança, quem cria, quem ensaia, quem ensina, quem ilumina, quem dirige. Tanto trabalho, tanto suor, tanta dor física e emocional para, no fim, alguém dizer: “Mas isso é trabalho?”. Sei que arte e cultura são desvalorizadas no Brasil desde que Cabral pisou nessas terras, mas percebo que a dança é a mais desvalorizada. Isso tem de mudar.

Assistir à dança e valorizar quem produz dança. Foi isso o que mudou. Não é sobre mim. No momento em que fomos obrigadas a ficar numa bolha, eu saí da minha. Agora eu enxergo a dança com mais clareza, mais respeito e muito mais amor.

Escrever sobre dança

Você já pensou em ser bailarina profissional? Eu já, mas a vida, o destino ou as circunstâncias não deixaram acontecer. Ou apenas não aconteceu.

Há pessoas que queriam ser profissionais, assim como eu, e buscam trabalhar em dança de alguma maneira. Outras tantas gostam de dança, mas não querem saber do palco, o interesse delas é em outros seguimentos. Há uma terceira turma, aquelas que aposentaram as sapatilhas e agora buscam novos caminhos.

Não importa qual seja o seu caso, a questão é: não precisa dançar para trabalhar em dança.

Ensino, coreografia, ensaio, direção artística, figurino, cenografia, iluminação, fotografia, audiovisual, música, comunicação, pesquisa, crítica, jornalismo. Algumas dessas áreas têm seus desdobramentos, por exemplo, o ensino pode ser em cursos livres, de formação, ensino superior ou em companhias. Tudo depende da sua formação. Além disso, se você nunca foi bailarina ou coreógrafa, dificilmente será diretora artística. Sem conhecimento em artes cênicas, não trabalhará em cenografia ou iluminação. E por aí vai.

O mundo é vasto, apenas é preciso encontrar o seu lugar.

No meu caso, onde eu fui parar? Na escrita. O blog começou com as minhas experiências como bailarina adulta e aos poucos se transformou num lugar de informação e questionamentos.

Quem acompanha dança para além das aulas e das companhias, sabe como é difícil encontrar textos sobre o assunto nos meios de comunicação. A dança é praticamente uma nota de rodapé no jornalismo cultural. Os blogs são cada vez mais raros, eles deram espaço aos perfis das redes sociais. Sabem por quê? Não dá audiência. Você que dança, você que ama dança, lê sobre dança?

Eu leio. Leio porque me interessa, leio porque prefiro os textos, leio porque sem isso eu não escrevo.

O meu objetivo é escrever cada vez mais por aqui. Dá audiência? Cada vez menos. Por outro lado, é preciso escrever sobre dança. Ao dizer isso, eu não estou diminuindo as outras formas de divulgação, apenas reafirmo a importância do texto. As palavras são imprescindíveis na difusão do conhecimento e sempre terão o seu lugar.

Também quer escrever? Vamos começar do princípio: estudando.

Há algumas semanas, eu assisti no #CulturaEmCasa à aula “O jornalismo e a crítica de dança no Brasil” com Katia Calsavara, jornalista, atriz e bailarina. Além de nos contar a sua experiência em dança e jornalismo, ela conversou previamente com vários profissionais que escrevem sobre dança e fez um panorama dessa área no Brasil. Ela abriu uma janela para mim sobre esse assunto. Quem sabe para vocês também.

“O jornalismo e a crítica de dança no Brasil”, Katia Calsavara, Cultura em Casa, 15 maio 2020.

“A alegria é a prova dos nove”

Eu ouvi essa frase de Oswald de Andrade há pouco tempo e ela ecoou em mim de uma maneira difícil de explicar. Admiro imensamente quem é alegre, quem consegue trazer a alegria para a vida especialmente no meio do caos. É muito fácil se afogar na dor, sorrir com ela é outra história.

O imperativo da felicidade, essa obrigação em sermos felizes o tempo todo, nada disso me comove, tampouco me convence. Agora, a alegria? Muitas vezes, ela é o sobrenome da dança.

Assisti a esse vídeo há quase dois meses e, por algum motivo, eu o guardei para publicar justamente no primeiro post do ano. Ele me parece mais apropriado do que nunca. Eu já falei sobre a alegria de dançar, mas dessa vez é a alegria que ultrapassa os limites do ballet clássico. É a alegria da dança, do corpo, de estarmos vivas.

Dancemos com alegria, simplesmente porque merecemos.

Coreografia: Nicholas Palmquist. Música: “All These Things That I’ve Done”, The Killers.