Escrever sobre dança

Você já pensou em ser bailarina profissional? Eu já, mas a vida, o destino ou as circunstâncias não deixaram acontecer. Ou apenas não aconteceu.

Há pessoas que queriam ser profissionais, assim como eu, e buscam trabalhar em dança de alguma maneira. Outras tantas gostam de dança, mas não querem saber do palco, o interesse delas é em outros seguimentos. Há uma terceira turma, aquelas que aposentaram as sapatilhas e agora buscam novos caminhos.

Não importa qual seja o seu caso, a questão é: não precisa dançar para trabalhar em dança.

Ensino, coreografia, ensaio, direção artística, figurino, cenografia, iluminação, fotografia, audiovisual, música, comunicação, pesquisa, crítica, jornalismo. Algumas dessas áreas têm seus desdobramentos, por exemplo, o ensino pode ser em cursos livres, de formação, ensino superior ou em companhias. Tudo depende da sua formação. Além disso, se você nunca foi bailarina ou coreógrafa, dificilmente será diretora artística. Sem conhecimento em artes cênicas, não trabalhará em cenografia ou iluminação. E por aí vai.

O mundo é vasto, apenas é preciso encontrar o seu lugar.

No meu caso, onde eu fui parar? Na escrita. O blog começou com as minhas experiências como bailarina adulta e aos poucos se transformou num lugar de informação e questionamentos.

Quem acompanha dança para além das aulas e das companhias, sabe como é difícil encontrar textos sobre o assunto nos meios de comunicação. A dança é praticamente uma nota de rodapé no jornalismo cultural. Os blogs são cada vez mais raros, eles deram espaço aos perfis das redes sociais. Sabem por quê? Não dá audiência. Você que dança, você que ama dança, lê sobre dança?

Eu leio. Leio porque me interessa, leio porque prefiro os textos, leio porque sem isso eu não escrevo.

O meu objetivo é escrever cada vez mais por aqui. Dá audiência? Cada vez menos. Por outro lado, é preciso escrever sobre dança. Ao dizer isso, eu não estou diminuindo as outras formas de divulgação, apenas reafirmo a importância do texto. As palavras são imprescindíveis na difusão do conhecimento e sempre terão o seu lugar.

Também quer escrever? Vamos começar do princípio: estudando.

Há algumas semanas, eu assisti no #CulturaEmCasa à aula “O jornalismo e a crítica de dança no Brasil” com Katia Calsavara, jornalista, atriz e bailarina. Além de nos contar a sua experiência em dança e jornalismo, ela conversou previamente com vários profissionais que escrevem sobre dança e fez um panorama dessa área no Brasil. Ela abriu uma janela para mim sobre esse assunto. Quem sabe para vocês também.

“O jornalismo e a crítica de dança no Brasil”, Katia Calsavara, Cultura em Casa, 15 maio 2020.

“A alegria é a prova dos nove”

Eu ouvi essa frase de Oswald de Andrade há pouco tempo e ela ecoou em mim de uma maneira difícil de explicar. Admiro imensamente quem é alegre, quem consegue trazer a alegria para a vida especialmente no meio do caos. É muito fácil se afogar na dor, sorrir com ela é outra história.

O imperativo da felicidade, essa obrigação em sermos felizes o tempo todo, nada disso me comove, tampouco me convence. Agora, a alegria? Muitas vezes, ela é o sobrenome da dança.

Assisti a esse vídeo há quase dois meses e, por algum motivo, eu o guardei para publicar justamente no primeiro post do ano. Ele me parece mais apropriado do que nunca. Eu já falei sobre a alegria de dançar, mas dessa vez é a alegria que ultrapassa os limites do ballet clássico. É a alegria da dança, do corpo, de estarmos vivas.

Dancemos com alegria, simplesmente porque merecemos.

Coreografia: Nicholas Palmquist. Música: “All These Things That I’ve Done”, The Killers.

Arte para quê?

Quais são as memórias mais presentes da arte na minha vida?

Eu menininha assistindo ao filme “O mágico de Oz” na televisão. Recém-alfabetizada lendo “O menino maluquinho” na casa da minha avó materna. Eu trancada no quarto ouvindo mil vezes um disquinho de ensino de música clássica em que os instrumentos da orquestra eram apresentados um por vez e depois todos juntos tocavam “Farandole“, de Bizet. Na escola, assistindo ao filme “Sociedade dos poetas mortos” e chorando de soluçar. Descobrir “Romeu e Julieta“, ler uma vez e reler mais de quinze vezes. Da faculdade em diante, visitar as exposições de Monet, Degas e Dalí no Masp, e a Bienal de São Paulo. Adulta, assistir à peça “Hysteria“, do Grupo XIX de Teatro, uma divisora de águas na minha vida. Música clássica na Sala São Paulo e no Theatro Municipal. Assistir ao meu repertório preferido, “Giselle“, dançado pelo Bolshoi.

Entre esses vários momentos, eu também passei para o outro lado. Fiz três peças de teatro e quase me tornei atriz profissional. Dancei em três espetáculos como aluna apaixonada. Escrevi três livros e tenho outros em andamento. Na última peça, a minha personagem (a menina Ofélia do conto “A legião estrangeira“, de Clarice Lispector) contava que matou um pintinho. Em uma das apresentações, lembro de uma moça na minha frente com os olhos marejados e uma expressão de angústia. Enquanto eu contava sobre o pintinho, eu pensei: “Ela matou um na infância”. Possivelmente, ela voltou mais tranquila para casa naquele dia. Ela não era a única no mundo que acabou com um pintinho sem querer.

Todos nós tivemos pelo menos um encontro transformador com a arte. Uma música, um filme, uma peça, um livro, um quadro. Alguma obra, em algum momento, mudou a nossa visão de mundo.

Aí vem a pergunta: como essa obra surgiu? Músicas caíram do céu em um dia de chuva? Livros nasceram em árvores? Atores e atrizes apareceram no seu quintal? Quadros coloridos começaram a surgir nas paredes da sua casa como num passe de mágica? Filmes brotaram quando uma televisão foi ligada?

A resposta é óbvia, mas vamos a ela: não, essas obras foram criadas. Há muitas pessoas envolvidas nesse processo. A ideia surge com os artistas. A produção vem depois, de artistas e outros profissionais. Ou seja, muitas pessoas trabalham bastante para a gente enxergar a vida e o mundo de outra maneira.

Quem duvida, por favor, crie alguma coisa. Tente. Junte a turma do seu bairro e produza “Dom Quixote”. Reúna um dos seus grupos de whatsapp, especialmente um bem raivoso que chama artistas de vagabundos, e façam um filme. Componha uma canção e grave. Escreva uma história e depois a transforme em livro. Vamos lá, mãos à obra! Depois volte aqui e venha me dizer que artistas levam uma vida tranquila. Tente trabalhar sem ser um alvo constante. Tente produzir sem dinheiro para a obra e tampouco para se sustentar dignamente. Afinal, artistas vivem de inspiração e vento, quem precisa de dinheiro e isenção fiscal são os fabricantes de geladeira e refrigerante.

“Cássia, não venha com mimimi! Há coisas mais importantes no país, como saúde e educação.”

Tiraram educação artística do currículo escolar e eu não estou sabendo? A psiquiatra brasileira Nise da Silveira não revolucionou o tratamento de saúde mental por meio da arte? Eu poderia usar índices, pesquisas e informações para mostrar que arte tem relação direta com saúde e educação, mas eu não vou. Hoje, não.

Eu queria terminar 2019 sendo delicada e afetuosa, mas eu não sou “good vibes”. Aliás, se alguém consegue ser na situação em que nos encontramos, boa sorte, porque você vai precisar.

Dei mil voltas para não falar claramente sobre a demonização da cultura, o ataque às artes e a perseguição aos artistas. Será que ainda existe democracia? Se temos de pensar mil vezes antes de falar, talvez ela seja apenas uma abstração.

As informações necessárias sobre a importância da arte e a economia da cultura virão em 2020. Vamos dialogar bastante por aqui. Hoje o texto foi pessoal e desconexo porque o que existe em mim nesse fim de ano não é mel, é bile. Mas em poucas horas um novo ano vai surgir e continuaremos. Porque é isso o que fazemos, continuamos.

De uma maneira ou de outra, a arte sempre resiste, porque sem ela não existimos.

Feliz Ano-Novo!