A dança além do eu

Meses atrás, o crítico de dança Henrique Rochelle publicou em sua coluna 3ºSinal o texto “A dança do outro“. Presença frequente nas plateias e não nos palcos, sempre o indagam: “Mas você também não dança?”.

Antes mesmo de ler o texto, disse a ele que talvez essa pergunta fosse recorrente porque falamos muito mais da dança como prática do que da dança como manifestação artística. Ele me respondeu que “suspeitava que fosse uma coisa do protagonismo do corpo. O corpo é tão central na dança e na discussão da dança, e ele é tão ‘eu’, que talvez aumente a dificuldade em aceitar outro vínculo”. Li o seu texto e fiquei com isso na cabeça.

Pouco tempo depois, assisti às primeiras cenas dos episódios da série “Move” e as pessoas entrevistadas usaram o pronome “eu” o tempo todo. Não é algo isolado, parece que vivemos em uma pirueta eterna, olhando apenas para dentro.

Lembrei do Henrique no mesmo instante. Entendi como a dança é vista a partir do “eu”, como se ela existisse primeiramente em cada um e, quem sabe, no outro quando eu desligar um pouco o que existe em mim.

Será que não precisamos mudar a chave e de vez em quando trocar o “eu” pelo “nós”? Existimos juntos e dançamos juntos, o tempo todo.

Neste Dia Internacional da Dança, vamos olhar para fora: Quem dança ao nosso lado? Quem está dançando ao nosso redor?  Quem está fazendo dança, criando dança, dançando no mundo?

A meu ver, a dança se tornaria cada vez mais interessante, bela, potente e transformadora.

Um Natal além do Quebra-Nozes

Uma das coisas mais legais do ballet clássico é existir um repertório específico sobre o Natal. Justamente por isso, uma das coisas mais cansativas do mês de dezembro é que o ballet clássico se resume a O Quebra-Nozes. Eu sei, é difícil fugir, o repertório é encantador, a história é uma graça, o soldadinho é fofo, mas depois de uma semana eu mal posso olhar para ele.

Nem entrarei no mérito da simbologia natalina, com tantas referências ao inverno e aos países do Norte, quando cá no Sul estamos em pleno verão e temos uma outra dinâmica, outras referências, outras vivências.

Estou azeda? Um pouco. Reflexo de uma pandemia que, no Brasil, não parece ter hora para acabar.

Nesses momentos em que o chão sob nossos pés não consegue nos manter estáveis, buscar nossas memórias mais doces é um alento.

O cheiro de ameixa fresca e manga rosa. O quentume da cozinha por causa do forno ligado. Farofa, de vários tipos. O presépio que eu montava com a minha tia na infância. O pisca-pisca da árvore. Os desenhos natalinos que eu obrigatoriamente assistia na manhã do dia 25. Os primeiros acordes da “Dança Chinesa”, “Dança Russa”, “Dança dos Mirlitons”, além da “Valsa das Flores”, todos de O Quebra-Nozes. Para mim, a música desse repertório é ainda mais presente que a coreografia.

Sim, todo um discurso para no fim dizer que eu não consigo fugir do soldadinho. Ele surgiu na minha vida antes mesmo de eu começar a dançar. Sejamos amigos, então. Quem sabe assim, ano após ano, ele volte a me dizer que ainda é possível sonhar.

Ilustração: Cristianne Fritsch

Como o isolamento social transformou a minha relação com a dança

Cinco meses em casa. Diante das circunstâncias e no meio desse turbilhão que estamos vivendo, a dança acabou sendo o meu norte. A nossa relação mudou, e sem qualquer chance das coisas voltarem a ser como antes.

Eu não faço aulas regulares há anos, sendo assim, ficar sem ir ao estúdio não foi um problema. Estudo em casa desde que comecei a dançar, sendo assim, ter uma barra não é novidade. Não sou bailarina profissional, sendo assim, a ruptura na rotina de trabalho não foi um motivo de angústia e preocupação.

O que mudou?

Com os teatros fechados pelo mundo afora, as companhias tiveram de encontrar meios de mostrar o seu trabalho. Assim, várias companhias disponibilizaram obras do seu repertório por um tempo determinado e tivemos acesso a muita informação. Nesses meses de isolamento social, eu assisti a mais espetáculos de dança do que nesses anos todos fazendo aulas e escrevendo sobre o assunto.

Pesquisei sobre dança profissional como nunca havia feito. Só então entendi claramente como a dança é a prima pobre das artes: o espaço dedicado ao jornalismo cultural nos veículos de comunicação tem diminuído nos últimos anos, e a dança é a menor parte dessa fatia tão pequena. Nos demais meios, como a internet, há muito espaço para a dança como prática e pouco espaço para a dança como arte e cultura. Há muito espaço para o sentir-se bailarina e pouco espaço para o ser bailarina profissional. Não estou me eximindo da responsabilidade: faço o mea culpa, eu sempre dei espaço para o que já tinha espaço demais.

Claro, comecei falando de mim, da minha experiência, das minhas angústias. Sim, eu cresci muito durante os anos que fiz aulas de dança, quero voltar um dia; além disso, as nossas dificuldades merecem atenção e informação. Mas o meu olhar se abriu quando eu assisti à dança de mil maneiras. Quantas obras incríveis! As sapatilhas não precisam estar nos meus pés, elas podem estar na minha frente. A dança desnuda o mundo para mim.

E onde entra a valorização de quem torna tudo isso possível?

Os profissionais de dança trabalham muito, nem sempre ganham o necessário, que dirá o merecido. Falo de todos: quem dança, quem cria, quem ensaia, quem ensina, quem ilumina, quem dirige. Tanto trabalho, tanto suor, tanta dor física e emocional para, no fim, alguém dizer: “Mas isso é trabalho?”. Sei que arte e cultura são desvalorizadas no Brasil desde que Cabral pisou nessas terras, mas percebo que a dança é a mais desvalorizada. Isso tem de mudar.

Assistir à dança e valorizar quem produz dança. Foi isso o que mudou. Não é sobre mim. No momento em que fomos obrigadas a ficar numa bolha, eu saí da minha. Agora eu enxergo a dança com mais clareza, mais respeito e muito mais amor.