A altura das pernas em “A Bela Adormecida”

Na newsletter de dezembro, eu publiquei a tradução de uma postagem no Facebook do Alexei Ratmansky, um dos coreógrafos mais expressivos do nosso tempo e responsável pelas reconstruções de vários repertórios, em que ele comentava sobre a altura das pernas em A Bela Adormecida. Como o assunto é importante, resolvi publicar no blog também.

Em “A tal da perna alta“, eu escrevi por que pernas altas em repertórios me incomodam demais. Vocês têm percebido como elas estão mais baixas em algumas montagens mais recentes? Eu acho infinitamente mais bonito.

A publicação original do Alexei Ratmansky é esta. Eu a traduzi livremente e republiquei as imagens. A diferença salta aos olhos.

A BELA ADORMECIDA: por quase um século, Aurora ergueu sua perna logo acima do nível do quadril. Você pode ver algumas bailarinas importantes ainda fazendo isso em meados dos anos 1980… Hoje, o padrão se tornou diferente ‒ se Aurora não mostrar a sua calcinha à plateia e aos pretendentes ela não é considerada boa o suficiente. A forma da arte evolui, eles dizem… Eu não posso negar o poder dessa ferramenta ‒ você faz um espacate completo e o público é seu imediatamente, mas a geometria de Petipa é muito específica. Agora nós temos uma compreensão muito melhor disso graças às notações de Sergeev. Na produção da ABT [Ratmansky reconstruiu A Bela Adormecida para o American Ballet Theatre], nós mostramos as intenções originais (não apenas os developpés baixos), então você vê o que foi perdido e o que foi mudado desde que esse trabalho genial foi criado.”

Margot Fonteyn, Carla Fracci, Ekaterina Maximova, Irina Kolpakova.

Svetlana Zakharova, Ana Sophia Scheller, Liudmilla Konovalova, Anna Nikulina. (Alexei escreveu na legenda das fotografias: “Para ser justo, Svetlana fez lindamente developpés contidos em nossa produção do La Scala”.)

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Muito obrigada à querida Sarah, leitora de longa data, que compartilhou essa publicação comigo.

La cachucha

Cachucha é uma dança espanhola cantada e sapateada e, por extensão, a música que a acompanha recebe o mesmo nome. Sabiam que era uma dança difundida no Brasil no século 19?

Fanny Elssler em La cachucha, 1936. Fonte: Wikimedia Commons.

Em 1936, ela tornou-se popular graças à bailarina Fanny Elssler que dançou La cachucha no ballet O diabo manco, de Jean Coralli. A coreografia completa tem seis minutos, mas repetem-se basicamente os mesmos passos enquanto a bailarina vai se movendo delicadamente ao redor do espaço.

Na série Ballet Evolved, do Royal Ballet, no vídeo dedicado à Fanny Elssler, temos uma breve explicação sobre a coreografia. Primeiro, a bailarina faz a sequência final em um ritmo um pouco mais lento, para evidenciar os movimentos: o tronco é muito mais utilizado, de maneira constante, e pode-se realmente sentir o corpo. Depois, ela dança normalmente. Nós conseguimos ter uma bela ideia da coreografia e de sua importância na dança.

Ballet Evolved, Fanny Elssler (1810-1884), Royal Ballet, 2013.

Para quem gosta de mais informações, a notação coreográfica de La cachucha. Dá vontade de ficar um bom tempo analisando essa imagem.

Notação coreográfica de La cachucha, Friedrich Albert Zorn, 1886. Fonte: Wikimedia Commons.

Por fim, a grande Carla Fracci dançando a coreografia. Assisti-la depois de saber essas informações é bem diferente, não é?

Carla Fracci, La cachucha, programa “The Ballerinas”, 1987.

Negra Voz: Mercedes, Consuelo, Bethania, Ingrid

“O Brasil não vê a mulher negra como uma bailarina clássica.”

Ingrid Silva, no quinto episódio do Negra Voz Podcast.

Quatro bailarinas brasileiras negras que tiveram suas histórias interligadas não apenas pela dança, mas pelo racismo, que interviu no caminho de todas elas.

Da esquerda para a direita: Bethania Gomes, Mercedes Baptista, Ingrid Silva e Consuelo Rios. Imagem: Negra Voz Podcast.

No último episódio de sua primeira temporada, o podcast Negra Voz contou as histórias de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro; Consuelo Rios, uma das maiores professoras de ballet clássico do Brasil; Bethania Gomes, primeira bailarina negra brasileira a chegar ao posto de primeira-bailarina de uma companhia; e Ingrid Silva, primeira-bailarina do Dance Theatre of Harlem. Além delas, também descobrimos Beatriz Nascimento, historiadora e ativista do movimento negro, mãe da Bethânia. A Biblioteca do Arquivo Nacional recebeu o seu nome.

O podcast é tão bem-feito que uma história nos leva a outra, vamos descobrindo as trajetórias dessas mulheres e, quando nos damos conta, os nossos olhos estão marejados. É uma aula de história, de política, de arte, de dança.

Ouçam. São apenas 30 minutos que valem por um tempo sem medida.

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