“Se achar que deve, desista”

Há tempos eu li essa frase, “Se achar que deve, desista”, e ela não saiu da minha cabeça. Em um mundo onde não podemos pensar em desistir, alguém dizer para fazermos justamente isso é para pensar.

De uma maneira ou de outra, eu já escrevi a esse respeito algumas vezes. Em 2012, em “Quando não somos a primeira-bailarina“; em 2019, em “Uma bailarina na Broadway“; e, neste ano, em “Um encontro, uma palestra e uma animação“.

No primeiro texto, contei que a Audrey Hepburn abandonou o sonho de ser bailarina profissional e se tornou atriz. No outro, escrevi sobre a bailarina Leanne Cope ter deixado o Royal Ballet para atuar na Broadway e, por fim, publiquei uma palestra em que a Miko Fogarty, jovem bailarina superconhecida nos festivais mundo afora, explicou por que deixou a carreira para estudar medicina.

Provavelmente, as três devem ter ouvido, “Por que você vai fazer isso? Não desista, continue! Uma hora você consegue o que quer!”. E se essa hora nunca chega?

Você sonha em ser bailarina profissional, mas não passa em nenhuma audição, não consegue estudar fora do país, não tem boas classificações nas competições, consegue de vez em quando um trabalho ou outro.

Você está tranquila como bailarina amadora. Faz aulas três vezes na semana, mas não vê evolução. Usa sapatilha de ponta há anos e não consegue fazer uma pirueta limpa. Dança apenas nas apresentações de fim de ano e sempre fica no corpo de baile e suas coreografias de dois minutos.

Você dança como hobby. Gosta da modalidade que escolheu, vê as aulas como momentos de aprendizagem e de confraternização, mas se sente no mesmo lugar. As aulas parecem uma repetição, você está sempre presa à mesma coisa.

Se as três contarem a qualquer pessoa que estão cansadas de nadarem e não saírem do lugar, elas vão ouvir: “Não é o seu sonho? Você não ama dançar? Essas aulas não te fazem bem? Não desista!”.

Sim, desista. Por que não?

Há pouco tempo, no texto “O meu (não) reconhecimento como bailarina adulta“, contei como eu acabei desistindo sem perceber. Talvez, o ballet tenha desistido de mim, quem sabe? A questão é que tirei um peso das costas, como se finalmente eu tivesse voltado a caminhar.

Quando eu falo em desistir, não falo em abandonar a dança, apesar dessa também ser uma possibilidade. Você pode ser profissional em outra função, não necessariamente bailarina. Você pode mudar de escola ou encontrar um lugar que acolha amadoras que querem dançar. Você pode continuar dançando por hobby, mas outra modalidade.

Há pessoas que estão tranquilas onde estão, porque veem esses acontecimentos como um “ainda não”. Elas estão erradas? De maneira alguma, se elas ainda querem nadar, é um direito delas. Cada pessoa sabe da sua própria história. Agora, se a angústia e a frustração viraram uma rotina, tudo bem desistir. “E a vergonha do fracasso?” A vergonha está sempre atrelada ao outro. Sentimos vergonha porque nos preocupamos com o que as outras pessoas vão pensar. E que diferença faz?

Todo mundo fracassa. Todo mundo desiste. Todo mundo passa por isso em algum momento. A diferença é que ninguém conta para ninguém.

A dança não pode ser um fardo, independentemente da função que ela tenha na sua vida. Seja ficar, seja desistir, que seja o melhor para você. Às vezes, basta mudar de caminho para a gente voltar a caminhar.

2 comentários sobre ““Se achar que deve, desista”

  1. Desistir do ballet foi um alívio!! Enorme!! Tava mais frustrada que feliz, mais dolorida que realizada!
    E isso do fracasso e da fraqueza de desistir é real mesmo, mas, no final, só a gente vive a própria vida. Não dá pra ser teimosa às custas da própria paz

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