O meu (não) reconhecimento como bailarina adulta

Os primeiros meses de 2012 foram o meu auge na dança. Eu havia deixado temporariamente as aulas regulares de ballet clássico para me dedicar a uma pós-graduação em dança. O blog estava em ascensão, com picos de visualizações. O meu objetivo era terminar a pós, voltar às aulas e me dedicar exclusivamente à dança. Como? Ainda não sabia, mas olha que sonho! Meses depois, eu adoeci. O blog começou a declinar porque a minha saúde não me deixava continuar aqui como eu gostaria. Não voltei às aulas de ballet clássico e parei a pós-graduação no fim daquele ano.

Dez anos depois, eu nunca mais fiz aulas de ballet clássico. Não voltei para terminar a pós-graduação. Não apenas o meu, mas os blogs em geral declinaram e deram lugar ao YouTube e às redes sociais. A minha saúde? Depois de erros médicos, só tive os diagnósticos corretos em 2020 e 2021. Quase uma década até as coisas voltarem aos eixos.

Qual o resultado disso? Os meus olhos são muito mais gentis e menos combativos. Hoje reconheço alguns erros meus do passado: eu dava murro em ponta de faca. Eu exigia certas coisas sem contrapartida. Eu queria o respeito como sinônimo de reconhecimento, mas sem mostrar por que ele seria merecido.

Nos primeiros anos do blog, eu bradava pelo reconhecimento do ballet adulto como arte. Eu queria que as bailarinas adultas fossem vistas como artistas. Oras, eu era uma bailarina! Veja, não entrarei no mérito do significado de bailarina ‒ isso é assunto para um outro texto, que será publicado em breve ‒, mas queria ser vista como uma artista. As sapatilhas são meu instrumento de trabalho. Eu tenho barra fixa no meu quarto. Eu faço várias aulas, treino em casa, assisto aos vídeos, tenho conhecimento de técnica clássica. Eu sou bailarina, ninguém vê isso?

Não, ninguém via. Sabem por quê? Vou chegar lá.

Toda essa dedicação e conhecimento sobre ballet clássico era reconhecido sim, nos meus textos. Na produção do conteúdo deste blog. Ao longo dos anos, ele passou a ser visto como fonte de informação. Eu conquistei essa credibilidade. Mas eu queria mais, eu queria ser artista da dança. Por que ninguém me via assim?

Simples: porque eu não dançava ballet clássico. Eu fazia aulas, mas as apresentações eram restritas aos espetáculos de fim de ano. Mesmo amadora, eu não vivia a dança no meu corpo. Porque dançar não é apenas fazer aulas de ballet, tudo bem?

Pausa: Vocês estão espumando de raiva de mim. Eu sei, mas eu acho isso mesmo.

Imaginem uma pessoa que quer ser escritora. Ela estuda gramática, ela lê muitos livros, ela acompanha o mundo literário, ela rascunha umas ideias, mas nunca escreveu um parágrafo, que dirá um livro. Ela é escritora?

Como eu disse no texto da semana passada, não existe arte confinada entre quatro paredes. Uma obra artística só se completa na outra ponta: em quem lê, quem ouve, quem assiste. Apenas fazer plié na barra todo santo dia não faz de ninguém uma bailarina. É duro dizer isso, mas é verdade.

No meu caso, tinha um agravante: eu sempre dancei ballet muito mal. Demorei quatro anos para fazer uma pirueta limpa. Sempre me senti uma criança no palco. O meu corpo e o ballet clássico nunca se encontraram. Agora, notem essa equação: se eu só fazia aulas, dançava apenas nas apresentações de fim de ano e dançava mal ballet, como eu era uma artista?

“Ah, Cássia, era o que faltava, agora temos de dançar bem?”

Se queremos reconhecimento em uma arte, temos de ter o mínimo de domínio técnico. Isso não vale apenas para artistas profissionais. Não adianta gritar por reconhecimento se você não consegue fazer uma pirueta limpa na ponta. Se você não tem limpeza nos seus movimentos. Não estou falando em preciosismo técnico, não estou falando em 32 fouéttes. Estou falando de olhar para quem dança e suspirar, em se reconhecer, em ver arte ali. Em dançar, em se mostrar dançando, em mostrar ao mundo que você dança. Sem isso, como vamos dizer que bailarinas adultas também podem dançar?

Não existe poder de barganha se você não dança. Não existe o ser bailarina se você não dança. Não adianta exigir, arrumar briga e gritar se você não dança. Dance! Bailarinas adultas, subam em qualquer palco que esteja aberto para vocês. Não tem palco? Façam vídeos dançando, sozinhas ou com outras adultas. Organizem mostras ao longo do ano nas escolas de vocês, presencialmente ou online. Participem dos festivais que aceitem ballet adulto. Dancem muito e dancem o melhor que vocês puderem. Aí sim o “Eu sou bailarina, me respeita!” se justifica. Caso contrário, é tempo perdido.

*

E a criação livre, a arte no seu dia a dia, também tem de ser bem-feita? Não necessariamente, mas isso é assunto para a semana que vem.

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