Frustração, é você?

“A frustração é o quê, afinal: é quando você cria uma expectativa, você acha que algo vai acontecer, e não acontece. É quando você é negado no seu desejo: você tinha uma expectativa, um sonho, um desejo e aquilo, a vida vem e, pá, tapa na cara, fala ‘não vai acontecer, desiste’.”

Cecilia Dassi, no vídeo “Os impactos da frustração”.

Quantas vezes eu já falei a respeito da frustração? Algumas. Quando escrevi sobre a solidão na dança. Ao dizer para dançarmos uma segunda dança se não somos lá muito boas no ballet clássico. Quando mostrei o curta-metragem do último dia da bailarina Véronique Doisneau na Ópera de Paris e como ficamos tocadas porque nos vimos nela. Depois disse que, tudo bem, não somos a Véronique, cada pessoa tem a sua história e a sua frustração para lidar. E, por fim, o meu sonho além do distante, ser étoile da Ópera de Paris.

Mesmo depois de falar dela tantas vezes, e sempre do ponto de vista pessoal porque não sou psicóloga tampouco psicanalista, nunca escrevi sobre a frustração profunda, aquela que muitas vezes carregamos conosco pela vida inteira. Afinal, o que eu realmente quis na dança?

Sim, só vale no passado. Se você ainda tem chances de realizar o seu sonho, o seu desejo e o seu objetivo, a sua toalha ainda não está no chão. Hoje a conversa é com quem, como eu, deixou o ringue.

Pequenina, o meu pai perguntou o que eu queria ser quando crescer. “Bailarina!”, eu respondi prontamente. Lembro como se fosse hoje, o meu pai deu um longo suspiro provavelmente porque muitas meninas diriam a mesma coisa. Ele também não acreditou quando eu quis fazer aulas de dança e ficou por isso mesmo. Não o culpo, ele apenas não sabia que eu estava falando sério.

Como muitas de vocês sabem, só comecei a dançar aos 27 anos. Ao longo do tempo, das aulas, da dedicação, do estudo, do conhecimento, a resposta da menina foi confirmada: sim, eu queria ser bailarina. Aliás, essa é uma das poucas certezas da minha vida, se eu pudesse escolher, seria bailarina profissional sem pensar duas vezes.

Durante bastante tempo, um grande “se” pairou sobre a minha cabeça. E se eu tivesse começado a dançar na infância, eu teria realizado o meu desejo? Eu nunca vou saber. Não, não existe resposta na autoajuda. “Lute pelos seus sonhos, quem disse que não é possível?” Eu sou uma mulher de 40 anos, na maioria das companhias eu já teria me aposentado. “Dance por hobby, dê aulas, trabalhe em algo relacionado à dança.” Não é a mesma coisa. Todas essas opções são válidas e interessantes por si só, mas não são substitutas. Eu queria dançar. É o desejo que não encontra meios de acontecer. Como lidar com isso?

Já passei pela fase da negação. Já passei pela fase do desdém. Já passei pela fase da tristeza. Não passei pelas fases da raiva ou da inveja. Poderia, o que seria legítimo, mas não passei. A vida acontece a nossa revelia, queiramos ou não.

Como eu estou hoje? No porto seguro da aceitação. Não aconteceu, tudo bem, mas não vou colocar outra coisa no lugar. Sou a bailarina-espectadora, eu me encontro nas obras que assisto, nas bailarinas que me reconheço, nos trabalhos que me dizem tanto. É como se eu estivesse lá. A dança profissional tem o seu lugar na minha vida, mesmo que seja esse, o da não realização. Esse lugar é dela e ninguém tirará isso de mim.

6 comentários sobre “Frustração, é você?

  1. Você conseguiu tirar algumas lágrimas dos meus olhos secos! (rsrs) Compartilho em grande parte desse sentimento!! Por mais que tenha recebidos tantos nãos da dura realidade, não consigo abandonar o ringue!! Ano passado me machuquei (mais uma vez) e chateado decidi parar de vez. Decisão essa que não durou nem um ano. Me dói o coração assistir um ballet e não estar dançando.

    1. Rodrigo, dói um pouco, não é? Mas, no seu caso, olha que coisa boa: se você ainda tem chances de dançar, ainda não acabou. Vou torcer para que os palcos continuem te recebendo. ❤ Grande beijo.

  2. Não sei, mas de alguma forma foi muito reconfortante ler sobre essa frustração que também passei por tanto tempo. Obrigada, Cássia. Por traduzir esse sentimento difícil que muitas de nós passamos

    1. Obrigada, Arissa! É um sentimento tão difícil, mas pouco falado, não é? Reconhecer essa frustração e saber que tantas de nós também passamos por isso, é um alento. Grande beijo.

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